Ciclomania

O dito popular “manda quem pode, obedece quem deve” é posto em causa, diariamente, pelos factos. Porque efectivamente quem pode, não manda resolver o problema da deambulação segura e pacífica nos passeios das cidades portuguesas, e quem deve não obedece.

Numa cidade como Lisboa, por exemplo, de sete colinas, um sobe e desce por tudo quanto é lado, como se pode explicar esta invasão imposta das bicicletas? A quem são destinadas exactamente? É preciso força muscular e fôlego para enfrentar subidas e descidas em ruas com grande inclinação! Os não-praticantes, têm de se contentar com os passeios, assumindo todos os riscos. A ciclo-mania, que é apresentada como alternativa ao automóvel, e uma mais-valia pelo relativo baixo impacto ambiental, roubou tranquilidade e segurança aos transeuntes.

Porque nos passeios onde, por definição, deviam circular os peões, visto que é, segundo o dicionário, um “sítio ou lugar onde se passeia”, um “caminho percorrido por quem passeia, “uma superfície da via pública que ladeia a faixa de rodagem e que se destina à circulação de peões”, circulam o que se podia começar a chamar “objectos circulantes identificados”: bicicletas, trotinetes eléctricas, skates e patins. Uma choldra que não devia durar!

Passear tornou-se uma actividade com risco, e para a qual não há, na prática, uma garantia de cobertura adequada de seguro, em caso de acidente.

Existem regras do código da estrada para utilizar estes meios de locomoção, mas se não se aplicam ficam no papel, enunciadas ao nível de boas intenções e “pourparler”. Difícil é talvez controlar a sua aplicação, mas a questão não deve ser resolvida pelos peões.

Uma pessoa atropelada não é de direita nem de esquerda; é alguém, criança ou adulto, que sofreu um dano e viu desrespeitado o seu direito de transitar tranquilamente nos passeios. O dever é irmão do direito, mas há quem o considere como um primo afastado que aparece só nos funerais quando, no ar, há cheiro a partilhas.

Quantos casos de atropelamento se devem verificar, para que o número seja estatisticamente relevante e justifique uma intervenção, de quem manda e pode, contra o seu uso impróprio e insensato?


Maria J. Mendes

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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  • Como lisboeta, aplaudo a preocupação aqui tão bem expressa. É, de facto assustador e foi também contra isto que a maioria votou, enviando o ciclomaníaco desejavelmente para outras paragens. Marte, talvez…

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