Fé em vez da crendice

Quantas vezes já ouviu dizer que se você se cruzar com um gato preto vai ter azar? Quantas vezes se recusou a passar por baixo de um escadote?

Mesmo nos chamados tempos modernos em que a objectividade e a racionalidade são mais valorizadas, são raras as pessoas que não nutrem secretamente crenças irracionais ou superstições.

As superstições servem muitas vezes para satisfazer necessidades emocionais do indivíduo como a rejeição, a solidão e o fracasso.

Para lidar com emoções como o medo e a ansiedade, reforçadas pela predisposição humana para a fantasia e para a preguiça mental, recorre-se aos encantamentos e aos amuletos, aos rosários de contas pendurados por aí e medalhinhas exibidas em redor do pescoço.

Também a ideia de nós sermos os únicos responsáveis pelo nosso destino e que Deus nos deu o livre arbítrio é assustadora para alguns. Muitas pessoas procuram refúgio em crenças e depositam a sua confiança em coisas absurdas, sem nenhum nexo .

Nalguns casos o medo leva a que entreguem todo o seu pensamento crítico a um líder, um guru que se lhes ordenar passar um cheque, obedecem sem hesitação, porque recusar significa terem de enfrentar a própria liberdade.

Uma lógica desleixada tão fácil que não é de admirar que muitos lancem mão dela.

A predisposição para o mágico e o fantástico é reforçada pelos média em particular pelas televisões e pela indústria cinematográfica.

Os média vivem para os desejos de entretenimento das suas audiências, pelo que, dado o amplo fascínio com a magia, lançam uma corrente constante de filmes e mini-séries e notícias devotadas ao tema.

Estes programas abordam tudo, desde vampiros e espíritos até conspirações irracionais e a intervenção de anjos. Esta atenção contínua para com o fantástico aumenta a aceitação pública e explicações supersticiosas.

Crendices e superstições, fantasmas, almas penadas, sacrifício para salvação, entre outro tipo de crenças não tenham nada a ver com o Cristianismo.

Deus é omnipotente, omnipresente, omnisciente, imutável e eterno.

Quem é de Cristo não fica por aí às voltas, à espera de reencarnar, procurando um “milagreiro“ para fazer o bem de modo a pagar pelos seus pecados.

Deus não perdoa pela metade. Quando salva não o faz pela metade.

O sacrifício necessário à nossa salvação foi feito por Jesus na cruz do calvário. O povo de Deus não ficará errante no mundo sobrenatural, esperando a vez de ser purificado.

Por isso, convém não esquecer que somos salvos não apenas pelas boas obras. O homem não pode comprar a sua própria salvação.

Quem tem fé não pode acreditar numa vida eterna, cheia de pesar, de sentimentos de culpa, de necessidade de voltar à terra vezes sem conta. Vida eterna significa que Deus é Amor e que anseia fazer-nos felizes apenas n´Ele.

Nas palavras de Jesus não encontro nada que tenha a ver com magias, ocultismos, feitiçarias. Jesus vem dar-nos uma nova perspectiva de vida baseada na confiança do Pai, na intimidade da Santíssima Trindade. São Paulo adverte-nos para que rejeitemos os ídolos e as vãs doutrinas (Gálatas 3, 1-5).

E Santo Agostinho adverte-nos de que “o coração humano tão sequioso de amor só encontra descanso em Deus“. O ser humano só se plenifica na intimidade com Deus. Tudo o resto é engano.
Deus dotou-nos de razão e livre arbítrio para que possamos criar o nosso caminho é sermos responsáveis pelos nossos actos, livres.

O escravo da superstição entrega-se a regras que não podem ser questionadas, uma moral coerciva baseada na culpa, no medo, na ameaça.

Há uma tendência de repetição de comportamentos exercidos pelo grupo numa tentativa do próprio se enquadrar num modelo social já realizado.

O submisso da crendice tem tendência para o sectarismo – exclusão de pessoas pertencentes a outros grupos ou que não partilham das mesmas ideias. Preconceitos que transformam homens em seres mecanizados, guiados pelo medo que origina, conserva e alimenta a superstição.

Quem acredita em superstições e crendices vive preso das suas ilusões.

O psicólogo americano Michael Shermer que se dedica ao combate a superstições já afirmava em 9-1-2002, numa entrevista à revista Veja, que o irracionalismo vinha a aumentar nas duas décadas e meia anteriores. Passados vinte anos a tendência agravou-se. Cada vez mais se acredita nas experiências extra-sensoriais, em bruxas, em alienígenas e em discos voadores.

O crendeiro está em toda a parte, em qualquer meio social, entre o povo e a alta sociedade, entre pobres e ricos, ignorantes e eruditos.

Santa Teresa de Ávila disse:

“Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”

Que bom seria se todos assim pensassem.


Cláudio Anaia
www.relances.blogspot.pt

* O autor usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • “E Santo Agostinho adverte-nos de que “o coração humano tão sequioso de amor só encontra descanso em Deus“. O ser humano só se plenifica na intimidade com Deus. Tudo o resto é engano.
    Deus dotou-nos de razão e livre arbítrio para que possamos criar o nosso caminho é sermos responsáveis pelos nossos actos, livres.”

  • Muito, muito Bom ! Parabéns Cláudio.

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