Erva rosa

José Sócrates e Paulo Campos ligados a empresa de produção de cannabis


À noitinha, pelo caminho sinuoso de terra batida, que se enrola na charneca algarvia da planura de Santo Estêvão, Tavira, prescrutando por entre a chuvinha chata que atrapalha a reportagem, descobrem-se ao longe as luzes fluorescentes rosa-choque das estufas da Sabores Púrpura, Lda. Mais próximo, surgem outras cores do caleidoscópio psicadélico que aquece as plantas para crescimento mais rápido. Circundando as estufas, uma vedação alta de rede agrícola larga, mal esticada e presa aos paus tratados, semi-coberta por um corta vento, e encimada por arame farpado em rolo ao modo militar. Para lá da cerca, não se desvenda a ostentação de escritórios, instalações de luxo, equipamento sofisticado, asfalto, espaços ajardinados. Relva não há, apenas erva… E estufas armadas, plástico envolvente, terra mondada. Na entrada, um portão metálico compacto. Não há identificação da empresa ou contacto, tal como nenhuma indicação existe nas estradas da zona. Cuidados do produto e do negócio. E do modus operandi conhecido. Mais parece um black site de serviços secretos. Mas faltam os guardas. Nenhuma alma se avista, nesta operação de aspeto clandestino de uma empresa opaca.

Conforme o Google Maps, são cerca de quatro hectares de plantação de droga estupefaciente alucinogénica cannabis. Note-se que a plantação industrial de cannabis é legal no país desde 2019. E assim é com esta empresa.

Mas porquê a curiosidade do Inconveniente com esta operação? Vem na sequência de investigação publicada no blogue Do Portugal Profundo, em 18-7-2020, sobre um facto que veio ao meu conhecimento, de que José Sócrates e seu amigo Paulo Campos estavam ligados à empresa Sabores Púrpura, Lda., de produção legal de cannabis (droga estupefaciente alucinogénica).

A empresa anuncia no seu sítio da internet possuir duas quintas de produção – Quinta D. Rosa e Real Villa, em Tavira. Não é claro qual das plantações designa a de Santo Estêvão, que aqui é tratada.

A Sabores Púrpura, Lda. tem o Número de Identificação de Pessoa Coletiva n.º 509790020 e sede na rua do Cineiro, 31, em Coimbra. As CAE (Classificação portuguesa das Atividades Económicas) da empresa são 01252-cultura de outros frutos em árvores e arbustos, 20530-fabricação de óleos essenciais, 01280-cultura de especiarias, plantas aromáticas, medicinais e farmacêuticas, e 21201-fabricação de medicamentos. A empresa, que possui alegadamente uma elevada quota de produção/exportação atribuída pelo Infarmed – onde terá bons contactos, adquiriu recentemente ainda uma propriedade na zona de Beja para a produção legal desta droga alucinogénica.

Do que é público, a Sabores Púrpura, Lda., com 112.875 euros de capital social, é formalmente detida por Fernando Miguel Rodrigues de Carvalho Pereira da Silva, possuidor de duas quotas no valor de 105.375 euros e Jorge Pedro Rosa Duarte, com uma quota de 7.500 euros, conforme a alteração ao contrato de sociedade, datada de 16-5-2018. Não é conhecido acordo parassocial com empresa ou entidades nacionais, internacionais ou sociedade offshore com beneficial owners, contrato-promessa de cedência de quotas, procuração irrevogável de cedência de quotas ou outro instrumento jurídico que oculte a efetiva posse da empresa. A Sabores Púrpura respondeu ao Observador, de 12-4-2019, que iria investir «100 milhões de euros», mas procura alianças para ganhar tração, pois terá dificuldade em mobilizar capitais do estrangeiro. 

O CEO (chief-executive officer) desta empresa que anteriormente se dedicava à produção de morangos e framboesas, é o eng. Miguel Silva, de Coimbra, que também opera(va) um negócio de venda de acessórios de motas.

No sítio de informação financeira Racius, pode verificar-se que a empresa tem apresentado receitas decrescentes desde 2018: 104.187,77 euros em 2019, contra € 229.727,30 em 2018 e € 246.709,64 em 2017. Os lucros também desceram de 28.805,70 em 2017, para 3.673,18 em 2018 até chegar a 213,28 em 2018. Não são ainda conhecidos os resultados de 2020. Informação recente indica que a empresa, que tinha uma produção diminuta, procedeu à clonagem de milhares de plantas e ao seu plantio, sendo de esperar um aumento da produção, mesmo que seja necessário realizar o processamento da droga e organizar o circuito de distribuição.

Subsidiária da Sabores Púrpura, Lda., existia a sociedade All Red, Lda., criada em 2014, com as CAEs 01252 (Cultura de outros frutos em árvores e arbustos) e 01280 (Cultura de especiarias, plantas aromáticas, medicinais e farmacêuticas), com sede no Beco do Governador Abdallah, em Tavira, que foi encerrada em dezembro de 2019, segundo informação do Racius.

Também de acordo com a mesma fonte financeira, relacionada com a Sabores Púrpura, Lda. há a Competitive Purple – Unipessoal, Lda., com a CAE 01252- produção de cuja atividade é: produção e venda de frutos vermelhos, especiarias, flores e produtos hortofrutícolas vários, consultadoria, compra, venda e montagem de material para a agricultura (estufas, canalização, electricidade, electrónica ,substratos e plantas), equipamento e material diverso, viveiro de plantas, mediação imobiliária, compra e venda de automóveis e motociclos, restauração e restauração em meios móveis, comércio a retalho de produtos hortícolas e frutícolas, e outros produtos agrícolas.

O Racius aponta ainda como “empresas relacionadas” com a Sabores Púrpura: a Hortitool Consulting, Lda. (NIPC 513686789), a Pedro Pereira da Silva Lda. (NIPC 503330221) e a Sovestária, Projectos e Construções, S.A. (NIPC 506550575).

Segundo informação recente a empresa, que tinha uma produção diminuta e um stock limitado por escoar, procedeu à clonagem de milhares de plantas e ao seu plantio. A intensificação da cultura faz esperar um aumento da produção, mesmo que seja necessário realizar o processamento da droga, a sua embalagem e organizar o circuito de distribuição. Por enquanto, sem os milhões do estrangeiro e a contar principalmente com os discretos recursos endógenos, os fumos de Tavira não geram o impacto global mediático associado ao tinir de outras campainhas.

António Balbino Caldeira

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