Europa: que futuro económico?

A Europa terá que regressar ao carvão e à energia nuclear em detrimento das metas climáticas e, em relação aos cereais, esquecer a biodiversidade e libertar terras para a agricultura.

A globalização da economia assenta nas teorias económicas clássicas iniciadas por David Ricardo que foram depois aprimoradas por outros como, por exemplo, Karl Marx. Ao contrário do que se possa pensar, a globalização tem uma génese marxista, tendo sido aproveitada pelos que nela viram a possibilidade de expansão e domínio económicos. A ideia de um mundo sem fronteiras físicas ou económicas, como cantava John Lennon na sua célebre canção Imagine, é uma utopia como se pode perceber através dos conflitos ativos e latentes existentes em todo o mundo, com causas diversas.

Uma das teorias de David Ricardo era a das vantagens comparativas ilustrada por ele com as trocas entre Portugal e Reino Unido (RU), reguladas pelo Tratado de Methuen, também conhecido como o Tratado dos Panos e Vinhos: Portugal isentava a lã inglesa de direitos e o RU cobraria ao vinho português menos um terço de direitos dos que cobrava ao vinho francês, além de outros aspetos da política de alianças estratégicas da época.

Porém, aquele tratado – cuja contrapartida política era a proteção inglesa à consolidação da independência de Portugal em relação à Espanha –, prejudicou a economia portuguesa na medida em que a lã inglesa barata teve como consequência o atraso da indústria têxtil portuguesa e os vinhos portugueses continuaram a pagar direitos no RU, com uma pequena vantagem em relação aos franceses.

O exemplo de Ricardo do tratado de Methuen não foi dos mais felizes para ilustrar a teoria das vantagens comparativas que, do ponto de vista puramente económico, pode ser demonstrada com exemplos mais adequados. É fácil mostrar que entre dois países que produzem os mesmos dois bens com custos diferentes, pode haver vantagem global se cada um dos países se especializar num dos bens e fizerem trocas comerciais.

Mas a globalização extrapolou a teoria das vantagens comparativas para todo o mundo e para todos os bens, levando os países a especializarem-se na produção de alguns bens, e criando interdependências económicas perigosas no caso de surgirem eventuais conflitos ou constrangimentos.

Do outro lado do espectro ideológico temos a política de autossuficiência que visa a redução das dependências, garantindo a sobrevivência e independência dos países em caso de estrangulamento das trocas comerciais por razões imprevistas.

Porém, os países da Europa, ao contrário doutros países ocidentalistas bastante autossuficientes como os EUA, o Canadá, a Argentina ou a Austrália, dependem fortemente de trocas comerciais e importam sobretudo energia e bens agrícolas, fornecendo produtos diversos de alto valor acrescentado mas que não lhes garantem a autossuficiência.

A recente guerra na Ucrânia colocou a nu a dependência europeia da energia russa e dos cereais ucranianos e está a fazer renascer na Europa o ideal da autossuficiência, pelo menos em relação à energia e agricultura que são o seu suporte básico de vida.


Henrique Sousa

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Sub-diretor do Inconveniente

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