Dissecando os “argumentos” dos propagandistas do Kremlin

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Uma pletora de presumíveis especialistas e opinadores, que vão desde alguns notórios ex-generais do nosso exército, a sumidades americanas como John J. Mearsheimer, passando por Steven Seagal, Roger Waters, saudosistas do comunismo, do fascismo e adeptos das mais delirantes teorias da conspiração, andam pelos media e redes sociais a papaguear insistentemente a propaganda do Kremlin. No mesmo fôlego criticam os Estados Unidos e a OTAN pela guerra na Ucrânia e por todos os males do mundo, valha a verdade.

Quando confrontados com os irritantes factos de ter sido a Rússia quem invadiu a Ucrânia, em 2014 e em 2022, e de já ter feito coisas semelhantes neste milénio, a escapatória é basicamente de dois tipos, ambos grosseiramente falaciosos:

  • A agressão russa é uma justificada resposta a “provocações” da OTAN e da Ucrânia, o que corresponde, mutatis mutandis, a argumentar que num caso de flagrante violação, a culpa é da vítima e de quem a ajuda, por ser bonita, por não querer nada com o violador, por se vestir de forma “provocante”, etc.;
  • Os EUA, o Ocidente, etc., também fizeram esta ou aquela maldade, neste ou naquele sítio, neste ou naquele tempo, isto é, a típica falácia “tu quoque”, também conhecida por “whataboutismo”.  “Argumento” que, sublinhe-se, ignora deliberadamente a diferença entre abusos circunstanciais indesejados, e o deliberado e estrutural modus faciendi russo.

Estas falácias têm como objectivo desviar as questões e fazer crer que os líderes russos não têm qualquer vontade própria, sendo obrigados, pelas circunstâncias impostas pelos outros, a agir de forma, digamos, automática.

Ora tudo isto é mentira.

A verdade é que a Rússia planeia/planeava apoderar-se de vastas regiões da antiga URSS e, sem a Ucrânia, não tem as capacidades críticas para prosseguir o verdadeiro objectivo do Kremlin putinista.

A Ucrânia, uma vez controlada, acrescentaria população, posição estratégica, solos férteis, produção agrícola, recursos minerais, capacidade industrial, etc.

Potencialidades que, por outro lado, dão a uma Ucrânia soberana a real possibilidade de se tornar uma potência regional susceptível de contrabalançar a influência russa.

Em 1991, quando alcançou a independência, a Ucrânia não tinha gente capaz de administrar um Estado moderno, pelo que se instalou a desordem, a corrupção e se abriram as vias para a interferência russa, que se tornou ubíqua a partir da ascenção de Putin ao poder.

Apesar disso, aos poucos o país foi moldando uma identidade e construindo uma tradição política crescentemente orientada para a Europa Ocidental.

Pode-se certamente discordar sobre os bastidores da Revolução Laranja em 2004 e da Revolução Maidan em 2014, mas é inequívoco que a maioria dos ucranianos liga estes fenómenos à luta para se libertar da tutela russa.

Putin sabia, há um ano, que a janela de oportunidade para a Rússia poder controlar novamente a Ucrânia, se estava a esgotar, à medida que esta optava de forma clara pelas reformas democráticas e liberais e pelo Ocidente.

Como é sabido, para ele “o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século”.

Tal afirmação (feita em 2005), vinda de um líder poderoso, nunca é apenas um lamento choroso e inconsequente, devendo ser sempre encarada como o sinal de que pretende alterar a situação.  Começou de facto a fazê-lo 3 anos depois, apoderando-se de partes da Geórgia, e continuou em 2014, apoderando-se, de surpresa, da Crimeia e de partes do território ucraniano, para além de outras avançadas na Moldávia e um pouco por todo o mundo, de forma inteligente, oportunista e cínica.

Em 12 de julho de 2021 surgiu no site oficial do Kremlin, um artigo do Czar (“Sobre a Unidade Histórica de Russos e Ucranianos“), no qual escrevia, com total claridade, que “russos e ucranianos eram um povo”.

A 12 de Dezembro de 2021, dois meses antes da guerra, quando as tropas russas se concentravam já junto às fronteiras ucranianas, Putin voltou a referir, entre reiteradas negações de que iria invadir a Ucrânia, que a queda da União Soviética “foi uma desintegração da Rússia histórica” e “O que havia sido construído ao longo de 1.000 anos foi em grande parte perdido”.

Era pois óbvia a sua intenção recuperar esses territórios da “Rússia histórica” e foi isso mesmo que tentou fazer em 24 de Fevereiro de 2022, mostrando o que realmente significava isso de russos e ucranianos serem o mesmo povo.

Os propagandistas ocidentais do Kremlin, não dão qualquer importância a estes factos, repetindo as diatribes “desnazificadoras” do Kremlin, reverberando as mistificações sobre os “Acordos de Minsk” e  insistindo em teorias conspiratórias sobre as pérfidas intenções da OTAN e dos EUA.

Graves e sem se rirem, reinvindicam a necessidade de reconhecer à Rússia a sua “esfera de influência”.

Ora como eles bem sabem, ou pelo menos deviam saber, o conceito de “esfera de influência”, não significa o mesmo para o Ocidente e para a Rússia. Os russos encaram-no como o direito de mandar, controlar directamente, e impor todas as decisões que o Kremlin ache adequadas, no fundo uma relação de suserania, na qual o suserano exige aos poderes sob sua tutela, que ajam como ele quer, pelo que estão implicitamente a reconhecer-lhe o direito de extorsão de soberania e intervenção segundo o modelo soviético utilizado por exemplo na Checoslováquia e Hungria.

Ao pretender restaurar a “esfera de influência”, a Rússia considera-se a si mesma como uma potência do mesmo nível que os EUA, ou China, exclusivamente pela ilusão de poder que lhe é conferida pela posse de muitas armas nucleares. Daí as constantes referências russas e dos seus propagandistas, aos pergaminhos nucleares. “Sotora, a Rússia não pode perder esta guerra, é uma potência nuclear”, vociferava há dias na CNN, o General Agostinho Costa.

O que está em causa na Ucrânia, não é a ameaça da OTAN, como repetem, acriticamente os “zenerais” e os “espezialistas”, nem os nazis, nem nenhum dos outros pretextos que os propagandistas difundem. Não foram essas as razões pelas quais Putin lançou a  “operação militar especial”, até pelo facto, simples e óbvio, de que a Ucrânia não fazia parte de OTAN, nem se previa que viesse a fazer nos tempos mais próximos. Se o problema fosse a OTAN, a Rússia teria invadido justamente as repúblicas bálticas, ou até o Alasca ou Turquia, esses sim, membros da OTAN nas fronteiras com a Rússia.

Trata-se apenas de dinheiro, poder, imperialismo puro e duro. Trata-se, no caso dos países alvos da Rússia, de opções naturais de povos que olham para o lado e são capazes de ver a diferença de liberdade e qualidade de vida. Por que razão a Ucrânia não haveria de querer o mesmo?

Não é preciso ser um génio para perceber que a entrada para a OTAN é, por parte destes países de fronteira, além de uma absoluta necessidade de segurança, factor incontornável de crescimento económico. O art.º 5.º significa proteção contra a interferência russa. Sinaliza às empresas e investidores, uma garantia de segurança, de estabilidade política e de bom ambiente para negócios de longo prazo.

Os ucranianos querem isso e não a suserania russa. Negar aos ucranianos esse direito de escolha é o cerne da guerra e dos argumentos dos propagandistas do Kremlin.

Estes afirmam também que a OTAN se expande por pressão americana, avança em direcção à fronteira oeste da Rússia, cerca a Rússia, quer atacar a Rússia e é pois natural que Moscovo se preocupe e seja veja “obrigada” a invadir o território do vizinho. Ou seja, a invasão da Ucrânia, seria, nesta mirabolante narrativa, culpa da “expansão “ da OTAN, em síntese, culpa da OTAN.

Segundo esta patética argumentação ( é como dizer que Andorra cerca Espanha e França) os vários países europeus que aderiram à OTAN após a queda da União Soviética não deveriam ter tido autorização ou soberania para o fazer. São, para a Rússia, entidades menores, que devem subordinar as suas opções ao diktat de Moscovo. Infelizmente para a narrativa, as nações recém-libertadas da dominação soviética não tinham ilusões de que a Rússia é a Rússia e voltaria/ voltará mais tarde ou mais cedo às práticas habituais, a menos que lograssem colocar-se sob o manto protector da OTAN. Provavelmente formariam uma aliança militar alternativa se a OTAN rejeitasse a sua admissão. Ainda bem que não fez, porque isso seria também o toque a finados da OTAN, doravante sem propósito.

Em 2013, a Ucrânia tentou associar-se à União Europeia sinalizando a vontade de se alinhar com o Ocidente mas Putin viu o perigo, invadiu em 2014 e torpedeou o projecto.  

Insistem os propagandistas que, na época da desintegração da União Soviética, os políticos ocidentais prometeram aos líderes russos que a OTAN não se expandiria. Não há nada escrito sobre isso, mas se houve alguma promessa verbal, quem a fez não a poderia fazer, por não estar mandatado pelas mais de 100 milhões de pessoas que mais tarde ou mais cedo exerceriam a sua liberdade de escolher os seus caminhos. É como eu prometer a alguém que o carro do vizinho não será vendido. Não sou eu que decido isso, a minha promessa é vazia.

Prometer aos russos, como estes parecem exigir, que a OTAN não incluirá a Ucrânia é algo que só a Ucrânia pode fazer, porque o que conta é a vontade dos ucranianos, não a de qualquer outra pessoa, muito menos a vontade do Kremlin.

Os ucranianos rejeitam claramente o domínio russo, e é por isso que estão a lutar com tudo o que possuem. Para eles, não para a Rússia, esta é uma guerra existencial.

Para o Ocidente também e nós, ocidentais, só temos duas opções:

  • Ou decidimos que é do nosso interesse permitir que a Rússia assuma o controle da Ucrânia e ganhe balanço para prosseguir a reparação da “catástrofe geopolítica”, ou ajudamos a Ucrânia a impedir esse desiderato, garantindo assim que passarão muitos anos até que a Rússia se atreva a invadir outros países para se apoderar deles;
  • Pelos vistos até o professor, num revelador lapsos calamis, sabe que uma aparência não é a realidade. No caso vertente, seria precisamente o contrário. Com a Rússia a prosseguir a sua cavalgada imperialista, haveria tudo menos estabilidade.

Vem à memória o Acordo de Munique de 1938, que também deu à Europa uma ilusão de paz durante menos de um ano. O que se seguiu foi a Segunda Guerra Mundial.

Sugerir a neutralidade da Ucrânia é igualmente enganador. A questão é a sua independência, é isso que a Rússia não quer. Olhando para o exemplo polaco, uma Ucrânia neutra, mas ancorada ao ocidente teria hoje um PIB per capita muito superior ao da Rússia, e seria capaz de construir um aparelho militar que, como o polaco, pode perfeitamente dissuadir qualquer veleidade imperialista russa.

Por outro lado, se aceitarmos a narrativa dos propagandistas do Kremlin, estamos ipso facto a admitir que todas as nossas instituições e acordos internacionais não valem a tinta usada para os escrever e que os vilões com a espingarda mais potente podem fazer o que querem.

E esse mundo não é seguro, nem estável, nem pacífico, nem livre e nem justo.

A paz, a verdadeira paz, implica que os russos percebam que nenhum dos países ao redor da Rússia aspira a tomar qualquer um de seus territórios ou interferir nos seus assuntos internos, e que os seus métodos facínoras não serão aceites ou tolerados.

Para que a paz perdure na vizinhança da Rússia, é preciso músculo militar credível e a OTAN é a parte de leão desse músculo.

As aspirações imperiais da Rússia são, no fundo, o maior inimigo dos russos. Alemães e japoneses desistiram desse tipo de ambições em 1945 e construíram a sua prosperidade em paz, liberdade e soberania. Essa é a escolha que mais tarde ou mais cedo os russos, e só eles, terão de fazer. Até lá, compete-nos dar-lhe todos os incentivos possíveis, incluindo a cenoura, se possível, e o pau, quando necessário.

Este é o tempo do pau.


José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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