8 questões sobre o acidente de Cabrita

* imagem do filme “Blow Out” (1981)

O comunicado do Ministério da Administração Interna (MAI), de sábado, sobre a circunstância do acidente do carro do ministro Eduardo Cabrita ao km 77,6 da A6, sentido Estremoz-Évora, perto de Azaruja, na sexta-feira, dia 18-6-2021, responsabilizou o próprio trabalhador Nuno Santos, de 43 anos, pela sua morte, por alegadamente ter atravessado a autoestrada, e a empresa (Brisa) por alegadamente não ter sinalizado as obras de limpeza efetuadas por uma companhia prestadora de serviços (até agora mantida em sigilo), deixa por esclarecer algumas dúvidas.

O comunicado nega que tenha havido qualquer despiste do carro do ministro, não indica a velocidade do carro e deixa entender que a viatura circulava na via da esquerda da faixa de rodagem da autoestrada: “O trabalhador atravessou a faixa de rodagem, próxima do separador central”.

Aqui ficam oito questões pendentes:

  1. Os trabalhos de limpeza da auto-estrada efetuados pela Brisa não tinham qualquer sinalização como diz o comunicado do MAI: “Não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”?… Cabe à empresa esclarecer. O jornalista João Carlos Rodrigues, do CM, de 21-6-2021, página 11, relata, com base em fonte não identificada que “decorriam ‘trabalhos móveis’ que eram sinalizados apenas por uma carrinha na berma, poucos metros antes da zona onde estavam os funcionários”. Ora, esta informação contrasta com o comunicado do MAI, de 19-7-2021, onde se pode ler que “Não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”. Havendo, sinalização, mesmo que deficiente, como indica o jornalista, cabe ao condutor abrandar para uma velocidade baixa. Tê-lo-á feito?

  2. Qual a velocidade a que circulava o BMW de alta cilindrada do ministro e o(s) eventual(ais) carro(s) de escolta? Em qualquer caso, uma viatura deve circular a uma velocidade que lhe permita parar no espaço livre e disponível à sua frente. A omissão no comunicado do MAI da velocidade aproximada de marcha da viatura provoca ainda maior perplexidade, ainda mais quando é vulgar carros de dirigentes do Estado português circularem a 200 km/hora em autoestrada: o Henrique Pereira dos Santos conta três histórias sobre essa “cultura institucional” no Corta-Fitas, de 19-6-2021. No CM, de 21-6-2021, página 11, João Carlos Rodrigues noticia que o MAI não esclareceu qual a velocidade do carro, e se o mesmo circulava em marcha de urgência. O jornalista cita fontes próximas do jornalista (colegas do Corpo de Segurança da PSP?) que lhe garantiram que o carro “nem ia a uma velocidade elevada como é habitual em muitas deslocações oficiais”.

  3. No momento do acidente, se o carro circulava pela via da esquerda da autoestrada, fazia-o porque ultrapassava alguma viatura que circulava pela via da direita? É que, segundo o art. 13.º do Código da Estrada na versão atual, a via da esquerda é reservada a ultrapassagem ou mudança de direção: “Sempre que, no mesmo sentido, existam duas ou mais vias de trânsito [o que é o caso de uma autoestrada], este deve fazer-se pela via mais à direita, podendo, no entanto, utilizar-se outra se não houver lugar naquela e, bem assim, para ultrapassar ou mudar de direção”. E que “Quem infringir (…) é sancionado com coima de (euro) 60 a (euro) 300 (…)”. O ministro voltava a casa naquela sexta-feira, não tendo agenda oficial conhecida para essa tarde. Não se percebe qual “o serviço de urgência de interesse público” – previsto no art. 64.º do Código de Estrada (Lei 72/2013) – que determinaria uma marcha em velocidade superior à permitida. A não ser o almoço…

  4. Tendo em atenção que a pancada no carro, como se vê nas imagens televisivas, foi na parte lateral dianteira esquerda (extremo esquerdo do pára-choques, guarda-lamas e espelho retrovisor), o trabalhador encontrava-se junto aos rails, a aguardar o momento de atravessar a via, ou já estava a atravessar?

  5. O carro do ministro seria o primeiro da comitiva, como é habitual, seguido de um carro de segurança. Portanto, não havia obstáculos à visibilidade. Trata-se de uma curva longa, ligeiramente a subir. O trabalhador não foi detetado na parte exterior do rail central, junto à via da esquerda?

  6. O Inconveniente apurou que o evento oficial terminou no dia 18-6-2021, sexta-feira, cerca das 12:15, tendo, segundo fonte oficiosa, o ministro partido do Centro de Formação da GNR, em Portalegre, cerca das 12:30, não tendo havido almoço no Centro, provavelmente devido às restrições da Covid-19. O acidente terá ocorrido cerca das 13:10 horas e o local onde ocorreu dista cerca de 85,8 km do Centro de Formação da GNR em Portalegre. O Google Maps prevê um tempo de viagem de 59 minutos para esse trajeto de 85,8 km (ver diagrama). Note-se que 62,4 km terão sido percorridos no IP2 (onde a velocidade média permitida é de 90 km/hora) – com exceção dos troços urbanos em Portalegre e em Estremoz e de várias outras localidades atravessadas onde a velocidade permitida é menor – e apenas 23,4 km na autoestrada A6 (onde a velocidade máxima permitida é de 120 km/hora). A auto-estrada A6 tem pouco trânsito, mas o IP2 terá mais veículos a circular e atravessa várias localidades. O Google Maps estabelece 47 minutos de viagem entre o Centro de Formação da GNR, em Portalegre, e o nó da A6 em Estremoz (ver diagrama). Portanto, se o ministro partiu cerca das 12:30 do Centro de Formação da GNR em Portalegre e o acidente ocorreu, conforme noticiado, pelas 13:10, quarenta minutos depois, o carro do ministro terá circulado a uma velocidade média acima do permitido pela lei no trajeto de 85,8 km. A velocidade média superior não significa que a velocidade no momento do acidente fosse acima do permitido pela lei, mas permite compreender qual o cuidado na viagem e constrange qualquer explicação desculpabilizadora. Não consta que existam radares fixos de velocidade no troço da A6 em causa.

  7. Para compreender melhor a viagem, falta também revelar em que restaurante a comitiva ministerial tinha almoço marcado e a que horas. É que Lisboa dista cerca de 2:24 de Portalegre, o que poria os integrantes da comitiva ministerial a almoçar nunca antes das 15.00, uma hora bastante tardia.

  8. Por fim, é necessário apurar quais as instruções que o ministro deu ao motorista, e quais costuma dar, pois, estando este ao seu serviço, o ministro é o chefe do carro e responsável pelo que manda, ainda que a execução seja feita pelo motorista.
Trajeto provável do carro do ministro Eduardo Cabrita entre o Centro de Formação da GNR, em Portalegre, e o local do acidente na A6, ao km 77,6, próximo de Azaruja, em 18-6-2021

Trajeto do carro do ministro Cabrita entre o Centro de Formação da GNR em Portalegre, e o nó da A6 em Estremoz – 18-6-2021

BMW acidentado do ministro Eduardo Cabrita ao km 77,6 da A6, próximo de Azaruja – 18-6-2021
(fonte: reportagem vídeo da TVI)

Local do acidente do carro do ministro Eduardo Cabrita – Km 77,6 da A6, Azaruja – Google Maps

O Inconveniente contactou o assessor de imprensa da Brisa, Franco Caruso, solicitando informação sobre o acidente. Nesta tarde, foi possível obter telefonicamente a seguinte resposta: “A Brisa lamenta a perda da vida humana de um trabalhador de empresa prestadora de serviços, já apresentou condolências à família; e tem como regra não prestar qualquer informação sobre acidentes que ocorram nas suas vias, para não perturbar o curso dos inquéritos policiais ou, neste caso, do Ministério Público”.

O assessor declinou comentar o comunicado do MAI, de 19-6-2021, nomeadamente se como aí se veicula que “não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”. E recusou fornecer informação sobre a hora do acidente, que o comunicado do MAI também não indica, nem sobre a hora a que o carro do ministro cruzou a portagem de Estremoz da A6.

Segundo o CM, de 19-6-2021, o trabalhador Nuno Santos, conhecido por “Pombinho”, deixa viúva e duas filhas menores (de 13 e 16 anos).


António Balbino Caldeira

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Latest comments

  • Algumas dúvidas mais.
    Aqui (1) pode ver transferência de tinta.
    Aqui (2) pode ver o que me parece chapa rasgada do guarda lamas.
    .
    1 – https://sicnoticias.pt/pais/2021-06-18-Carro-em-que-seguia-ministro-da-Administracao-Interna-envolvido-em-atropelamento-mortal-562947c4
    2 – https://images.impresa.pt/expresso/2021-06-18-POL—32754302.jpg-f3b54a67/original/mw-860
    .
    De que cor era o fato/roupa do senhor atropelado?
    O corpo humano consegue rasgar chapa sem que aparentemente lá fiquem vestígios, carne, osso, tecido/roupa etc? Repare no ângulo de “ataque”. Salvo erro a chapa do guarda lamas começou a rasgar mesmo por detrás da óptica.
    Parece-me que quando bateu, já ele estava a tentar desviar-se, caso contrario tinham sido atingidos o vidro e/ou o pilar do lado do condutor.
    https://www.youtube.com/watch?v=RZ2a25lvzqk

      • Repare neste vídeo no segundo 0:26 (imagens más, não aconselho a ver o resto)
        A velocidade é baixa em comparação com a velocidade do carro do ministro.
        https://www.youtube.com/watch?v=d0oh-08zc3Y
        .
        Neste outro é um boneco. O carro vai a 49km hora
        https://www.youtube.com/watch?v=HtrwYB_91Fg

        Em todos eles o vidro é sempre atingido porque a parte do corpo mais pesada, o tronco, fica ao nível do vidro do carro.
        No 1º vídeo, o acidente, acredito eu, é semelhante. O condutor tenta desvia-se, virando para a direita, na altura do embate, mesmo assim neste caso o vidro e o pilar são atingidos.
        .
        O sr só poderia ter sido pisado se estivesse de joelhos ou deitado. Em pé nunca.
        .
        Comunicado: “… – A viatura circulava na faixa de rodagem, de onde nunca saiu, quando o trabalhador a atravessa;
        – O trabalhador atravessou a faixa de rodagem, próxima do separador central,…”
        .
        Portanto o homem estava a atravessar a faixa de rodagem!
        .
        A curva é efectivamente larga e com relativa boa visibilidade… desde que não vá a 200km ou mais e a rasar o rail central. Porque quando vê… até o cérebro perceber o que vê, reagir, executar a travagem… já lá está, e, também desde que não vá ligeiramente distraído, cansado, etc.
        200.000 metros por hora = 55,55 metros por segundo. Se for atento e fresco, até o carro parar, +/- 290 metros
        .
        Estes carros não têm GPS?
        Mesmo assim o rasgo e a tinta verde na chapa deixam-me intrigado. A não ser que tenha batido noutra coisa qualquer…
        .
        …Sim vacinas já para as pessoas com mais de oitenta mil anos… não é tempo para demagogia…
        https://www.youtube.com/watch?v=Hfucwr-X1z4
        até já parece o comunicado…

  • Pela minha parte não me atrevo a concluir que as manchas claras sejam tinta branca de eventuais barreiras, embora isso pareça mais plausível na 2º foto a meio do para-choques, mas pode ser tinta base (aparelho) depois de estalado o esmalte.
    Não sabemos se o operário levava algum objecto rígido na mão que justifique danos mais agressivos na chapa, pois é um facto, esses danos não parecem só dum corpo “mole” e a haver projecção foi de raspão no espelho do condutor.
    É deveras estranho que nenhuma das fotos mostre qualquer dispositivo de sinalização no local!
    Com cerca de 40 anos de carta, alguns milhares de km de condução em AEs nacionais, não me lembro de alguma vez ter visto trabalhos não sinalizados!
    Como seria de prever, a Brisa já se pronunciou e afirma que havia sinalização no local!
    A ser verdade porque é que não aparece nas imagens? Será que alguém as anda a censurar ou houve mexida no terreno?
    Como já disse aqui e repito, a cartilha xuxa é bem conhecida :
    Técnica evasiva do Xuxa quando apanhado a fazer m3rd4:
    1º – esconder os indícios.
    2º – negar os factos.
    3º – se as duas primeiras não funcionarem, passar as culpas para o adversário que estiver mais à mão!
    O azar é que nem PPC nem Rio andavam por aquelas bandas e se o operário tiver pele branca não adianta tentar meter o Ventura ao barulho!
    O caprino perdeu uma bela oportunidade de mostrar alguma fibra : solicitar de imediato a intervenção da PJ, para além da GNR. Afinal há uma vítima mortal e estando a GNR sob a alçada do ministério que dirige era o mínimo que podia fazer para dar alguma credibilidade à investigação!
    No UK o ministro da saúde demite-se porque beijou a assessora sem máscara depois de recomendar medidas de contenção sanitária à plebe!
    Aqui a 2ª figura do estado (por sinal feia que nem um tamboril), incita a plebe a ir para Sevilha quando o “seu” governo tenta implementar uma pseudo-cerca sanitária a Lisboa, mas ele vai meter nojo para a praia, e tudo tranquilo como dantes!
    Não somos british, não somos lusos, não somos os melhores em nada (útil), já não sabemos quem somos nem para onde vamos … se D. Sebastião não se despacha, o mais certo é sermos africanos!

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