Do amor nos tempos modernos

“Quantas pessoas amaste? Quantas pessoas te amaram? Pensa bem, porque se o souberes, terás sabido a tua verdadeira biografia.”   

Vergílio Ferreira (1992). Pensar. Bertrand. Texto 470

Vergílio Ferreira refere-se ao amor em sentido lato, nesta entrada do seu diário. Mas é certo que esse sentimento tem o poder de determinar a felicidade ou a tragédia em cada vida humana. Poderíamos aqui abordar o amor filial, ou o poderosíssimo amor que avassala quem é mãe ou pai, transformando em absoluto, e para sempre, a sua vida.

O amor-paixão é, de todos, o mais assustador, o mais perigoso. Sabiam-no bem os Românticos que, tantas vezes definhavam, adoeciam e se deixavam morrer de mal de amores. E di-lo a literatura, cantam-no os músicos, anima-o o Cinema, na sua função catártica.

No filme “La femme d’à coté” (1981, banda sonora de Georges Delerue), François Truffaut coloca a protagonista, Mathilde num internamento psiquiátrico, na sequência de uma relação amorosa que conhecerá um fim trágico, e fá-la dizer que passa os dias a ouvir canções de amor, sublinhando: “même les mauvaises, il n’y a pas de mauvaises chansons d’amour”.

Não me parece que o tempo, que quase tudo muda, tenha mudado a natureza desse sentimento. Diz-se, em psicologia, que as histórias são sempre iguais, as personagens é que mudam. E também: os homens dizem que o tempo passa, mas o tempo diz que quem passa são os homens. O que tem mudado, e muitíssimo, nas últimas décadas, são as formas de aproximação entre os que se amam, bem como as mil e uma maneiras que o contexto que os rodeia tem de interferir nas suas acções.

Recuemos aos anos cinquenta do século passado, e a um outro filme “Splendor in the grass” (1961), de Elia Kazan. Nele encontramos dois jovens tresloucadamente, irremediavelmente, apaixonados. Deanie e Bud, personagens que dois estreantes, Natalie Woody e Warren Beatty, tornam larger than life. Um filme sobre o amor realizado, o amor sonegado e as “desperate alternatives” de que se lança mão para disfarçar a sua ausência. O filme é um documento ilustrativo dos inúmeros obstáculos com que, à época, se deparavam  os namorados. E são eles, essencialmente: a família, os vizinhos e as raparigas que, ao contrário de Deanie, assumiam uma sexualidade plena. Os jovens enamorados, chegados ao ponto em que os beijos se tornam insuficientes para acalmar uma sexualidade transbordante, tropeçam  no interdito que é a perda da virgindade por parte de Deanie. Os vizinhos vigiam, a mãe pergunta constantemente se “foram longe demais”, ou se a jovem está “spoiled”, no sentido de desvirginada. As colegas de escola, mais liberais, assediam Bud e a tempestade perfeita forma-se. Da zanga à separação, da separação à tentativa de suicídio e desta ao internamento psiquiátrico, o amor vai-se tornando uma impossibilidade, e uma recordação apenas. No final da obra, Deanie provoca um encontro, uma despedida, e emerge a constatação de que só restaram aos enamorados as “alternativas desesperadas” que a demasiadas pessoas servem de vida.

As circunstâncias aqui retratadas poderiam perfeitamente ocorrer, ainda, nos anos sessenta e setenta, dependendo do contexto envolvente e das personagens envolvidas. E contudo, os sixties de sex, drugs and rock ‘n’ roll desencadearam uma revolução nos costumes, de tal ordem que se correu o risco de, como dizem os ingleses, deitar fora o bebé com a água do banho. De repente, as saias rodadas cediam lugar aos blue jeans, o cabelo curto nos rapazes passava a facultativo e todos os penteados a ser permitidos. A pílula contraceptiva parecia libertar as mulheres das gravidezes indesejadas, Mary Quant lançava a mini-saia com estrondoso sucesso. Daí à afirmação da plena sexualidade feminina, a par da masculina, foi apenas um passo.

Contudo, Portugal era governado por um ditador católico e o Código Civil, no referente à família, continuaria por longos anos a manter o homem como chefe de família, quase à maneira da Roma antiga, com direito a devolver uma noiva que, na noite de núpcias, revelasse não ser virgem, a proibi-la de trabalhar ou viajar, e a permitir-lhe abrir a correspondência dela.

Foram tempos de incongruência, o tempo das semi-virgens, dos bailes de garagem culminarem invariavelmente em sensuais slows. Os jovens, cada vez mais inspirados pelo movimento hippie, iam-se progressivamente libertando e as jovens reivindicando a modernidade que observavam nos seus ídolos musicais, sobretudo anglo-saxónicos, embora a “chanson” francesa também marcasse pontos. Os homossexuais saíram do armário e ícones da juventude como Elton John ou Freddy Mercury revelavam desinibidamente os seus relacionamentos.

Se essa revolução nos costumes trouxe felicidade aos jovens, é uma outra questão. As overdoses e suicídios aumentavam, com grande impacto quando atingia artistas mais populares. Janis Joplin e Jim Morrison são apenas dois exemplos. Acresce que a promiscuidade que, em muitos casos, se instalou, terá trazido consigo o flagelo da sida, então com enorme mortandade.

Contudo, não foram ainda estas gerações rebeldes a rejeitar a espiritualidade ou a família. Cristianismo, judaísmo, budismo, islamismo, eram objecto de análise, meditação e escolha. Exemplo notório disso foi a busca, pelos Beatles, da espiritualidade oriental, a eterna busca metafísica de Leonard Cohen, judeu inquieto e genial, ou, ainda , a conversão de Cat Stevens ao Islão.Também não foram estes bons selvagens a pôr em causa a família.

Casava-se cedo, tinha-se filhos cedo, não se dependia dos pais. Apenas se tratou de democratizar o núcleo familiar, respeitando a dignidade de cada um, de acordo com os direitos humanos. Um ponto fraco, nesse âmbito, terá sido a educação dos filhos tendencialmente abolindo os limites e regras de que as crianças tanto necessitam. Foi preciso chegar ao século XXI para que os verdadeiros selvagens se afirmassem e tomassem o poder. Desgraçadamente deseducados por sistemas de ensino enviesados, formatados por um neo-marxismo ignorante da História, agressivos, porque perdidos e infelizes, tendem agora a confundir euforia com felicidade e justiça com destruição.

As generalizações são sempre abusivas e, obviamente, há muitos jovens que usufruem da felicidade de ter uma família estruturada e estruturante, que lhes faculta a elevação moral e cultural, mesmo se a escola falha esses desideratos. Infelizmente, não são a maioria e o elevador social há muito que está avariado. A ingenuidade e idealismo da juventude são, assim, pasto para a implantação das mais abstrusas ideias por parte de políticos que odeiam a civilização ocidental e desejam destruir o que foi edificado ao longo de milénios.

Pretende-se uma geração iconoclasta e libertina. E cria-se uma geração infeliz. Instala-se um tribalismo de mulheres contra homens, negros contra brancos, privados contra públicos, seitas políticas e futebolísticas umas contra as outras, não como adversárias, mas como inimigas.

E que lugar para o amor, para o namoro, neste contexto árido? O amor sempre existirá, mas não tentam torná-lo malsão?

A promiscuidade sexual é incentivada nas vilas e cidades pelo aumento exponencial de cantores pimba. As televisões em geral divulgam esses shows da ordinarice mais reles. Surgem como cogumelos venenosos, supostos humoristas, sem graça, mas com a maior baixeza. Reality shows, youtubes e outros subprodutos culturais baixam o nível até ao impensável.

Jovens inseguros começam a namorar por Instagram e WhatsApp, marcando encontros nem sabem realmente com quem. E, muitas vezes, acabam por encontrar bullying onde esperavam amor.

O amor acontece, entretanto. Sempre acontecerá. Mas é árido este mundo. E é frequente agora que, só atingindo alguma maturidade, se consiga destrinçar quem nos ama de quem nos quer mal.

Os rapazes, sobretudo, revelam cada vez maior insegurança e a sua virilidade é posta em causa, por ser considerada tóxica.

As raparigas defendem-se actualmente melhor, são mais focadas nos seus objectivos, mas também a sua feminilidade está sob fogo e a novilíngua não lhes dá descanso. O politicamente correcto pretende que se vejam a si mesmas como vítimas, quando só a elas compete afirmar a sua inviolável dignidade.

Na verdade, não gostaria nada de ser jovem nos tempos que correm. Tempos sem idealismo, sem romantismo… O amor nada tem de fácil. Todavia, hoje parece que estranhas barreiras se erguem a impedi-lo, a bloquear as pessoas de serem genuinamente o que são. Em suma, a proibir que cada um encontre na autenticidade do outro, na extraordinária diferença que gera a atracção, a felicidade.


Isabel Pecegueiro
* A autora usa a norma ortográfica anterior

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