Este país não é para velhos, mas também não é para adolescentes

Se a pandemia tem sido particularmente cruel para os mais velhos, não é menos verdade que os adolescentes são outro grupo gravemente afectado, sobretudo no plano emocional. É na adolescência que a criança deixa de o ser e começa a construir a sua identidade adulta, sobretudo no grupo de pares, inicialmente do mesmo género, para, à medida que a segurança e o autoconhecimento se reforçam, se lançar nas primeiras amizades e amores com o género menos conhecido, porque diferente.

Na sociedade de hoje, quer os viciantes videojogos, quer os perigos extremos que o exterior oferece, sobretudo aos inexperientes e ingénuos, é a escola a assumir, quase em exclusividade, um convívio que em tempos de fazia nas ruas de cada bairro. É também na adolescência que o exercício físico é necessário como o pão para a boca, assegurando um corpo são, desejavelmente habitado por uma alma sã.

Assim sendo, embora o ensino à distância venha colmatar (com falhas importantes) essa outra necessidade essencial, a do alargamento cultural, do progressivo conhecimento do mundo e do outro, o confinamento é, como era expectável, como está a ser cientificamente comprovado, uma enorme ameaça ao equilíbrio emocional e à saúde mental do adolescente.

É, ainda, na adolescência, que se deixa para trás a figura idealizada dos pais, tornando-a, não sem dor, questionável e comparável a exemplos observados no exterior, ou descritos pelos pares.
Todas estas experiências e todos estes desejáveis desenvolvimentos são seriamente prejudicados pela solidão do confinamento.

Todavia, pouca preocupação é visível nos nossos decisores sobre estas questões. Fala-se, e bem, das desigualdades acentuadas pela falta de milhares de computadores prometidos pelo Governo, fala-se, e bem, da sobrecarga suportada pelos professores, no que se refere a uma relação didáctica diferente, materiais diferentes, avaliação incerta e arriscando a injustiça, mas quase se esquece os destinatários de todo este empreendimento – os alunos.

E, contudo, é sobre eles que o foco deveria sempre ser colocado, nas aulas presenciais e, sobretudo, nas aulas à distância. Na verdade, o que se passará por detrás dos jovens rostos que surgem no ecrã? Terão um ambiente familiar que lhes permita trabalhar em sossego? Terão familiares doentes? Terão medo? Sentirão falta da presença física dos professores, que são para os menos felizes as únicas pessoas de quem recebem atenção e mesmo carinho?

Como desconfiná-los com risco mínimo? Como restituir-lhes o convívio, a ginástica, o namoro incipiente? Haverá alguém que verdadeiramente se importe com eles? Que organize, por exemplo, transporte escolar que obedeça às regras de distanciamento, poupando-os ao amontoado de gente nos transportes públicos que, tomando todos por tolos, nos dizem que não veicula o contágio? Que elabore conteúdos essenciais a leccionar, já que é humanamente impossível que os jovens não sofram danos psíquicos perante uma pandemia que assusta os adultos? Que requisite espaços onde se possa trabalhar com menor contacto? Que leve a cabo uma testagem regular?

Neste contexto difícil para todos, tal como em saudosos tempos de normalidade, o poder demonstra fraco conhecimento do que verdadeiramente são os jovens. O ensino, tanto o básico quanto o secundário parece assentar em experimentalismo pedagógico, viés político, negociações com sindicatos e associações de pais, pareceres de Directores, todos eles sujeitos a pressões corporativas ou dos seus próprios umbigos. Seria bom que não esquecêssemos os principais interessados, também os mais indefesos – os alunos.


Isabel Pecegueiro
Professora do ensino secundário (aposentada)


* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Absolutamente de acordo.
    Artigo inteligente de quem sabe o que diz, e diz bem o que sabe!

  • Estou de acordo com a argumentação apresentada em torno do problema dos nossos adolescentes, capturados numa lógica de necessário e cauteloso confinamento, sim, mas com efeitos negativos na sua socialização, nas suas relações afetivas e entre os pares, na formação da sua identidade, nas consequências, de foro psicológico, advindas do isolamento. O conforto físico e material (que infelizmente ainda não chega a todos) não é suficiente para o equilíbrio dos jovens. É preciso uma constante dose de relação carinhosa e atenta, de uma voz humana e conselheira, para que eles se sintam regulados, integrados, amados e considerados. Falta-lhes a vida com os outros, no espaço público real! O confinamento tem vantagens, mas espero eu que seja temporário, porque as desvantagens estão bem explícitas neste artigo da Drª Isabel Pecegueiro. Sabe do que fala como professora que foi e como conhecedora dos dramas dos jovens. Discordo, no entanto, do título, uma vez que acredito que esta fase vai passar e estou convicta de que eles têm muito futuro, mesmo que o país onde nasceram e se educam não lhes dê as garantias e seguranças que merecem. Relativamente aos «velhos», muito mais haveria a dizer. Mas, no meu caso pessoal, os meus «velhos» estão apoiados, acarinhados, mesmo que confinadíssimos. Parabéns por esta lúcida análise.

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