Camões e Pessoa: os próximos réus?

Depois de ver vandalizada a estátua de Vieira e acusado Eça de ser racista, ignorando se já foram, ou não, destruídos os brasões da Praça do Império, em Lisboa, temo agora pelo futuro do nossos consagrados Camões e Pessoa.

Recordo que nos anos quentes de 1974-75, o nosso grande épico, aquele que “morreu com a Pátria” em 1580, foi desdenhado, ostracizado, considerado indesejável. Por esses tempos, chegou a alvitrar-se em certas escolas que Soeiro Pereira Gomes era o nosso maior escritor. Foi o tempo do neo-realismo enxamear manuais escolares.

Décadas mais tarde – quem o diria?… -, o pesadelo intensifica-se e internacionaliza-se. Académicos vangloriam-se de suprimir clássicos dos curricula, hordas de vândalos destroem e derrubam estátuas, avisando que com elas cairá, ou será atirado ao mar, quem se lhes acorrente em tentativa de protecção. E, por esse mundo ocidental fora, constata-se, com consternação, que boa parte desses vândalos possui formação universitária.

Daí o temor pelo destino dos dois génios absolutos da nossa literatura. É que ambos exaltaram o Império Português, e fizeram-no genial e entusiasticamente. E Pessoa, embora alie o lirismo à exaltação épica, acaba por acrescentar a “Os Lusíadas”, uma visão providencialista e, mesmo, o sonho de um Quinto Império cultural. Na “Mensagem”, o Império é, em primeiro lugar, vontade divina: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

Existe aqui, então, todo o potencial para a maldição de ambas as obras pelo politicamente correcto. Imperialismo/colonialismo, evangelização, racismo, machismo, homofobia, enfim, todo o cardápio do que se quer aniquilar. Esquecendo o contexto, obviamente.

Logo no Canto I d’”Os Lusíadas”, atente-se nos quatro primeiros versos da segunda estância: 

“E também as memórias gloriosas
E daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando”.

Será que quem quer aniquilar o Padrão dos Descobrimentos não sonhará também com a destruição da obra que assim começa?

E, quanto aos poderosos de hoje, demasiadas vezes demasiado ignorantes, não se reverão, furibundos, na estância 97 do Canto V: 

“Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação
Senão da Portuguesa tão somente
Sem vergonha o não digo (…)
Não se ver prezado verso e rima
Porque quem não sabe arte, não na estima”.

Esta desolação face à ignorância pátria é reforçada no Canto final, na famosa estância 145: 

“Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho 
Destemperada e a voz enrouquecida, 
E não do canto, mas de ver que venho 
Cantar a gente surda e endurecida. 
O favor com que mais se acende o engenho 
Não no dá a pátria, não, que está metida 
No gosto da cobiça e na rudeza 
Düa austera, apagada e vil tristeza.”

Não duvido da capacidade que certos investigadores com costela de Torquemada, terão, ainda, para encontrar insuportável machismo na “caça” às belas deusas da “Insula Divina”, ou homofobia na expressão “que afeminam os peitos generosos” referindo os homens que, em vez de se aventurarem, como os heróis cantados, levam vidas de ócio, prazeres e luxo.

Para esta esquerda radicalizada, que trocou a ditadura do proletariado pela do politicamente correcto, “Mensagem”, único livro publicado em vida por Pessoa, causaria provavelmente ainda maiores engulhos do que a nossa grande epopeia. Se digo “causaria”, é por não ter grande confiança na capacidade de análise ou mesmo no nível cultural de tal gente. É que a obra é eminentemente críptica, nela se misturando espiritualidade cristã com simbologias várias, a maçónica, entre outras. O próprio título significa “o espírito move a matéria” (Mens agitat molem) e o número três marca simbolicamente toda a obra, começando a tripartição também no próprio título.

Com efeito, a exaltação do Império, vista como desígnio divino, a esperança em ainda outro Império, o cultural (o Quinto Império) é a trave mestra desta obra épico-lirica. Não será por acaso que dois poemas são dedicados ao Infante D. Henrique, o tal que lidera a estatuária do Padrão dos Descobrimentos, aquele que um tal Ascenso gostaria de ver implodir. O primeiro desses poemas “O Infante D. Henrique” demonstra a grandiosidade que lhe é reservada:

“Em seu trono entre o brilho das esferas
Com seu manto de noite e solidão
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras
O único imperador que tem deveras
O globo mundo em sua mão.”

No segundo “O Infante”, pode ler-se:

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.”

Como parece ser destino dos génios nacionais, a disforia instala-se à medida que a obra acaba. Assim, o poema “Nevoeiro”, embora deixando em conclusão um apelo à Hora, transporta uma tristeza avassaladora:

“Ninguém sabe que coisa quer
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que e mal nem o que é bem.
Que ânsia distante perto chora?
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro.
É a Hora!”

As duas obras aqui referidas, estão imortalizadas pelos quatro cantos do mundo. É por isso que também podemos dizer aos ferozes revisionistas: não passarão!


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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  • Por favor Isabel, não lhe dê ideias, senão tenho que correr com eles à bengalada 🙂
    No meu CAMÕES ninguém toca!

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