Gás natural e nuclear na transição verde

De acordo com informação de 1-1-2022 da Reuters, a União Europeia (UE) tenciona considerar alguns projetos de gás natural e de energia nuclear como investimentos verdes, após um ano de discussões entre os Estados-membros, sobre quais os investimentos energéticos que devem ser considerados realmente amigos do clima.

Espera-se que a Comissão Europeia (CE) proponha ainda em janeiro de 2022 a lista de projetos de gás e nucleares a incluir na “taxonomia financeira sustentável” da UE e os critérios ambientais que devem respeitar para serem considerados investimentos verdes.

Segundo o mesmo artigo, ao atribuir o rótulo verde a projetos amigos do clima, o sistema visa tornar os respetivos investimentos mais atraentes para o capital privado e interromper as lavagens verdes, nas quais empresas e investidores exageram as suas credenciais ecológicas.

O artigo refere que Bruxelas também considera aplicar o sistema a alguns fundos da UE, o que significa que as regras podem permitir decidir quais os projetos elegíveis para determinados financiamentos públicos.

Um rascunho da proposta da CE, acedido pela Reuters, considera os investimentos em centrais nucleares como verdes desde que o projeto possua um plano exequível de um local para descartar resíduos radioativos com segurança. Para serem consideradas verdes, as novas centrais nucleares devem ter licenças de construção antes de 2045.

Os investimentos em centrais a gás natural também serão considerados verdes se produzirem emissões abaixo de 270g de CO2 eq/kWh e substituírem uma central de combustível fóssil mais poluente. Deverão ainda ter licença de construção até 31-12-2030 e prever reduzir as emissões de carbono até ao final de 2035.

A geração a gás e energia nuclear será rotulada como verde com o fundamento de que são atividades “transitórias” – definidas como aquelas que não são totalmente sustentáveis, mas que têm emissões abaixo da média da indústria e não bloqueiam ativos poluentes.

“Tendo em conta pareceres científicos e o progresso tecnológico atual, bem como os diversos desafios de transição entre os estados-membros, a Comissão considera que existe um papel para o gás natural e o nuclear como meio de facilitar a transição para um futuro predominantemente baseado nas renováveis“, afirmou a Comissão Europeia num comunicado sobre o relatório.

Para ajudar os estados com origens energéticas diversas na transição verde, “sob certas condições, as soluções podem fazer sentido embora não pareçam exatamente verdes à primeira vista”, disse uma fonte da Comissão à Reuters, acrescentando que os investimentos em gás e nuclear obedeceriam a “condições rigorosas”.

Os países da UE e um painel de especialistas examinarão a minuta desta proposta, que pode ser alterada antes de ser publicada no final de janeiro. Depois de publicada, pode ainda ser vetada pela maioria dos países da UE ou pelo Parlamento Europeu.

A política a propor tem estado atolada nos lóbis dos governos há mais de um ano e os países da UE não são unânimes sobre quais os combustíveis que são realmente sustentáveis.

O gás natural emite cerca de metade das emissões de CO2 do carvão quando queimado em centrais de energia, mas a infraestrutura de gás também está associada a vazamentos de metano, um potente gás que “aquece o planeta”.

Os conselheiros da UE recomendaram que as centrais a gás não fossem rotuladas como investimentos verdes, a menos que respeitassem um limite de emissões inferior de 100g CO2 eq/kWh, com base nos profundos cortes de emissões que os “cientistas” afirmam serem necessários para evitar mudanças climáticas desastrosas.

A energia nuclear produz emissões de CO2 muito baixas, mas a CE procurou conselho especializado para saber se a tecnologia deveria ser considerada verde, dado o potencial impacto ambiental da eliminação de resíduos radioativos.

Alguns ativistas ambientais e legisladores verdes da UE criticaram esta proposta secreta agora denunciada sobre o gás e o nuclear.

“Ao incluí-los (…) a Comissão corre o risco de comprometer a credibilidade do papel da UE como um mercado líder para finanças sustentáveis”, disse o presidente dos Verdes, Philippe Lamberts.

A Áustria opõe-se à energia nuclear, ao lado de países como a Alemanha e o Luxemburgo. Outros Estados da UE, incluindo a República Checa, Finlândia e França, que obtém cerca de 70% de sua energia do nuclear, veem-na como crucial para a eliminação gradual da energia do carvão, o qual emite demasiado CO2.

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