Dos papagaios de serviço

Hoje em dia, para singrar na política, tudo o que é preciso dizer às pessoas é aquilo que elas esperam ouvir, isto é, aquilo para que foram condicionadas e consideram como bom, certo e justo, mercê de uma propaganda agressiva nos meios de comunicação dominantes.

Já houve tempo em que o considerado bom, certo e justo era a luta de classes, o “abaixo o capitalismo”, o “viva a classe operária”, etc., ou seja, a cassete marxista-leninista que contaminou o discurso de quase todos os partidos, com algumas nuances. Mas essa cassete ficou gasta, deixou de surtir efeito nas massas porque “os amanhãs que cantam” nunca chegaram e poucos são os que acreditam que cheguem.

A cassete estava velha e precisava de uma versão moderna que voltasse a inflamar as multidões e levá-las a ter uma causa por que alegadamente valesse a pena lutar. A estratégia adoptada é velha mas eficaz, sendo a mesma das seitas religiosas para ganhar seguidores: ameaçar as pessoas com um fim do mundo próximo se não forem adoptadas medidas para evitar a tragédia, levá-las a assumir os seus “pecados”, a mudar de vida e sobretudo a pagar o dízimo sob a forma de imposto.

Vejamos como falam em geral os actuais políticos para os eleitores, já formatados com a nova cassete que já não promete “os amanhãs que cantam” mas ameaça com “os amanhãs sombrios se nada for feito”! Discurso hipotético de um hipotético presidente de câmara, inspirado em entrevistas ouvidas na rádio e televisão, ou lidas nos jornais:

Caros munícipes!

Peço a vossa participação total no sentido de uma maior coesão social e de uma consciência ecológica reforçada. Estamos a trabalhar no nosso município para garantir um crescimento sustentável, gerador de riqueza e de bem-estar social. Temos empreendedores ousados e inovadores, uma eco-cidadania colectiva e responsável. Precisamos de mais criatividade, de uma sociedade mais aberta e sem solipsismos, uma postura consentânea com as novas tecnologias que garantam uma maior resiliência às populações.

O homem é um ser relacional e, como tal, a nossa sociedade tem de ser mais inclusiva, proporcionar bem-estar aos cidadãos e a reinserção social dos excluídos, num ambiente sustentável e de maior liberdade.

A nossa cidade caminha para a neutralidade climática, na medida em que estamos a cumprir as metas de 2030 para salvar o planeta, seguindo a ciência; uma cidade inteligente, um urbanismo ecológico e humanizado, com um desenho que privilegie a vizinhança, a resposta de proximidade, com núcleos de desenvolvimento competitivos e integrados, habitação acessível, uma aceitação firme da diversidade, um reforço da coesão e unidade de todo o território do concelho.

Temos de afirmar a centralidade das nossas vilas e qualificar as nossas freguesias, a mobilidade urbana sustentável, a convergência sem fragmentação, o transporte descarbonizado, a interconectividade, o compromisso colectivo para a sustentabilidade ambiental, a cidade Carbono Zero, a estratégia de Especialização Inteligente, Transformação Digital, Inteligência Artificial e machine learning, o cometimento emergente e fundamental em espaços vivos de integração.

Temos que dar resposta às alterações climáticas, às assimetrias de desenvolvimento regional, à eficiência energética, à digitalização da economia, adoptando um modelo territorial coerente que se alimente sinergicamente através de redes de cooperação intermunicipal, valores de partilha e solidariedade com vista à redução da nossa pegada ecológica e de carbono.

Etc., etc., etc..

Assim, a câmara a que presido decidiu introduzir uma taxa que permita financiar os projectos para cumprir as metas de 2030 e salvar o planeta!

Henrique Sousa

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Sub-diretor do Inconveniente

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