Figuras secundárias

Apenas com a legitimidade da eleição no congresso do PSD, Rui Rio entra em cena e faz da fama de ter boas relações com António Costa um trunfo para ultrapassar a falta de diálogo entre o PS e o PSD, por decisão do secretário-geral socialista. Rio, também um anti-Passos, achava que esta era outra credencial para uma promissora relação com Costa. Para salvaguardar as aparências, Costa e Rio assinaram dois acordos sobre descentralização e fundos europeus que pouco acrescentavam. Contudo, Rio estava feliz e a encenação adequava-se às mil maravilhas para quem desejava impressionar logo no início do exercício da presidência do partido.

O pior estava para vir. Costa deixou de se interessar por Rio e este revelava-se, entretanto, um líder errático, sem inteligência política, incompreensivelmente ausente, em constante atrito com o partido. Algumas vezes, Costa até o humilhou. O PSD foi-se tornando irrelevante por culpa exclusiva de Rio, uma vez que concentrou tudo nas suas mãos. Parece um partido de um homem só. Com efeito, passado todo este tempo, não se percebe ainda o que anda a fazer e, por isso mesmo, perdeu a força de ser alternativa. No entanto, há quem esteja a beneficiar da sua displicência: Marcelo e Costa. Interessando-lhe o estado de fraqueza do PSD, Marcelo também contribuiu para isso. Ao comentar na hora tudo e mais alguma coisa, na maior parte das vezes protegendo o Governo, retirou espaço de intervenção ao PSD – e, por igual, ao CDS. Sampaio da Nóvoa, em nova entrevista ao Público em Janeiro de 2018, afirmava que Marcelo estava a reduzir os outros actores políticos quase a figurantes. O que PSD e CDS pudessem dizer era praticamente visto como circunstancial e, para não discordarem directamente de Marcelo em público, ainda tido por um dos seus, optavam pelo silêncio. Parecia que os dois partidos tinham deixado de existir. Depois, com o constante aparecimento de Marcelo e Costa em acções conjuntas de propaganda, mais se foi radicando a ideia de que o país era governado por essa dupla e o resto, no universo político, não passavam de figuras secundárias.

Francisco Menezes

*O autor escreve segundo a norma ortográfica anterior.

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Latest comment

  • Não creio que a culpa do definhamento do PSD se possa imputar à parelha Costa & Marcelo.
    O problema já vem de longe. A figura exuberante de Sá Carneiro não permitiu grandes alternativas. Não é por acaso, que nos últimos anos da sua existência, figuras sombrias do partido se movimentavam discretamente para o derrubar.
    Talvez por acaso, alguém o derrubou, e o partido ficou órfão. Os barões com competência e algum carisma, preferiam manter-se na sombra. Depois apareceu do nada Cavaco Silva, que durou tanto que lhe chamavam “duracell”, e uma vez mais não se acautelou a continuidade. E os barões continuam na sombra, só os totós tipo Santana se dispunham a avançar, mas a popularidade não compensa o deficit dos restantes atributos, e o descalabro foi continuando até se tornar em piquete de serviços de emergência. Quando rebenta um cano, lá vem o PSD fazer a reparação.
    Se assim não é, onde estão as grandes figuras do PSD ?

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