Fim da era do carvão?

Portugal disse adeus ao carvão na produção de eletricidade por causa da fraca utilização que tinham as suas duas últimas centrais – Sines e Pego. A concorrência desleal das centrais com tarifas caras feed-in (prioridade de entrada na rede), já se reflete (e refletir-se-á mais ainda) no preço da eletricidade aos consumidores finais, privados de uma das fontes mais baratas de energia.

O encerramento das centrais a carvão em Portugal vai ao encontro da campanha anti combustíveis fósseis da “ciência sequestrada pela política esquerdista ocidental” que dá pelo nome de aquecimento global ou, mais recentemente, alterações climáticas.

O carvão mineral é hoje um dos três principais combustíveis fósseis, cuja utilização na produção de eletricidade tem sido a mais desencorajada por ser, alegadamente, o mais poluente e causador do “aquecimento global”. Para além da sua utilização para produção de eletricidade, o carvão mineral tem outras aplicações importantes em várias indústrias, das quais se destacam a indústria cimenteira, onde é usado como fonte de calor barata, e na indústria metalúrgica, para a produção do aço. Além destas principais aplicações, também é usado como matéria-prima em várias indústrias, da farmacêutica à têxtil.

Cerca de dois terços do carvão mineral consumido hoje no mundo destina-se à produção de eletricidade industrial em grandes centrais com potências unitárias de centenas de megawatts. Sendo o carvão o combustível fóssil mais barato, também o custo da eletricidade produzida a partir dele é um dos mais competitivos, tal como o da energia nuclear. Os combustíveis fósseis são responsáveis por mais de 80% das necessidades energéticas mundiais atuais, participando o carvão com cerca de um quarto dessas necessidades, como se pode ver no seguinte gráfico.

Em 1980, os países da União Europeia eram os maiores consumidores de carvão do mundo, consumindo cerca de um quarto do total (21.000 TWh), seguida pelos EUA, com um quinto, e pela Rússia, que também andava perto disso.

Vinte anos depois, em 2000, a União Europeia estava em terceiro lugar, ultrapassada pelos Estados Unidos em segundo lugar e pela China em primeiro lugar. Os EUA consumiam um quarto em 2000, e a China um terço do consumo global, que entretanto subiu para 27.500 TWh.

Em 2020, a China mantém o primeiro lugar com mais de metade do consumo mundial, seguida da Índia com mais de um décimo e dos EUA com cerca de um vigésimo do consumo total, que anda hoje pelos 42.000 TWh.

Note-se que, desde 1980, o consumo de carvão no mundo duplicou, tendo esse aumento sido impulsionado pela China, em primeiro lugar, seguida da Índia. Porém, nos últimos 10 anos, o consumo mundial de carvão estagnou (também na China) – a diminuição do consumo na União Europeia e nos EUA, pressionados pelo espectro das “alterações climáticas” também contribuiu para essa estagnação.

Nestes 40 anos, a Índia passou de um consumo de carvão de 660 TWh para 4.870 TWh, isto é, uma subida de mais de sete vezes, abrandando desde 2018. Sucede, porém, que o consumo geral de energia na Índia está em crescimento, suportado pelo carvão, o gás, o petróleo, a energia nuclear e outras. Sendo a Índia um país com um consumo de energia per capita baixo, cerca de 7.000 kWh/ano, é de prever que o consumo de energia continue a subir no futuro para níveis equivalentes aos dos países ocidentais, nunca inferior a 20.000 kWh/ano. E, tendo a Índia reservas de carvão, é natural que venha a utilizá-las, não só na produção de mais eletricidade, mas também noutras indústrias como a do cimento e do aço.

Os países menos desenvolvidos da Ásia e África também têm no carvão, importado ou por explorar, uma fonte de energia barata, havendo várias centrais já construídas ou em construção. As potências instaladas das centrais a carvão têm vindo a subir a nível global, com a China, a Índia e outros países asiáticos à cabeça, existindo em todo o mundo cerca de 2 TW de centrais elétricas a carvão, metade delas na China. Na UE e nos EUA as centrais a carvão têm vindo a ser encerradas por causa do CO2. Também na Rússia, todavia por razões que nada têm a ver com o CO2, mas com a disponibilidade de outras fontes endógenas.

Em termos absolutos, o consumo de carvão no mundo, que se encontra estagnado em cerca de 40 TWh/ano, deverá aumentar se os países em desenvolvimento dele lançarem mão para a produção de energia elétrica e também para a produção de cimento e aço, tendo em vista o seu desenvolvimento.

Mas se estes países se deixarem manipular pelos aquecimentistas, estarão a comprometer seriamente o futuro dos seus povos, perpetuando o seu atraso, por sua vez impossível de ultrapassar sem combustíveis fósseis, especialmente o carvão que é o mais barato de todos.


Henrique Sousa
Editor de Energia e Ambiente do Inconveniente

Fonte principal de dados: Our World in Data

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Latest comment

  • Excelente artigo. Só mentecaptos sucateiam centrais como as de Sines e do Pego.
    Ver também:
    Importante estudo finlandês revela a impossibilidade da descarbonização
    – As falácias correntes da “descarbonização”
    – “A substituição do sistema actual com combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) por outro com renováveis (solar ou eólico) não será possível para toda a população global”
    https://resistir.info/v_carvalho/descarbonizacao.html

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