Guerra Rússia-Ucrânia: três meses depois

Quando, em 24 de Fevereiro, o exército russo invadiu a Ucrânia, poucos apostariam na capacidade das forças ucranianas para resistirem ao ataque.

Eu mesmo, apesar de bem antes dessa data ter escrito que o ataque russo não iria ser um passeio ao luar, estava longe de pensar que um exército ucraniano, com pouco pessoal bem treinado, deficientemente equipado e armado, e em mudança doutrinária, pudesse combater de forma a deter aquilo que se supunha ser um dos exércitos mais poderosos do mundo.

Quase três meses depois, todas estas percepções mudaram, porque os ucranianos conseguiram mesmo derrotar várias ofensivas russas e, em algumas frentes, estão até a passar à ofensiva.

Há aqui muitas lições a extrair, para todos aqueles que estudam o fenómeno da guerra em geral, e esta guerra em particular.

Para além da logística, já profusamente referida por vários especialistas, o relativo sucesso ucraniano tem também muito a ver com o uso da artilharia, os novos mísseis anti-carro e os drones inovadores e baratos que estão a desnivelar o campo de batalha dos próximos tempos.

O uso que os ucranianos fizeram dos drones foi especialmente marcante, aproveitando as suas capacidades abaixo dos limiares de detecção e velocidade, para atacar colunas blindadas, comboios logísticos, navios e concentrações de forças.

Nomes como Javelin, Brimstone, Switchblade, Bayraktar, etc., referem-se a armas que fizeram e fazem a diferença no moderno campo de batalha.

Um outro factor muito importante, mas pouco compreendido, é a doutrina.

A doutrina militar soviética, e hoje russa, assenta no princípio da massa e o seu calcanhar de Aquiles é a rígida organização vertical que retira iniciativa aos baixos escalões e exige uma constante injecção de ordens oriundas dos escalões superiores. Este sistema enfatiza o cumprimento rígido dos planos, mas impede a flexibilidade necessária para reagir imediatamente a quaisquer alterações no campo de batalha, o que se tem revelado problemático quando se enfrenta um inimigo flexível.

A Guerra do Yon Kippur deixou isto em evidência.

Nos Montes Golan, os sírios, organizados segundo esta doutrina, atacaram massivamente em Outubro de 1973, com 1400 carros de combate, apoiados por fogos de aviação e de mais de 1000 peças de artilharia, ao longo de uma frente de menos de 50 km.

Enfrentando-os, apenas duas Brigadas israelitas com 170 carros de combate, e menos de 100 peças de artilharia. Uma desproporção de 10 para 1.

Ao fim de 3 dias de combates, a derrota israelita parecia iminente, mas quando os sírios pararam para reorganizar e reagrupar, os remanescentes das unidades israelitas lançaram, por iniciativa própria, contra-ataques localizados, de nível esquadrão, e montaram várias emboscadas anticarro que destruíram algumas dezenas de carros de combate sírios. 

Eram manobras tácticas de pequeno alcance, mas as forças sírias no terreno não percebiam o que se estava a passar, não constava no plano, e não reagiam em conformidade porque não tinham ordens.

Quando as informações, tardias e filtradas pelos canais hierárquicos chegavam ao estado-maior sírio, eram interpretadas como alteração dos pressupostos do plano, o que obrigava à emissão de ordens parcelares cujo efeito foi um progressivo abrandamento da ofensiva, que acabou por deter-se e converter-se em retirada face à chegada de reforços acabados de mobilizar.

Em dias, as forças israelitas tinham o caminho aberto para Damasco.

Na frente Sul, a divisão comandada por Ariel Sharon, agindo à Patton, por iniciativa própria, logrou atravessar o Suez, cercar o 3º Exercito egípcio e só não entrou em Ismailia porque o cessar-fogo pôs fim às hostilidades.

Sharon acabou destituído (como Patton), mas a verdade é que a iniciativa local, se bem que tenda a ser contrariada nos seio de organizações rigidamente organizadas, demonstrou virtualidades que foram cabalmente compreendidas pelo Exército americano, cuja doutrina evoluiu no sentido de a incluir em todas as operações.

As próprias ordens de operações passaram a incluir o conceito de operação do comandante e intenção da operação, e a ser menos pormenorizadas nas missões especificas e nas instruções de coordenação.

Diz-se o que fazer, não como fazer.

Voltando à Ucrânia, a maioria dos oficiais ucranianos foi formada na centralizada doutrina soviética, segundo a qual as decisões operacionais são exclusivamente ditadas de cima para baixo.

Mas nos últimos 8 anos, depois da invasão russa da Crimeia e do Leste da Ucrânia, o exército ucraniano, então apanhado de surpresa, inovou, mudou, e tem hoje um núcleo robusto de oficiais aptos a combater segundo uma doutrina que permite aos comandantes no terreno bastante flexibilidade para alterarem os planos segundo a sua visão in loco, no próprio campo de batalha.

Esta capacidade de ajustar as tácticas não existe no exército russo, que por isso mesmo não tem flexibilidade suficiente para se moldar à realidade do campo de batalha, agindo como um touro que investe repetidamente, mesmo que em cada investida leve uma bandarilha, uma atricção que explica as inacreditáveis perdas.

É fácil de perceber que se eu posso mudar os meus planos e o inimigo não, a minha capacidade para emboscar, contornar, retrair, avançar e explorar oportunidades, é muito maior e mais susceptível de confundir o inimigo.

Um outro elemento do sucesso é o factor moral, que sempre foi muito importante nas doutrinas ocidentais. Neste conflito opera ao nível mais fundamental, já que os ucranianos combatem pela sua terra e pelas suas gentes, ao passo que os russos, na maioria, não sabem sequer o que andam ali a fazer e porquê, sendo duvidoso que o slogan do “nazismo”, importante na galvanização das tropas russas na segunda grande guerra, tenha alguma eficácia para jovens que não viveram a devastação causada pelos alemães.

É claro que nem tudo é fantástico, do lado ucraniano.

Vários comandantes deram a entender que, face ao ataque iminente, receberam ordens com pouquíssima antecipação, ou seja, quase foram apanhados de surpresa. 

A regeneração de armas, munições e equipamentos também não estava assegurada e só a excepcional liderança de Zelensky, numa espantosa campanha de comunicação, logrou a ajuda que vários países acabaram por proporcionar, sem a qual, neste momento já a atricção teria deixado os ucranianos a lutar apenas com espingardas e facas.

Percebeu-se também que o lançamento de paraquedistas, ou a inserção profunda de forças no território inimigo, pode ser uma péssima ideia se o inimigo sabe combater e não há capacidade de as extrair ou reforçar. Os russos, movidos talvez por um excesso de confiança, tentaram várias vezes e falharam estrondosamente em todas elas, perdendo, por aniquilação ou captura, tropas altamente valiosas, incluindo unidades de Spetsnaz que, provavelmente, serão agora trocadas pelos ucranianos que lutaram em Mariupol.

O que esta guerra mostrou também, é que as guerras convencionais não são uma coisa do passado. Os ucranianos prepararam bem a defesa convencional de Kiev e executaram contra-ataques de forma quase perfeita e com isso deitaram por terra o plano russo de se apoderar de Kiev e acabar rapidamente a guerra.

Claro que isto ainda não acabou.

A Rússia tem capacidade para manter a guerra durante mais algum tempo, e tem feito alguns avanços, parecendo importar-se pouco com os custos, em tempo, pessoal e material. Todavia a sua capacidade de regenerar certos equipamentos mais sofisticados não acompanha o ritmo da atricção, especialmente num ambiente de isolamento e sanções.

Já se começa, de resto, a notar a diminuição das saídas de aviões e de uso de mísseis de longo alcance.

Se a Ucrânia lograr manter o fluxo da ajuda externa, e sustentar animicamente as perdas, derrotas e prejuízos que ainda estão pela frente, pode perfeitamente perseverar e vencer.

Neste momento, trata-se já de uma guerra de atricção e as vantagens da Rússia tendem a desvanecer-se. Não é improvável que dentro de alguns meses, se a guerra se prolongar, a Ucrânia esteja já em condições de operar uma força aérea capaz e mísseis aptos a neutralizar a força naval russa no mar Negro.

A pergunta que surge é: como é que os russos avançaram com tal confiança, sabendo, como não podiam deixar de saber, tudo isto?

É uma mera opinião, mas penso que o excesso de confiança cresceu ao longo dos últimos anos de sucessos militares e quase total impunidade.

Na Chechénia, as tropas russas conseguiram, apesar dos custos, dominar a situação, com o uso ilimitado da força.

Na Geórgia, ensaiaram a estratégia de tomada rápida de territórios, criando um facto consumado, sem qualquer resposta significativa, para além de protocolares condenações.

Na Síria, intervieram decisivamente para salvar Bashar Al Assad, e usaram todas as tácticas agora em exposição na Ucrânia, incluindo a destruição massiva de cidades, o bombardeamento de todas as infraestruturas, civis ou militares e inclusivamente armas químicas, sem enfrentar quaisquer reacções significativas por parte de outros actores.

A tomada da Crimeia e do Dombass foi praticamente decalcada do modelo usado na Geórgia, e tampouco suscitou mais do que algumas condenações protocolares e sanções inócuas.

A fraqueza percebida da Administração Biden foi a cereja no topo do bolo, devidamente confirmada na desastrosa retirada do Afeganistão e no levantamento das sanções ao Nordstream 2.

O ataque à Ucrânia era o desenvolvimento óbvio deste crescendo de sucessos e confiança, e neste ataque estão presentes todas as práticas ensaiadas com sucesso nos anteriores teatros de operações.

Infelizmente para os russos, os ucranianos são um osso muito mais duro de roer e neste preciso momento o que se passa no Dombass tende para uma guerra de atricção, mais próxima das trincheiras da 1ª Guerra Mundial do que das cavalgadas blindadas da 2ª Guerra Mundial.


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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