Da traição alemã com a Rússia

Durante a chancelaria de Angela Merkel, a codependência [económica] era vista como uma forma de garantir a estabilidade geopolítica”, disse Veronica Grimm, economista de energia da Friedrich-Alexander-Universität em Erlangen-Nürnberg. “Mas estamos cada vez mais em transição, de uma ordem mundial baseada em regras para uma ordem mundial baseada em poder. Nós não estávamos bem preparados para isso” – pode ler-se no artigo da Time de 2-3-2022, numa tentativa de culpar em exclusivo a anterior chanceler da dependência energética da Alemanha em relação à Rússia.

Metade das casas na Alemanha é aquecida a gás natural e não é de um dia para o outro que as podem converter para receber outro combustível como o gasóleo ou o carvão. O carvão já foi a fonte principal para o aquecimento doméstico e durou bem para além de 1990 (quando começou a mudança para o gás natural canalizado) e decerto há ainda quem o mantenha.

Morar num prédio antigo e num 4.º andar sem elevador, e ter de ir à cave buscar carvão duas vezes ao dia para trazer dois baldes de 20kg de carvão de cada vez, não é nada agradável. Em 1990, alguns alemães já tinham aquecimento a gás em apartamentos ou a gasóleo em moradias, mas o regresso ao carvão sólido seria um retrocesso no que respeita ao nível de conforto atual de muitos alemães. Esse regresso, se for imperioso, passaria pela gaseificação do carvão e injeção desse gás na rede de gás natural.

Em 1986, a Europa acordou para os perigos da energia nuclear com o acidente de Tchernobyl na Ucrânia. Nuvens de radioatividade chegaram a vários países, incluindo a Alemanha, onde, dois anos depois do acidente, ainda se desaconselhava o consumo de certos alimentos que podiam conter radioatividade (como, por exemplo, cogumelos). Mais recentemente, o desastre de Fukushima no Japão, em 2011, fez com que o governo de Merkel tivesse optado pelo encerramento progressivo das centrais nucleares, cedendo aos receios de ambientalistas que também lutam para que a Alemanha abandone o carvão por razões climáticas.

O gás natural russo representa hoje um quarto das necessidades energéticas da Alemanha, a maior economia da Europa e uma das maiores do mundo. Um eventual corte do fornecimento de gás russo, implica a substituição por outros fornecedores. Mas essa substituição pode demorar mais tempo do que seria desejável, uma vez que passaria pela construção de infraestruturas, tais como: terminais para receber GNL, centrais de gaseificação, reativação de minas de carvão abandonadas, construção de centrais elétricas a carvão e nucleares, etc.

A “culpa” da atual dependência alemã do gás russo é atribuída à ex-chanceler Merkel, que teria negociado com Putin a construção do gasoduto Nord Stream 2. Mas a história não é bem assim e começa bem antes: dias antes das eleições alemãs de 2005, quando a disputa entre o então chanceler Gerhard Schröder e a sua concorrente Merkel estava no auge, Schröder decidiu juntar-se com um homem que se tornou um seu grande amigo – o presidente russo Vladimir Putin.

Um dos seus últimos atos como chanceler foi autorizar a construção do gasoduto Nord Stream (que erradamente a notícia refere como sendo a Nord Stream 2). Poucos dias depois de perder as eleições, Schröder entrou para o conselho de administração da empresa que iria fazer chegar o gás russo à Alemanha pelo leito do Mar do Norte, sem atravessar outros países: a Nord Stream.

Hoje Schröder está ligado a mais duas empresas russas do ramo da energia: a Gazprom e a Rosneft. Merkel deu continuidade aos planos ambiciosos de Schröder, decidiu-se pelo encerramento de centrais nucleares, abandono progressivo do carvão e reforço das importações de gás com a construção do Nord Stream 2. Seguiu o plano traçado pelo seu antecessor Schröder e pelo seu amigo Putin na criação e alargamento da dependência energética da Rússia.

Mas Merkel foi substituída por Olaf Scholz, do mesmo partido que Schröder (SPD), por sua vez conotado com a amizade e grandes negócios com a Rússia. O partido só agora, após o 24 de Fevereiro, pediu a Schröder que cortasse esses laços com a Rússia.

Washington já mostrara receio de que o projeto Nord Stream 2 aumentasse a dependência energética da Europa em geral em relação à Rússia e ameaçara aplicar sanções à empresa responsável em setembro de 2020.

Mas Scholz, como ministro das Finanças, liderava as negociações para salvar o Nord Stream 2. Para pacificar o governo de Biden, ele ofereceu mil milhões de euros para construir dois terminais de GNL para importação de gás dos EUA e de outras fontes. A construção desses terminais está parada devido à ação de ambientalistas, embora Scholz tenha anunciado recentemente planos para retomar a construção desses terminais.

Scholz tem sido um dos principais proponentes do novo gasoduto Nord Stream 2, que visa duplicar a capacidade do Nord Stream 1, aumentando a codependência económica entre a Alemanha e a Rússia. Foi preciso o 24 de Fevereiro para ele desistir do projeto, cancelando a certificação num momento em que já estava pronto a entrar em funcionamento.

Scholz também tem de lidar com a imagem de um partido amigo da Rússia: a construção do primeiro gasoduto da Rússia ocorreu em 1973, antes da queda da URSS, sob a supervisão do chanceler do SPD, Willi Brandt, que pretendia a reconciliação com o bloco comunista.

Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, o ex-chanceler alemão Schröder disse que “o presidente russo não é persona non grata” e colocou-se contra as sanções à Rússia. Mantém relações amistosas com Putin e ganha centenas de milhares de euros por ano como membro do conselho de três empresas russas. Schröder é, de facto, um dos “oligarcas russos”, o alemão que mais beneficiou dos negócios de energia e da amizade com a Rússia de Putin.

Schröder reuniu-se com o seu grande amigo Putin a 11-3-2022 para tentar acabar com a guerra na Ucrânia mas, pelo que se vê, de nada serviu.

Há outros partidos, além do SPD, com culpas no cartório: a começar pela CDU de Merkel – que não se opôs aos planos de Schröder, aparentemente sem que daí retirasse qualquer proveito – passando pelo Partido dos Verdes, com a sua política ambientalista e de desmilitarização, e acabando no Partido Democrata Livre (parte da atual coligação com o SPD), que hesita em impor duras sanções a Moscovo.

À medida que a União Europeia lança sanções cada vez mais agressivas e a Alemanha começa a reforçar as suas forças armadas, parece que os líderes do país teimam em compensar erros antigos em vez de traçar um curso para o futuro, livrando-se definitivamente da dependência russa.

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Sub-diretor do Inconveniente

Latest comments

  • Cito aqui um comentário colocado no “Die Weltwoche”, em 22 de Março que me parece bem a propósito.
    “Der Fisch beginnt am Kopf zu stinken und seit mindestens 16 Jahren fault auch der Körper durch.
    Aber die Bundesdeutschen mögen anscheinend den Fischgestank, denn sie machen keinerlei Anstalten, die Verrottung zu stoppen. Wer die Negativauslese pflegt, bekommt folgerichtig eine Ochlokratie serviert. Die deutschen Tugenden sind Legende!”

    Que na minha tradução parece dar isto:
    O peixe começa a cheirar mal na cabeça e há pelo menos 16 anos o corpo também está apodrecendo. Mas os alemães ocidentais parecem gostar do cheiro de peixe, porque não fazem nenhuma tentativa de impedir o apodrecimento. Aqueles que cultivam a selecção negativa serão consequentemente contemplados com uma oclocracia. As virtudes alemãs são lenda!

  • Parece-me possível poder afirmar que já se vislumbram os eternamente derrotados e alguns vencedores.
    O eternos derrotados são as populações russas, ucranianas e europeias.
    Os vencedores são:
    1 – A oligarquia americana do armamento.
    2 – A oligarquia americana do gás. Os vassalos governantes europeus decidiram trocar a dependência russa do gás, mais barato, e aumentar a dependência americana, comprando-lhes gás, mais caro.
    Ao povo ucraniano fazemos um pedido. Continuem a resistir, para que estes e outros negócios, filantrópicos, fundamentais às democracias e liberdades se concretizem, porque os governantes americanos, europeus e ucranianos, vão lutar corajosamente e heroicamente, e se necessário for, até ao último ucraniano.

  • Obrigado pela informação, sempre sustentada.

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