Gatos, princesas e snowflakes

Nestes vídeos, gatos confiantes arremetem contra enormes ursos e estes, inacreditavelmente, fogem.

O imponente urso, um dos animais mais fortes da natureza, assusta-se, cede, vira costas e foge porque, tomado de surpresa, desacredita na sua força e acredita na do agressivo gato.

É provável que num qualquer momento posterior o gato se aperceba da sua pequenez, sinta medo e pare. E é também provável que o urso “cheire” esse medo e inverta as posições.

Mas a questão é que o gato ganha quando confia, quando persiste na crença de que é capaz, sem se deter e sem dar tempo ao urso para “pensar” na real relação de forças.

Um filósofo alemão escreveu que a liberdade é o prémio dos que vencem o medo de morrer.

E explica que, numa metafórica batalha no início da História, dois homens se enfrentam numa luta de morte. Mas um deles cede ao medo de morrer e é derrotado. É o escravo! O outro, que se dispõe a morrer, é o vencedor e é livre. É o senhor! A lição é clara: só é livre quem se dispõe a enfrentar o medo de morrer, e vai até ao fim, se for preciso.

Há também aqui, neste vídeo, uma lição de vida: o que mais importa é a atitude!

Todos temos oportunidades se soubermos criar e aproveitar uma percepção de dominância, não duvidando, não descrendo, não perdendo a confiança. Persistindo quando os outros desistem.

Aprendi isto em pequeno, nas pancadarias de rapazes, com as quais, in ilo tempore, se construía o carácter. Era razoável a atirar pedras e fazia-o instintivamente, sem hesitar, quando as coisas se punham feias.  A maioria dos “grandes” do recreio, manifestava um certo “respeito”, que me garantia algum espaço “vital”.

Pelos meus 15 anos, fiz a prova real.

Vindo de Angola, desaguei num liceu de Coimbra, em Fevereiro de 1976, a meio do segundo período.

Era o “retornado”. Caía de para-quedas numa turma onde não conhecia ninguém. E fui logo, obviamente, o alvo da hostilidade dos “campeões” da turma.

Ao terceiro dia, estava na cantina a comer a sopa, quando me aterrou no prato uma bola de guardanapos encharcados. Em simultâneo, uma explosão de gargalhadas vindas de uma mesa perto. Eram, obviamente os “campeões “ da turma. O projéctil tinha vindo de lá, e riam a bandeiras despregadas, confiantes na sua invulnerabilidade.

Senti uma raiva sufocante a subir pelos gorgomilos, agarrei na faca do talher e sem pensar em consequências, sem medir forças, fui na direcção do alvo e virei a mesa, ao mesmo tempo que debitava em acelerado todo o meu reportório de asneiras, insultos e ameaças. Tudo isto foi instintivo, cego, sem raciocínio.

Dois dos “campeões” caíram com a mesa, envoltos em sopa e restos de comida, um ficou de pé mas, nos escassos segundos que ficámos frente a frente, antes de alguns presentes se terem metido no meio, apenas vi nos olhos deles, surpresa e medo. Creio que se tivesse feito “buuu”, fugiriam como os ursos do vídeo.

Dali fomos ao reitor. Já sem a adrenalina, pensei que mas tarde iria ter lá fora uma comissão de espera, para me darem uma tareia monumental. Fiquei com medo, mas nada a aconteceu. E não voltou a haver bullying nem chacota. Tinha ganho a minha posição.

A posição que está ao alcance de todo o indivíduo que não aceita nem gosta de estar no papel de vítima.

Uma posição conquistada, com a qual crescemos e enfrentamos a vida. Se hesitamos, quando hesitamos, seremos a vítima de alguém, por vezes borrabotas  que valem muito menos que nós.

Não por culpa deles, mas por culpa da nossa dúvida. Culpa do momento em que a nossa atitude timorata nos transforma em perdedores, aos olhos dos outros. Não são eles que nos derrotam, somos nós que nos derrotamos a nós mesmos.

O urso, quando foge, acredita que quem o ataca é mais forte, e sente medo. Não pelo tamanho, mas única e exclusivamente pela atitude. O pequeno gato ataca porque sente uma fúria que lhe tira o medo. Quando deixa de acreditar e assume a atitude de vítima, transforma-se em vítima.

Hoje, nas sociedades ocidentais, está a dar-se, ao vivo, perante os nossos olhos, uma inversão catastrófica dos valores naturais com que nos construímos como animais sociais.

Os rapazes já não aprendem as lições básicas da construção da autoconfiança e crescem num ambiente social em que ser vítima é “bom”, porque permite reivindicar, pedir, exigir, berrar.

Os adultos que daqui resultam, são crianças grandes, habituadas à birra para obter o que querem, chorões porque só assim mamam, vítimas porque só assim logram a protecção do papá substituto, o Estado, a universidade, a empresa, a sociedade, etc.

Na semana passada, a senhora Meghan Markle e o senhor Harry (Henry) Mountbatten-Windsor, duques de Sussex, milionários, mimados, privilegiados, foram à televisão americana vitimizar-se (CBS, 7-3-2021).

Ela, Meghan, a quem o facto de ser mestiça não obstou a ter uma vida privilegiada, uma casa de luxo, uma razoável carreira de actriz secundária, um casamento de sonho com um príncipe da casa real inglesa, debitava a litania da raça, da vitimização, do “coitadinha de mim”. Como se tivesse uma vida de merda.

E só ali, na pornográfica choradeira, dentro do seu vestido de cinco mil dólares, ganhou milhões de dólares, na antevisão do futuro “Lili Caneças” que a aguarda.

Ele, o idiota manipulado por uma mulher “louva-a-deus”, que teve tudo e tudo podia continuar a ter, queixava-se de viver miseravelmente com a herança milionária da mãe. E nem por um momento lhe terá passado pela cabeça oca, que podia fazer como toda a gente que não tem heranças milionárias e não é socialite: procurar trabalho e fazer-se à vida!

De que se queixa esta gente? É vítima de quê?… Mas é este o espírito do tempo!

O segredo do sucesso possível, nas sociedades cada vez mais delirantes que estamos a criar, a cavalo das tenebrosas teorias neomarxistas, já não é lutar para ser livre e independente. Mas sim reivindicar a pertença a um qualquer grupo de “vítimas” do “heteropatriarcado branco”.

És mulher? És vítima!

És gay? És vítima!

És transqualquercoisa? És vítima.

És amarelo, castanho, vermelho, azul, verde, whatever? És vítima!

Vens de um país não ocidental? És vítima! (A menos que venhas de um país comunista, situação em que és um “desertor”).

E, como és vítima, tens o direito de fazer birra, de exigir, de choraminhar, de pedir o brinquedo, reparações, vantagens, rebuçados.

Nas universidades, grupos destas imaginárias vítimas, reclamam “espaços seguros”, onde não tenham de ouvir coisas que os ofendem e deixam desconfortáveis.

Uma geração de snowflakes, usando da vitimização e da choraminguice, exige que sejam canceladas, despedidas, censuradas, todas as pessoas, obras, memórias, etc, que os façam sentir-se “pouco seguros”.

E nós somos todos ursos assustados quando cedemos a estes idiotas, em vez de lhes pespegar dois piparotes nas nalgas e mandá-los fazer-se à vida.

As nossas sociedades estão a abarrotar destes cobardes, que desistem, que não lutam, que apenas guincham e fazem queixinhas, que prosperam na parasitação do outro.

Não, isto não tem apenas a ver com pessoas. Aplica-se também aos grupos humanos, países e civilizações.

Pode ver-se todos os dias nos jogos de futebol.

A equipa que confia, que se sente superior, que pressiona, que quer ganhar, de um modo geral, domina o jogo. A mesma equipa, quando mete um golo e se retrai, com medo de perder a vantagem, passa ser acuada, empurrada. De repente, parece que deixou de saber jogar à bola. Os jogadores são os mesmos, o árbitro também, é tudo igual. Excepto, a atitude.

Portugal, na época áurea dos descobrimentos, com cerca de um milhão de habitantes lançou-se ao mundo ousadamente, sem duvidar, sem temer. Era a gente que tinha triunfado em Aljubarrota. A confiança estava no auge. Aqueles portugueses acreditavam neles mesmos, eram como os gatos dos vídeos acima referidos.

Mas quando os grupos humanos, as nações e as civilizações, perdem essa crença na sua própria capacidade, a vitalidade esvai-se. E a História prova que não levam muito tempo a transformaram-se em snowflakes assustados e choramingas, à mercê de tudo e todos.

Estamos nesse caminho.


José do Carmo

*O autor usa a norma ortográfica anterior.

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