Estudo: a epopeia do Remdesivir

Em 24-04-2020, Anthony Fauci anunciou, ao lado do então Presidente Donald Trump, numa conferência de imprensa na Casa Branca, que a empresa de biotecnologia norte-americana Gilead Sciences teria apresentado resultados de um ensaio clínico que antecipava um potencial tratamento para a doença Covid-19 baseado num medicamento denominado Remdesivir. Esse estudo foi co-financiado pela instituição, na altura, dirigida por Fauci, o National Institutes of Health (NIH).

A patente deste medicamento havia sido registada pela empresa em 2017. No seu desenvolvimento, este fármaco foi de falhanço em falhanço até ser apresentado ao mundo por Anthony Fauci como um possível tratamento para a doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2 (Covid-19). Os falhanços deste fármaco consistiram no facto de que a empresa explorou o potencial de aplicar esta terapêutica primeiramente à hepatite C, contra a qual demonstrou não ter eficácia. Seguiram-se tentativas de demonstrar que o fármaco poderia ser utilizado para tratar a doença do Ébola e também a doença de Marburgo. Em ambas, o fármaco não conseguiu níveis de eficácia convincentes. E ia passar à história da farmacologia como mais um projeto falhado.

Todavia, em 1-05-2020, apenas uma semana depois do anúncio de Fauci, a Food and Drug Administration (FDA), a agência que licencia medicamentos nos EUA, atribuiu ao Remdesivir uma licença provisória para uso de emergência no contexto pandémico. Esta licença é justificada pela FDA com base na informação divulgada pela empresa alega que a recuperação de doentes Covid-19 a quem é prescrita esta terapêutica podem recuperar em menos 4 dias que outros indivíduos a quem nenhuma terapêutica foi prescrita (doentes que receberam placebo). Ou seja, a média de recuperação dos doentes Covid-19 é de 15 dias e a alegação de principal benefício é o de que a terapêutica Remdesivir permite a recuperação em 11 dias.

Em 7-06-2020 torna-se público nos meios financeiros internacionais que a farmacêutica AstraZeneca, sediada na Reino Unido, abordou a Gilead propondo uma oferta de fusão entre as duas empresas, mas é recusada por esta. Esta abordagem é uma indicação da corrente tensão entre as grandes farmacêuticas na procura de reforçar os potenciais dividendos comerciais da pandemia.

Em 29-06-2020, a Gilead anuncia o preço a que o Remdesivir será colocado nos mercados internacionais: 2.340 dólares para um tratamento de cinco dias. O preço a cobrar ao governo dos EUA é de 340 dólares por dose,  3.120 por doente típico, 2.340 para um doente com tratamento de curta duração e 4.290 para tratamentos de maior duração. Este preço, muito elevado, aplicado aos países desenvolvidos gerou polémica internacional. Nesta altura, analistas de Wall Street antecipavam que as vendas de Remdesivir poderiam atingir 2,3 mil milhões de dólares, de que 1,3 mil milhões seriam lucro. As ações da Gilead valorizaram 15% neste período.

Em 7-08-2020, a também americana Pfizer, anuncia uma parceria com a Gilead para a produção do Remdesivir, anunciando que vai produzir o fármaco em unidades de produção na Europa, na Ásia e na América do Norte.

Em 8-10-2020, a Gilead torna público um acordo de venda avaliado em mil milhões de euros com a Comissão Europeia (CE) para o fornecimento do Remdesivir. Em 3-07-2020, a CE havia já atribuído uma licença provisória para que o Remdesivir fosse prescrito no tratamento de indivíduos acima de 12 anos de idade com sintomas de pneumonia.

Em 22-10-2020, a FDA transforma a licença provisória em licença efetiva, autorizando o uso generalizado do fármaco.

Em 20-11-2020, porém, contrariando a expectativa de enorme sucesso comercial do fármaco, um painel da Organização Mundial de Saúde (OMS) anuncia que não recomenda a utilização do Remdesivir para o tratamento da doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2 (Covid-19). A recomendação condicional de um painel de 24 especialistas convidados pela OMS (cujos nomes não são do conhecimento público) indica que é necessário mais evidência sobre a eficácia do fármaco. Na sequência deste parecer negativo da OMS, uma série de profissionais de saúde e outras entidades fizeram apelos ao boicote e à não prescrição deste fármaco em circunstância alguma.

Curiosamente, em 13-11-2020, sete dias antes do anúncio formal da OMS, a Associação Europeia de Medicina Intensiva já havia feito um apelo público contra o uso rotineiro de Remsedivir para tratar doentes Covid-19.

Em 2-12-2020, o governo alemão, país de origem da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, que em 8-10-2020 assinou o acordo de compra com a Gilead, desafia a recomendação da OMS e anuncia que mantém a recomendação de prescrição do fármaco.

Os leitores do Inconveniente podem desta forma constatar que, apesar das reservas sobre a evidência científica da eficácia do Remdesivir, a Comissão Europeia assumiu um elevado nível de confiança no fármaco. Tal como em relação às vacinas Covid-19 – veja-se o estudo do Inconveniente, de 2-3-2021, “Guerra comercial das vacinas ignora eficácia“.

A CE, num espírito de confiança nos agentes da indústria farmacêutica, direcionou assim mais de mil milhões de euros do orçamento europeu para a compra de doses de Remdesivir e iniciou recentemente a distribuição pelos países europeus signatários do Joint Procurement Agreement (JPA), assinado em 2014, também no rescaldo da pandemia de 2009, a do H1N1.

As doses do fármaco que chegam a Portugal neste março de 2021, são resultado da compra realizada em conjunto pela CE conforme os termos do contrato do Acordo Europeu de Compra (JPA).


Paulo K. Moreira
Editor de Saúde do Inconveniente

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  • O Remdesivir mata menos vírus num ano do que o comunismo pessoas numa hora.

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