Chega e IL: análise dos resultados eleitorais

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Os mapas de resultados do Chega e da Iniciativa Liberal nas eleições para o Parlamento, de 2022, no continente, parecem quase complementares, conforme se observa num notável trabalho infográfico interativo de Raquel Albuquerque, Tiago Soares e Sofia Miguel Rocha, no Expresso, de 31-1-2022, que abaixo respigamos.

O Chega tem menor representação no litoral (à parte o caso do Algarve) e nas grandes cidades, ainda que, com exceção principal das áreas de Lisboa e Porto, tenha obtido maior número de sufrágios do que a Iniciativa Liberal nessa faixa. Em contrapartida, a maior concentração de votos do Chega é no interior – com exceção do distrito do Porto (efeito da animosidade FCP- benfiquista André Ventura?), Tâmega (até à linha de Boticas a Mondim de Basto) e Coimbra leste – e no Algarve. A votação excede os 9% no Oeste, Lezíria e Médio Tejo, Península de Setúbal – com exceção das cosmopolitas Almada (7,4%) e Barreiro (7,4%) –, raia da Beira e do Alentejo.

Na percentagem de votos do Chega nos concelhos da raia do Alto Alentejo, existe um contraste entre Monforte (18,1%), Arronches (12,6%), Elvas (18,7%) e Campo Maior (11,5%) face a Castelo de Vide, (6,3%) Marvão (7,4%), Crato (8,9%) e Portalegre (8,3%); e entre Mourão (16,3%), Barrancos (11,7%), Moura (18,2%) e Serpa (12,3%) face a Portel (8,3%) e Mértola (6,5%) e até o vizinho concelho algarvio de Alcoutim (7,0%). Uma hipótese de trabalho para a maior votação do Chega é a reação à criminalidade associada localmente a comunidades ciganas residentes, mas precisa de investigação no terreno. A política local face a essa instabilidade social também pode ter influência.

No Algarve também existe um contraste na pontuação do Chega o concelho serrano de Monchique (5,9%) – e até os municípios menos populosos e sujeitos a maior restrição de construção na Costa Vicentina como Aljezur (8,8%) e Vila do Bispo (8,3%) – face aos vizinhos da costa sul como Portimão (14,2%), Lagoa (15,1%), Silves (13,5%), Albufeira (15,2%) e Loulé (12,4%); e o mesmo contraste se verifica entre o interior Alcoutim (7,0%) face aos litorais Castro Marim (14,2%) e Vila Real de Santo António (12,1%). A hipótese a testar nos concelhos litorais do Algarve é o descontentamento causado pelo desemprego e pela concorrência laboral de imigrantes.

Já a votação da Iniciativa Liberal nestas eleições para o Parlamento é o oposto da recebida pelo Chega. Assim, a IL atinge mais de 10% dos votos na abastada linha de Cascais – 10,6% em Lisboa, 10,3% em Oeiras e 10,5% em Cascais – e concelhos da área metropolitana da capital (incluindo os municípios da margem sul do Tejo, favorecidos pelas novas acessibilidades a Lisboa). Os libertários pontuam acima da sua média nacional nas grandes cidades, desde logo o originário Porto (7,8%) e concelhos limítrofes, Leiria, Aveiro e Braga, e regista boa votação no litoral. No interior e concelhos rurais a sua votação raramente excede os 2,5%, com zonas em que não obtém sequer 1%.

O Chega já conseguiu uma implantação local quase generalizada, que é uma das condições de consolidação de um partido, projetada também pelo crescimento dos núcleos e número de militantes. A Iniciativa Liberal não tem essa implantação, especialmente nas áreas mais pobres e mais conservadoras, como é o caso do interior e precisa de sair das zonas de cosmopolitismo elitista para maior expansão de votos, para além do plateau agora alcançado.

Outro facto de grande relevo é o crescimento exponencial do número de votos dos dois partidos em 27 meses nas eleições parlamentares: o Chega passou dos 66.448 votos em outubro de 2019 para 385.559 em janeiro de 2022, o que corresponde a mais 319.111 votos (uma subida relativa de 480%); e a Iniciativa Liberal subiu de 65.545 votos em 2019 para 268.414 neste janeiro de 2022 (um aumento de 309%).

Em vez dos partidos opositores se lamentarem da derrota por causa da ação dos adversários, o que constitui uma manifestação da incompetência, e do partido vencedor, o PS, desprezar estes votantes, parece ser indispensável resolver as causas de fundo do descontentamento destas franjas do eleitorado com as políticas mais ou menos socialistas dos partidos tradicionais: emprego, criminalidade e instabilidade social, desigualdade entre áreas cosmopolitas e urbanas e áreas rurais.

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Latest comment

  • Ao longo da história verifica-se que a direita é conservadora, enquanto a esquerda é liberal (tirando uns casos de uns certos liberalismos de direita que rapidamente desapareceram).
    É verdade que em Portugal a direita sempre teve poucos adeptos.
    Iniciativa liberal é de direita?… veremos na prática o que vai acontecer. O psd também se afirma como centro direita, mas a prática, e é essa que interessa, revela que no geral não é.
    O chega é de direita? Veremos.
    Mas pronto, os fazedores de opinião e os mídia tradicionais fingem promover a direita, falando até à náusea sobre o chega e agora o il, para não nos apercebermos que continuamos no pântano e que o socialismo é o caminho inexorável que à muito estamos destinados.

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