Como poderá ser a batalha de Kiev

No momento em que escrevo, as ofensivas russas, avançando com enormes e inesperados custos, parecem ter perdido todo o ímpeto e sido geralmente detidas pelas defesas ucranianas, apoiadas em obstáculos naturais e pontos fortes urbanos, a cavalo dos principais eixos de aproximação. Quando em Dezembro sugeri que a cavalgada blindada poderia não ser um passeio ao luar, dada a melhoria das capacidades de combate das forças armadas ucranianas nos últimos oito anos, estava longe de pensar que seria assim tão difícil para os russos.

E todavia Kiev, o objectivo estratégico, terá de cair para que os russos ganhem a guerra mas, a menos que haja desenvolvimentos diplomáticos, questões na política interna russa, ou a eventual capitulação do governo ucraniano, tudo leva a crer que os russos terão de conquistar esse objectivo da maneira mais difícil, bairro a bairro, rua a rua, casa a casa.

Não vai ser fácil nem bonito.

A batalha, a acontecer, será feroz e sangrenta, como são sempre as batalhas urbanas, quando o defensor resiste e luta por cada palmo de terreno. Berlim é o exemplo típico da 2ª Guerra Mundial mas, mais recentemente, tivemos Grosny, Ramadi, etc.

Em Berlim (já severamente batida por incontáveis bombardeamentos aéreos aliados e fogos de milhares de peças de artilharia), guarnecida por 45 000 soldados do Exército Alemão e outros tantos reservistas e tropas auxiliares, os russos atacaram a partir das posições de cerco com uma força esmagadora de quase 1,5 milhões de homens.

Levaram 12 dias a içar a bandeira no Reischtag. O rescaldo foi de cerca de 40 000 mortos do lado alemão, incluindo militares e civis e cerca de 80 000 russos, para além de centenas de milhar de feridos.

É deste nível de atrocidades que estamos a falar se Putin for até ao fim e a Ucrânia não se render.

Kiev ainda não está cercada e os russos estão a sentir imensas dificuldades em progredir. Há notícias de que nas zonas mais avançadas começaram entretanto a cavar trincheiras, o que pode significar que, nesses sectores, chegaram às posições de cerco, ou planeadas, ou possíveis.


Como será esta batalha, se vier a acontecer?

1 – A primeira parte já está a decorrer, com as forças a convergirem para Kiev e com o uso de artilharia de longo alcance para atingir a cidade, tendo como objectivo diminuir a vontade de resistir.

Uma vez completado o cerco (ainda não aconteceu), as operações visarão quebrar a vontade de combater das forças ucranianas, pela negação dos abastecimentos e de todas as condições de vida. Será cortada a água, a energia, as comunicações, etc.

Os defensores ficarão quase completamente isolados e os russos irão mantê-los em constante sobressalto, com sucessivos reconhecimentos pelo fogo, e uma preparação de fogos que arrasará toda a cidade.

As ruínas, contudo, podem constituir boas posições de defesa, caso os ucranianos mantenham a vontade de combater.

Para esta preparação, é necessário tempo, muitos fogos (artilharia de campanha, mísseis e bombardeamentos aéreos) e uma copiosa cadeia logística, capaz de garantir a continuidade dos fogos, da vida das tropas sitiantes, dos reconhecimentos e dos recompletamentos e rendições de unidades desgastadas e com elevado número de baixas.

Artilharia não falta, pelo menos no papel e também não serão as inibições éticas ou legais que irão impedir os bombardeamentos massivos sobre tudo o que mexe. O tempo também não parece ser factor importante, no que toca à possibilidade de uma intervenção de forças vindas de fora do Teatro de Operações.

Mas na prática, estas certezas teóricas não são sólidas, dado o nível inesperado das sanções, e o grau de atricção, física, psicológica e material que a resistência ucraniana está a provocar nas forças russas.

Na verdade Putin não tem tempo, nem paciência, nem abundância de meios, e é nesta situação que poderá ser levado a optar pelas armas “inaceitáveis” para destruir a vontade de combater dos ucranianos, até porque os manuais ditam que o atacante deve ter no mínimo uma vantagem numérica de 5 para 1, o que só pode conseguir se a preparação causar um altíssimo número de baixas, entre os defensores.

O uso de agentes químicos persistentes para negar a utilização de certas áreas, bem como agentes não persistentes e bombas termobáricas, para neutralizar os combatentes ucranianos e aterrorizar a população civil, são, neste cenário, inevitáveis.

Relembre-se que, na Síria, a Rússia usou bombas com cloro, um gás mais pesado que o ar e que por isso desliza e se acumula nas zonas mais baixas (ataca o sistema respiratório, olhos, pele, etc). Fê-lo para obter vantagens tácticas e não parece que se detenha ante o seu uso ou o de outros agentes químicos e biológicos.

Durante a preparação, as unidades de manobra irão movimentar-se para as suas posições de assalto e será instalada uma rede logística capaz de sustentar todas estas forças.


2 – Finalizada a preparação de artilharia, aviação e mísseis, ou armas químicas, é a vez da manobra e do assalto. É aqui que as coisas se igualam e o combate será casa a casa, nos esgotos, em todo o lado, a tiro e corpo a corpo, usando armadilhas, granadas, snipers, explosivos improvisados, cocktails molotov, facas, baionetas, e tudo o que houver à mão.

É provável que em primeiro escalão sejam utilizadas as forças menos preparadas, mantendo-se em reserva as melhores forças, para eventuais explorações de sucessos locais.

De todas as maneiras, tanto os russos como os ucranianos perderão dezenas de milhares de combatentes e muitos outros russos terão de ser empenhados nas tarefas de consolidação e segurança, à medida que se forem conquistando os objectivos intermédios, para lá dos que estão na segurança exterior do anel de cerco, a fim de evitar eventuais reforços ou reabastecimentos à cidade, e proteger as próprias vias logísticas e de serviços.

Mas as forças russas não parecem ter efectivos para tudo isso e essa é uma das razões pelas quais acredito que usarão meios que violarão todas a linhas vermelhas, a fim de causar tal terror e destruição, que levem à capitulação, sem necessidade de assaltar a cidade.


3 – Conquistada a cidade, a luta aqui terá acabado, mas o que se segue, pelo que se pode deduzir do modo como os ucranianos se têm defendido, é uma guerrilha determinada em quase todo o território, activa e substancialmente apoiada pelos países europeus e da NATO.

Para controlar tal insurreição, muitas mais forças serão necessárias, actuando com massivas retaliações sobre populações civis, e um empenhamento, sem fim à vista de recursos humanos e materiais que parecem ser incomportáveis para uma  Rússia sujeita a draconianas sanções, e em declínio económico e demográfico.

Todavia, nessa ocasião já a Ucrânia estará devastada e a mensagem aos países que se querem juntar à NATO estará dada.

Aqui de longe, vejo que tudo vai depender, não só da inacreditável resiliência e combatividade dos soldados ucranianos, que trouxe as coisas ao impasse onde estão neste momento, mas à sua capacidade para neutralizar os fogos indirectos e de longo alcance.

Para isso são necessários melhores sistemas de defesa aérea, drones, peças, e misseis de cruzeiro e balísticos.

E aviões, que já deviam ter sido entregues, sem alarido e anúncios públicos, nem que fossem desmontados.

As condições de vitória neste conflito, são claras:

A Rússia precisa de conquistar Kiev, a Ucrânia só necessita de aguentar, não tem de ir conquistar Moscovo.

Se a Ucrânia não aguentar e Putin sair vitorioso desta jogada de alto risco em que se meteu, então a Rússia passa a ser o nosso problema, até porque os estrategas russos sabem que não voltarão a estar em melhores condições do que as actuais, para fazerem valer a sua vontade.

A demografia, a economia, o negócio da energia, tendem, com o tempo, a correr contra a Rússia e Putin sabe bem disso.


José do Carmo

* O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica

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Latest comments

  • A desinformação !

    Bem explicado aqui 😉

    https://lemediaen442.fr/le-tireur-delite-francais-erwan-castel-au-donbass-un-tsunami-de-fakenews-inonde-les-medias-occidentaux-dune-maniere-hysterique-et-sans-limite/

    Deve estar pra saír o “Bulletin N°74” (Xavier Moreau – youtube) 🙂

  • Aliados…
    Como sempre, os povos não têm aliados. Sem esta noção, fomos, somos e sempre seremos, carne para canhão de interesses obscuros.
    Acho que foi churchil que disse; ser inimigo da América é perigoso, ser seu aliado é fatal. Pois é Ucrânia, pois é…

      • Muito intrigante para mim, foi zelensky ter dito que alguém na/da nato lhe assegurou em privado que a Ucrânia nunca, repito, nunca, faria parte da nato. Mas que em público diriam que essa opção seria ponderada.
        Sempre que vejo jorge soros e outros da mesmo nível, com as suas organizações em qualquer país, fico logo de pé atrás com o que se passou, passa, ou vai passar.
        Acredito que esta guerra foi instigada. A Ucrânia é um dano colateral. Sigamos o dinheiro.
        Consequências desta guerra.
        1- Ainda a censura instalada por causa do covid não foi levantada, se é que alguma vez o será e, já temos mais censura. Se da primeira houve quem levantasse a sua voz contra, nesta, muito poucos tiveram/têm coragem.
        2- Aparentemente a nato vai sobreviver, quiçá consolidar-se um pouco.
        3- Países europeus vão investir mais em armamento. (Lucro para quem?)
        4- Embargos que estão e vão ter consequências para todos nós.(Lucro para quem?)
        5- Mais uma vez ficou demonstrada a vassalagem dos governantes europeus aos governantes americanos.
        6- Aumento de más relações com a Rússia. Ela vai permanecer onde está, e nós também, não há como deixar de sermos vizinhos. Temos vantagens nisso? Outros certamente terão.
        Tenho lido com atenção o que tem escrito, até porque é com quem tem opinião contrária que se pode aprender. Discordamos porque valorizamos questões diferentes ou de forma diferente.

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