Declaração Great Barrington: o grande combate pelo nosso futuro contra a Covid-19

Ao contrário do Memorando John Snow, que ninguém sabe quem iniciou, uma vez que John Snow morreu em 1858, a Declaração Great Barrington, de 4-10-2020, foi lançada, na cidade de Barrington, nos EUA, por três prestigiados investigadores e especialistas em ciências da saúde das universidades de Harvard, Oxford e Stanford.

Em síntese, o Memorando Jonh Snow, que tem “endorsements” (declarações de apoio institucional) de uma série de entidades sem grande prestígio internacional e, inclusive, de algumas que dependem de financiamento da industria farmacêutica, defende, para combater os efeitos da Covid-19, o que tem sido a política de países como Portugal: confinamento geral, sistema de saúde exclusivamente dedicado a doentes Covid-19 e um enfoque redutor na promoção da compra maciça de testes e da vacina como a única estratégia de combate à pandemia. 

Pelo contrário, a Declaração Great Barrington – na medida dos efeitos devastadores verificados na saúde pública das populações, nos doentes não Covid-19 e na saúde mental das populações, para além dos efeitos avassaladores nas economias contemporâneas – recomenda a estratégia de proteção direcionada (focused protection). 

Conforme a imunidade ao vírus SARS-CoV-2 aumenta de forma natural (veja-se o nosso recente artigo no Inconveniente sobre o tema), a imunidade de grupo é atingida, o que coincide com o momento em que a taxa de novas infeções estabiliza. Neste sentido, a proposta de Great Barrington, proveniente de um grupo de especialistas com cara e nome respeitado no mundo da saúde pública, a que se juntaram mais de treze mil outros especialistas e investigadores (em que se inclui o autor deste artigo), propõe o foco na minimização da mortalidade excessiva de doentes não Covid-19 por falta de cuidados de saúde e da devastação social e económica provocada pelos confinamentos gerais, e a adoção de medidas de proteção especificamente orientadas para os mais vulneráveis, sobretudo idosos e pacientes de doenças crónicas respiratórias e suscetíveis ao vírus, conforme demonstrado pela evidência científica disponível desde, praticamente, o início da pandemia. Adicionalmente, a Declaração de Barrington propõe modelos de resposta social que devem incluir a testagem focada em pessoas com sintomas e/ou em contacto com cidadãos de risco, assim como a profissionais de saúde e o estabelecimento de procedimentos de relações de proteção entre os membros das famílias multigeracionais.  

Segundo esta Declaração, os cidadãos que não estão em risco devem retomar, de imediato, as suas atividades normais mantendo medidas simples de higiene, que são apenas de senso comum e recomendadas em todos os momentos, mesmo sem pandemia. As escolas e as universidades devem ser reabertas e as atividades desportivas devem ser, também de imediato, retomadas e ativamente promovidas. A ciência demonstra, faz várias décadas e para além de qualquer dúvida, que a prática desportiva reforça o sistema imunitário, uma defesa fundamental para enfrentar a pandemia. Todas as atividades de lazer e restaurantes devem reabrir. As pessoas em risco devem participar, protegendo-se, por exemplo com máscaras eficazes, mas que não devem usar durante muito tempo devido aos efeitos nocivos associados ao seu uso prolongado.  

Em nome do futuro dos nossos filhos, recomendo que assinem e apoiem a Declaração Great Barrington aqui:  https://gbdeclaration.org/.


Paulo K. Moreira (Editor de Saúde do Inconveniente)

Doutor em Saúde Pública e Gestão de Cuidados de Saúde pela Universidade de Manchester (HSMU / Manchester Medical School). Tem mais de vinte anos de experiência nacional e internacional em gestão de sistemas e organizações de saúde e é autor de dezenas de artigos científicos e livros em políticas e gestão do setor da saúde. É o principal autor do blogue Saúde Mais Transparente, lançado em 2021.

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