Lições das eleições municipais no Brasil

A imprensa brasileira e internacional, noves fora o seu já conhecido — e expectável — viés antibolsonarista, não errou ao assinalar o fracasso dos candidatos apoiados por Jair Bolsonaro nas eleições municipais do domingo último. O que talvez pudesse assinalar com igual destaque foi o cenário de terra arrasada com que se deparou a extrema-esquerda. Aliás pela terceira vez consecutiva, depois dos fracassos retumbantes de 2016 e 2018.

Há, claro, as exceções de São Paulo e Porto Alegre. Na primeira, o radical “sem-teto” Guilherme Boulos, do oximórico “Socialismo e Liberdade”, disputará o segundo turno com Bruno Covas, herdeiro da formidável máquina eleitoral que manda em São Paulo desde 1982. Na segunda, a extrema esquerda vai de Manuela d’Ávila. Para quem não se recorda, trata-se da companheira de chapa bonitinha mas ordinária de Fernando Haddad em 2018. É o expoente que restou ao velho Partido Comunista da “linha chinesa” (depois albanesa), derrotado pelo exército brasileiro no Araguaia, em 1974.

Ocorre que, em São Paulo, é improbabilíssima a hipótese de Boulos suplantar a máquina eleitoral “tucana”. A cidade, como se sabe, é suficientemente rica para ter gestado e nutrido a sua própria versão do “socialismo caviar” que, no Rio de Janeiro, tem a ressonância que têm os bostejos de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gregório Duvivier. Há ali um número suficiente de gente que não trabalha, ou vive encostado às indústrias académica, cultural e do entretenimento, para jogar um personagem assim num segundo turno. Sem, no entanto, o apoio da classe operária, que garantiu as vitórias episódicas de Luísa Erundina (1988) e Martha Suplicy (“socialismo Givenchy”, 2000), é pouco para fazer frente ao establishment de Franco Montoro—Fernando Henrique Cardoso—Mário Covas—José Serra—Geraldo Alckmin—João Doria.

E o melhor indício de que este apoio minguou vamos encontrá-lo, não na cidade de São Paulo, que é universo atípico, mas no cinturão industrial que foi o berço do PT nas lutas fabris dos anos 70. Reparem: exceptuada Diadema (onde o petista Filippi está quase eleito), o PT foi varrido, com humilhação, de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul (para não falar de Osasco, em pleito já concluído, e Guarulhos, onde um seu quadro histórico disputa o segundo turno com escassas chances de êxito).

Quanto a Porto Alegre, observe-se apenas que Manuela d’Ávila liderou todas as pesquisas até à única que importa: aquela que emerge das urnas. Nas vésperas do pleito, os institutos de pesquisa davam-lhe até 40% das preferências do eleitorado. Nessas condições, terminar o pleito dois pontos atrás dum peemedebista sem brilho é uma derrota incontestável — mormente se levarmos em conta que, no segundo turno que se avizinha, é imensa a probabilidade de os eleitores do terceiro colocado, o atual autarca “tucano”, deslocarem-se em massa para o peemedebista sem brilho, com o só propósito de afastar a esquerda do poder.

Se for preciso resumir ao leitor português o que se deu no Brasil no último domingo, digamos apenas o seguinte: depois da onda da “antipolítica” de 2018, o eleitor recalibrou o seu voto e regressou ao velho tronco dos partidos de centro que mandavam no país antes da vitória de Lula da Silva, em 2002 (e aos partidos de aluguer criados desde então para acomodar as camadas mais “fisiológicas” do Centrão). Fê-lo, provavelmente, porque se cansou do estilo belicoso do Presidente, das polémicas sem pé nem cabeça que alimentou, da facilidade com que alienou quadros valiosos (caso dum Sérgio Moro) e rapidamente compôs com os caciques que o eleitor não queria ver nem pintados em 2018.

Mas esse fato inegável não deve ofuscar o essencial: a erupção, com Bolsonaro, dum voto autenticamente “de direita”, em 2018, foi o quanto bastou para pôr fim à alternância ilusória que se vinha estabelecendo, desde 1985, entre uma centro-esquerda social-democrata (com a exceção do breve interregno de Fernando Collor, em 1991-1992) e uma extrema esquerda sem vergonha de confessar seu nome.И   

 

Luciano Marcondes
Editor-at-large do Inconveniente no Brasil.

No comments

leave a comment