O estouro do CDS e a fogueira das vaidades

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Sondagens eleitorais (e sua média) dos partidos portugueses – dezembro de 2019 a março de 2021 – Marktest

A implosão sondágica do CDS de Francisco Rodrigues dos Santos, eleito em 24-1-2020, é um fenómeno que tem consequência mais larga do que este partido. Note-se que o CDS chegou a 0,8% em fevereiro de 2021 (sondagem da Aximage).

Comprometida parece a imagem prometida, no discurso de vitória, de um “partido sexy” da “nova direita”. “Sexy” não parece porque pouco atrai. E direita só se for da velha: comprometida com o sistema, bem comportadinha, bengala decorativa de coxos, ignorando o tema da corrupção de Estado. Muleta não queria ser, mas muleta é: do PSD nas próximas eleições, evitando a sanção direta das urnas. Chicão tornou-se Chiquinho.

Eleito com o apoio da TEM – Tendência Esperança em Movimento, de Abel Matos Santos, renegou o aliado, trocando imediatamente pelo portismo que paradoxalmente havia derrotado, com esse apoio. Porém, o aliado conjuntural, Paulo Portas, não muda de natureza, e a pouco e pouco vai-lhe mordendo a direção e envenenando o corpo do partido. Entretanto, Abel Matos Santos, desiludido com a hipótese de redenção do partido, demitiu-se de militante.

Agora, o derrotado Adolfo Mesquita Nunes já nem quer a liderança. Portas precisa de um partido que lhe garanta o sustento sistémico da sua representação real e os cargos no setor privado dependente do Estado. Tal como o seu delfim, Adolfo.

O que é possível que aconteça é o abandono do CDS pela coluna de Paulo Portas, a qual enfileiraria na Iniciativa Liberal, onde os costumes democrata-cristãos, e o próprio programa do partido, já não são um problema. Isso é potenciado pela proximidade de João Cotrim de Figueiredo à fação de Paulo Portas: o presidente da Iniciativa Liberal é amigo de António Pires de Lima, de quem foi colaborador na Nutrinveste e Compal. E os 5,7% de preferência atual do eleitorado pela Iniciativa Liberal, segundo a dita sondagem, são mais apetitosos.

Como Paulo Portas pretende ser candidato a Presidente da República em 2026, necessita de uma máquina partidária de base. Por isso, Portas precisa de controlar a Iniciativa Liberal, agora que o CDS está reduzido à cinza das ambições que o queimaram.

Já o Chega de André Ventura fica agradecido com esta marcha fúnebre desafinada da direita institucional para a esquerda que canta, e que o PSD de Rui Rio penosamente engrossa.

O serviço do povo pouco importa nesta egoísta fogueira de vaidades. A definição das forças e a recomposição da direita deverá acontecer depois das eleições autárquicas do outono de 2021.


António Balbino Caldeira

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