Índia em fase endémica?

Num artigo de investigação de Furquan Ameen de 24-11-2021, no órgão de informação oriental Al Jazeera, faz-se uma análise da situação epidémica da COVID-19 na Índia, região do mundo onde se diz ter aparecido em primeiro lugar a variante Delta do SARS-CoV-2, o vírus que surgiu em Wuhan, na China, em finais de 2019, e que é agora o maior responsável pela doença.

Começa o artigo por dizer que no dia 23-11-2021, a Índia tinha 7.579 casos de coronavírus – o menor aumento em 543 dias, apesar dos grandes festivais desta época do ano. Do artigo, destacamos factos que merecem ponderação:

“Mesmo depois do Diwali (um festival hindu), não estamos a ver um aumento”, disse o Dr. Gupte, ex-diretor do Instituto Nacional de Epidemiologia indiano, em reportagens aos meios de comunicação, atribuindo a estabilidade à presença de anticorpos numa grande maioria de indianos por infecção natural, o que o leva a concluir: “Acho que estamos muito mais seguros agora”.

De acordo com pesquisas levadas a cabo pelo governo, quase 70% dos indianos terão sido infectados naturalmente em julho, após um aumento recorde de infecções e mortes durante a segunda vaga, de abril a maio. O número atual de casos ativos é inferior a um por cento do total e é o menor desde março de 2020.

Mesmo com a Índia a sair da sua temporada de festas e a enfrentar um elevado nível de poluição atmosférica e baixas temperaturas – condições consideradas ótimas para um aumento das infecções – o país parece estar a escapar de uma nova vaga.

O governo e os especialistas em saúde temiam uma terceira vaga do vírus, com relatórios divulgados nos media em agosto e setembro, a alertar para um pico de infecções em outubro ou novembro. Um desses relatórios cita o Instituto Nacional de Gestão de Desastres (NIDM), do Ministério de Assuntos Internos da Índia, e alerta para uma terceira vaga em outubro. O relatório, publicado em meados de agosto e submetido ao Gabinete do Primeiro-Ministro, cita especialistas do governo e de instituições, prevendo uma vaga iminente que poderia, mesmo com medidas restritivas, atingir os 200.000 casos diários (metade do pico de maio de 2021) e em que as crianças correriam um risco acrescido.

No entanto, esse aumento não está a ocorrer, o que leva os especialistas a falar agora de um cenário de passagem da doença a uma fase endémica, em que a transmissão se dá a uma taxa semelhante a qualquer outra doença endémica como, por exemplo, a da varicela.

“Será um baixo nível de transmissão que pode persistir indefinidamente, como acontece com a persistência da gripe ou da febre tifóide. Numa endemia, não há endpoint”, disse o especialista Sundararaman, coordenador global do Movimento de Saúde do Povo e ex-diretor executivo do National Health Systems Resource Center, descrevendo como poderia ser um cenário endémico de COVID-19.

Enquanto alguns estão convencidos da endemicidade do SARS-CoV-2, outros permanecem cautelosos: “Tenho cuidado em dizer que a Índia atingiu a endemicidade porque uma variante malvada, que emerja em qualquer lugar, pode alterar esse equilíbrio”, disse à Al Jazeera Shahid Jameel, virologista e pesquisador do Green Templeton College da Universidade de Oxford.

Existe, assim, o receio de novas variantes ou sub-linhagens para as quais a proteção dada pela infecção natural ou vacinal não seja eficaz (atualmente a Índia só vacinou com as duas doses cerca de 30% da população). De acordo com as notícias, cerca de 40 casos da sub-linhagem AY.4.2 (Delta Plus), foram relatados em pelo menos seis estados. Mais tarde, o consórcio indiano SARS-CoV-2 Genomics (INSACOG) disse que a frequência de Delta é muito baixa na Índia (menos de 0,1 por cento de todas as variantes de preocupação e interesse).

Diz-se que as linhagens Delta estão a impulsionar a terceira vaga no Reino Unido. A Delta Plus, que se especula como sendo 10 a 15 por cento mais transmissível do que a Delta, está a espalhar-se pela Europa.

A prevalência da variante no Reino Unido, de acordo com a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA), aumentou para quase 13% dos casos Delta. Delta Plus, que foi detetada pela primeira vez em julho, foi declarada uma “variante sob investigação” pela UKHSA no mês passado.

“Os casos clínicos em países ocidentais agora estão entre os não imunes (a maioria não vacinados). Isso significa que a imunidade da população (ou imunidade de rebanho) devido a infecções anteriores permanece baixa, como uma dívida que eles têm em relação à variante Delta”, disse Jacob John, virologista e professor reformado, à Al Jazeera.

Jameel culpou o “baixo cumprimento” e a “abertura” do país onde as infecções são causadas por crianças e adolescentes em idade escolar.

Mas as doenças graves e a mortalidade são muito baixas. Isso deve-se às altas taxas de vacinação de adultos e infeções naturalmente leves em pessoas mais jovens”, disse Jameel.

De acordo com o virologista Jacob John, a variante Delta teve uma corrida relativamente livre na Índia. E com a vacinação de duas doses a subir lentamente, acabou por acrescentar uma imunidade coletiva muito alta devido à enorme segunda vaga.

No mês passado, Mumbai, uma das cidades mais atingidas da Índia, não registou nenhuma morte pela primeira vez desde o início da pandemia. Nova Delhi já teve vários dias de morte zero nos últimos meses. As duas cidades mais atingidas pela segunda vaga encontraram alta seropositividade (indício de infeções) na sua população.

“Descobrimos que 90 por cento das pessoas vacinadas tinham anticorpos e entre as não vacinadas, encontramos anticorpos em cerca de 79 por cento delas”, disse o Dr. Daksha Shah, o vice-diretor executivo de saúde da Brihanmumbai Municipal Corporation (BMC).

Shah aponta para a última pesquisa sorológica conduzida pelo BMC, lançada em setembro, que descobriu que 86 % dos residentes em Mumbai tinham anticorpos contra o novo coronavírus.

“Abriu-se toda a economia, desde comboios, autocarros e até teatros. A maioria das restrições foi eliminada. Mesmo assim, os casos não estão a aumentar. E, claro, há um efeito da vacinação”, disse Shah.

A recente pesquisa sorológica de Nova Delhi – a sexta – relatou mais de 95 % de soropositividade nas amostras de cada um de seus distritos, alegadamente devido à vacinação ou recuperação da infeção. A capital nacional tem relatado consistentemente poucos casos novos e mortes, apesar do levantamento de todas as restrições.

No leste da Índia, Calcutá observou um surto de casos diários após o festival hindu de Durga Puja.

“Os casos estão a cair, os números oficiais mostram que nos hospitais podemos ver de novo as camas vagas. Houve um aumento de casos depois de Puja, mas nunca se tornou numa vaga violenta como a segunda vaga”, disse o Dr. Arjun Dasgupta, de Calcutá, que é presidente do Fórum de Médicos de Bengala Ocidental. Acrescentou: “A imunidade obtida em troca de milhões de mortes e a primeira dose de vacinas juntas pode ter funcionado.

O governo indiano assinalou um marco considerável com a administração de mil milhões de doses da vacina em 21-10-2021, com o primeiro-ministro Narendra Modi a comemorar num discurso à nação. Este mês, o governo elogiou-se por vacinar quase 81 % da população adulta elegível com a primeira dose.

Apesar das celebrações iniciais, estima-se que apenas cerca de 40 % da população esteja totalmente vacinada (30 % segundo dados do Our World in Data), mas há milhões a deixar de tomar a segunda dose. Dados do governo mostram que mais de 120 milhões de pessoas recusaram a segunda dose.

A Índia notificou um total de 34,5 milhões de casos COVID-19, perdendo apenas para os Estados Unidos. Os números oficiais de mortes aumentaram 236 nas últimas 24 horas, para um total de 466.147 desde o início da pandemia.

Enquanto isso, a confiança da Índia em soluções digitais para o seu megaplano de vacinação foi criticada por ser exclusivo e limitante na abordagem.

Em 2-11-2021, numa tentativa de aumentar a vacinação e vacinar aqueles que deveriam receber uma segunda dose, o governo indiano lançou uma campanha porta-a-porta de um mês, chamada “Har Ghar Dastak” (Batidas em Cada Porta).

A hesitação vacinal é um problema sério. Não se pode fazer isso com OTPs (senhas de uso único) e aplicativos. Elas (as pessoas) precisam ser rastreadas, de casa em casa. Temos um exército de pessoas que fizeram maravilhas. Foi assim que erradicamos a varíola e a poliomielite”, disse.

O artigo da Al Jazeera não faz qualquer referência aos kits de medicamentos distribuídos à população, também no sistema porta-a-porta, kits esses que, em diversos estados da Índia, continham o vermífugo ivermectina (e a hidroxicloroquina), e cujo papel no combate à pandemia é posto em causa por diversos meios de comunicação e fact-checkers. Sabe-se que a Índia retirou aqueles dois fármacos do protocolo da COVID-19 depois do pico de maio de 2021, cedendo a resultados de alguns estudos que concluíam que esses fármacos teriam pouco efeito na mortalidade e recuperação.

A explicação avançada – “imunidade adquirida pela infeção natural e vacinação (baixa), bem como o sistema de acompanhamento porta-a-porta” – pode explicar em parte a queda abrupta, mas não explica que apenas 0,05% (quinhentos mil em cerca de mil milhões) dos que teriam contraído a infeção tenham morrido, muito inferior às taxas de letalidade conhecidas, nomeadamente em países com sistemas de saúde robustos. Na Dinamarca, país onde mais testes se realizaram por milhão de habitantes, a taxa de letalidade (mortes por casos) foi de 0,6%, ou seja mais de 10 vezes superior à realidade indiana na hipótese defendida no artigo da Aljazeera, de que 70% da população terá contraído a infeção e, por isso, já possui anticorpos contra a COVID-19.

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