Há cada vez mais raparigas a identificarem-se como rapazes

Relatos sobre meninas, que eram tão femininas ainda o ano passado e que este ano se apresentam como rapazes, sucedem-se, e isto está a acontecer em todos os ciclos de ensino. Se pensa que estou a exagerar, vamos aos factos:

No dia 21 de Dezembro de 2023, fomos informados de que, de 2011 até então, quase 200 menores já mudaram de sexo em Portugal. De acordo com a notícia: «Este ano (2023), até 19 de Dezembro, 69 menores mudaram de género e de nome: 18 meninas e 51 meninos (o género após a alteração). Ou seja: 18 meninos e 51 meninas. No total, de 2018 até agora, 187 adolescentes de 16 e 17 anos iniciaram o processo de transição de identidade de género.» Em Março (2023) ficámos a saber que já eram 118 os menores que haviam mudado de sexo e, que: «Do total dos pedidos dos menores, 88 foram para passar do género feminino para o masculino e 30 para passar do género masculino para o feminino.» Portanto, e caso o objectivo dos jornalistas não seja mesmo o de confundir os leitores, creio que os números actuais são impossíveis de conhecer, pois as contas teimam em não bater certas… Aqui ficam os números noticiados, desde que a Lei 38/2018 foi aprovada:

Em 2018, ano em que foi publicada a lei que permite a mudança de sexo por menores, 11 menores mudaram de sexo no CC;

  • Em 2019, foram 19 menores;
  • Em 2020, foram 16 menores;
  • Em 2021, foram 30 menores;
  • Em 2022, foram 45 menores;
  • Em 10/03/2023, já eram 118 menores?

 Estranho, pois, se tivermos em conta os números noticiados até aqui, na verdade teríamos 121…

Para quem estuda os efeitos nefastos da ideologia de género nos mais novos, estes números não constituem nenhuma novidade. Aliás, já escrevi vários artigos, alguns deles publicados pelo Observador, nos quais mencionei que, em Setembro de 2018, no Reino Unido, Penny Mordaunt, ministra do governo britânico, ordenou que se investigasse o facto de tantas meninas estarem a identificar-se como meninos e a quererem «mudar de sexo».

O resultado dessa investigação, que levou ao encerramento da maior clínica de «mudança de sexo» para menores de idade no Reino Unido, revelou que, em menos de uma década, à medida que as políticas de género adentravam as escolas e os influencers trans influenciavam os seus seguidores, o número de menores de idade encaminhados para tratamento de «mudança de sexo» havia disparado: de 97 pedidos (57 rapazes e 40 raparigas) , entre 2009-2010; para 2519 pedidos (713 rapazes e 1806 raparigas) entre 2017-2018, o que corresponde a um aumento global de aproximadamente 2500%. No caso particular das raparigas, o aumento foi de 4415%.

Sim, leu bem, MAIS de QUATRO MIL POR CENTO. Os dados oficiais mostram que o número de meninas que querem mudar de sexo aumentou de 40, em 2009/10, para 1.806 em 2017/18. 

É pouco provável que quem saiu do ambiente escolar há mais de 5 anos tenha conhecido alguém que fosse transexual porque, de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, a disforia de género afectava apenas cerca de 1 em cada 10 000 pessoas, ou seja, 0,01% da população e quase nenhum desses casos era de raparigas adolescentes. De facto, antes de 2012, não existia literatura médica ou científica sobre raparigas adolescentes que quisessem mudar de sexo. Isso não significa que não se soubesse da existência de transexuais.

O transtorno da sexualidade, que mais tarde foi cunhado como «disforia de género» e que hoje, por pressão do lóbi trans, é designado como «incongruência de género» – que sempre significou o desconforto grave em relação ao sexo biológico de uma pessoa – tem vindo a ser estudado há cerca de 100 anos. A ciência diz-nos que afectava quase que exclusivamente os rapazes, que começavam a senti-lo entre os 2 e os 4 anos de idade e que afirmavam veemente e persistentemente, a todos os que os rodeavam, que eram raparigas.

Ora, quando uma parafilia, que praticamente só afectava os rapazes, começa subitamente a afectar as raparigas e quando a idade em que se revela passa dos 2-4 anos para a adolescência, algo de muito preocupante se está a passar.

Ciente disso, em 2016, a investigadora de saúde pública da Universidade de Brown, Lisa Littman, resolveu estudar o aumento súbito de raparigas adolescentes que se identificavam como trans e concluiu que a influência dos pares e dos meios de comunicação social tinham um peso tremendo nessa decisão. Afinal, de acordo com os relatos dos pais, nenhuma daquelas raparigas tinha apresentado quaisquer sintomas de disforia de género na idade em que normalmente se manifestam pela primeira vez: a primeira infância.

O YouTube, o Reddit, o Tumblr, o TikTok e o Instagram dão voz a influenciadores populares das redes sociais – uma espécie de estrelas de Hollywood de proximidade com as quais se pode interagir – que insistem na mentira: se te sentes desconfortável com o teu corpo, se não te encaixas nos estereótipos sociais estabelecidos para o teu sexo, é porque és trans. Muitos, chegam ao cúmulo de prometer, aos influenciados, que assim que começarem o tratamento com testosterona todos os seus problemas desaparecerão.

Não. Eu não tenho nada contra essas raparigas (nem contra os rapazes) e não duvido que elas estejam a sofrer um verdadeiro tormento psicológico. Afinal, apesar de todas as políticas «para melhorar a vida dos mais novos», a verdade é que as taxas de ansiedade, depressão, e os casos de auto-mutilação não param de aumentar. Uma solução rápida é demasiado tentadora: um vídeo do YouTube, a sugestão de um amigo que já está a fazer a transição, e quem está a sofrer acredita na fantasia de que «mudar de sexo» é a solução.

Infelizmente, como essas raparigas não sofrem realmente de disforia de género a «mudança de sexo» raramente oferece alívio. E, aprovar políticas públicas que impedem os profissionais de saúde de exercerem de facto a sua profissão, obrigando-os a afirmar e a medicar à vontade do freguês, é um erro catastrófico. Políticos, médicos, psicólogos e educadores, que empurram adolescentes confusos e fragilizados para «uma solução» que quase de certeza os irá prejudicar em vez de curar, causando-lhes danos irreversíveis, como: alto risco de infertilidade, disfunção sexual e a criação de dependência química permanente, deveriam ser responsabilizados quando o arrependimento chegar. No Reino Unido, 1000 jovens têm uma acção judicial conjunta contra a clínica Tavistock.

Tragicamente, e muito antes de as crianças estarem preparadas psicológica ou emocionalmente para tomar decisões que mudarão toda a sua vida, as políticas públicas abriram uma auto-estrada de 6 faixas livres para elas seguirem rumo à «mudança de sexo». Hoje, é fácil para um adolescente obter testosterona.

No dia 18 de Janeiro de 2024, a Revista Sábado publicou uma investigação que tem como título «Os dramas de quem mudou de sexo». Ao ler a reportagem, ficamos a saber que, e à semelhança do que acontece noutros países, começam a surgir cada vez mais arrependimentos por parte de jovens que fizeram o processo de transição e que «há consultas de género, no SNS, que não duram mais de 15 minutos» e das quais os adolescentes saem com diagnósticos de «disforia de género» e com receitas de hormonas do outro sexo. […] Também somos informados do «impacto do contágio social online nesta nova vaga de pessoas ‘transgénero’ na adolescência e principalmente entre as raparigas». Esse contágio social está muito bem documentado e a sua «relação com outros fenómenos como a anorexia, bulimia, ou os comportamentos auto-lesivos, está estabelecida». Numa caixa de texto, pode ler-se: «Na Clínica privada, Instituto da Face, referenciada pelas associações LGBTQ, o número de cirurgias no âmbito dos processos de transição subiu 450% em 2021 e 82% em 2022». «Fingir que a disforia de género não sofre impacto pelo contágio social é ter medo da verdade.»

Nos EUA, onde a ideologia de género foi implementada há mais tempo, em alguns Estados, menores de idade podem entrar numa clínica de género – sim, há clínicas de género em todo o país (e por cá já vamos para a quarta) – e sair com uma receita de hormonas do outro sexo, sem a autorização dos pais. Raparigas de dezasseis anos podem submeter-se a mastectomias duplas sem que um terapeuta tenha tentado diagnosticar a origem do transtorno ou da «incongruência». E, não se esqueça, a decisão de bloquear a puberdade pode ser tomada por volta dos 8-12 anos.

Previsivelmente, e como estamos a falar de adolescentes, a «mudança de sexo» precipitada tem como resultado um número crescente de arrependimentos e uma epidemia de amputados/castrados. É só pesquisar no YouTube e noutros canais para nos depararmos com novos testemunhos de adolescentes e jovens adultos que reconhecem ter cometido um erro terrível e avisam os outros para não cometerem o mesmo erro.

A pergunta é: como protejo a minha filha de forma a não ser arrastada para esta tendência perigosa e crescente?

Em primeiro lugar, passando mais tempo com ela e limitando a sua exposição às redes sociais. Já há vários estudos académicos que associam as taxas alarmantes de ansiedade e depressão à experiência punitiva das adolescentes nas redes sociais, um lugar que, frequentemente, as faz sentir tristes, pouco atraentes e sozinhas.

Em segundo lugar, opondo-se ao ensino da ideologia de género na escola. A doutrinação sobre o conceito ideológico de uma suposta «identidade de género» começa no infantário e prossegue até ao ensino secundário. Durante 15 anos, as crianças são bombardeadas com a ideia de que a «identidade de género é totalmente independente do seu sexo físico, que é algo que só elas podem sentir e decidir». As escolas podem e devem agir no sentido de que todas as crianças sejam tratadas com respeito, mas sem semear a confusão sexual nos alunos.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, lembre-se de que uma adolescente continua a ser apenas uma adolescente. Ainda que a perversa lei que tem por título «proibição das terapias de conversão» imponha o contrário e aponte para a inibição da paternidade entre os 2 e os 20 anos, os pais não são obrigados de concordar com todas as proclamações de identidade que a sua filha faz. Ela conhecer-se-á melhor com o decorrer do tempo. Até lá, ser o adulto na relação é a coisa mais carinhosa que pode fazer por ela.


Maria Helena Costa

*A autora escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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