É tudo ladroagem!

Se perguntarmos ao cidadão comum – que escuta ou lê os meios de comunicação dominantes (MCD) – porque razão deflagrou a guerra na Ucrânia, provavelmente ele responderá que se trata de uma questão de defesa da pátria por parte dos ucranianos, surpreendidos pela invasão da Rússia que pretende reconquistar antigos territórios imperiais ou da extinta União Soviética. Pode até ser, mas não é só.

A Rússia invoca propósitos nobres como a “desnazificação” e “desmilitarização” de uma Ucrânia belicista apoiada pela NATO, e a Ucrânia apela ao sentimento patriótico (e nacionalista) dos seus cidadãos para se defender de uma invasão que põe em perigo a sua existência como nação independente, acossada por uma Rússia imperialista. Também pode ser, mas há mais…

Nas discussões sobre esta guerra, uns acusam outros de serem nazis e estes chamam aos primeiros de comunistas, reduzindo a guerra a uma questão partidária sentimental, em tudo semelhante ao que opõe um adepto do Benfica a um do Sporting ou do Porto. Na opinião de uma larga maioria, a guerra não passa disto – atacante e atacado, de um lado uma bandeira branca, azul e vermelha e do outro uma bandeira azul e amarela, comunismo, imperialismo, nazismo, patriotismo, nacionalismo, etc. É a emoção a falar mais alto.

Quando se confronta o cidadão comum – que escuta ou lê os MCD – com o aumento do preço dos combustíveis e dos cereais, ele acha que é uma consequência natural da guerra; porém, a maioria não suspeita que a guerra teve neles uma das suas causas principais.

A economia russa é sustentada pelos seus combustíveis e as suas guerras com países vizinhos têm tido como motivação a apropriação dos seus recursos e infraestruturas energéticas ou o bloqueio de rotas ou dutos concorrentes rivais, como os dos países do Mar Cáspio.

E acontece que o Mar Negro também possui reservas importantes de gás e por isso a Rússia o disputa com a Ucrânia na mira de conseguir o seu domínio total. O Donbass é outra zona rica em combustíveis e recursos naturais de que a Rússia se quer apropriar, invocando a bandeira do combate ao nazismo, ultra-nacionalismo e de ajuda aos separatistas pró-russos.

O imperialismo russo não é uma mera questão ideológica, é antes uma banalíssima “operação especial” de rapina de recursos naturais a países que procuram defender-se do saque virando-se para o lado do Ocidente – que também afia os dentes na mira desses mesmos recursos ou monta alguma “operação especial” dos EUA para se livrar da concorrência dos combustíveis russos.

De lamentar é que essas “operações especiais” causem a perda de tantas vidas humanas, lancem a destruição e o caos, engordem ainda mais os que ganham com a guerra e obriguem milhões de pessoas a fugir de zonas privilegiadas.

O cinismo dos MCD chega ao ponto de se indignarem porque um soldado russo roubou alimentos de uma mercearia na Ucrânia, mas nada dizerem da “operação especial” de imenso roubo armado que a Rússia anda a fazer em zonas ricas em recursos naturais, nem de outras “operações especiais” equivalentes no Médio Oriente, Ásia, África e América Latina.

Coincidência ou não, há quase sempre recursos naturais envolvidos nas “operações especiais” mas o que os MCD nos transmitem, apelando ao sentimento, é que há graves violações de Direitos Humanos, défice democrático, nazismo, comunismo, fanatismo religioso, etc., quando muitas vezes são simples atos de rapinagem, de saque ou de defesa de interesses económicos mascarados de ideologias “supremacistas”.

Não é só apanágio da Rússia, dos EUA ou da China, é de quase todos os conflitos armados. Até os do Estado Islâmico, que se apresentavam como fanáticos religiosos, andavam focados no petróleo sírio e iraquiano que vendiam à Turquia! A religião é apenas mais uma máscara usada para roubar, tal como agora a Rússia invoca a ameaça da NATO, o combate ao nazismo e a conquista da “independência” do Donbass.

É tudo ladroagem!


Henrique Sousa

Partilhar

Written by

Sub-diretor do Inconveniente

Latest comments

  • Excelente artigo.
    Não conheço nenhuma guerra em que o roubo não fosse, de longe, o objectivo principal, e os povos, os dispensáveis.
    Os zelenkys, bidens, putins e afins, não estão isolados nem agem por conta/iniciativa própria. Tentei demonstrar isso quando deixei os livros de Anthony Sutton.

  • Tens a quem sair! Gostei de ler o excelente artigo que explica as razões da «operação especial» de Putin contra a Ucrânia!
    O sacana ainda vai provocar uma guerra nuclear.

deixe um comentário