Biomassa: a nova galinha dos ovos de “euros”?

Portugal e o mundo têm pela frente uma grave pandemia energética. Durante mais de um ano as atividades económicas sofreram um abrandamento significativo devido à COVID-19 e o consumo de energia sofreu uma queda de vários pontos percentuais.

Essa redução teve como consequência lógica a redução da extração de combustíveis fósseis. Por sua vez, permitiu que os preços dos fósseis não caíssem muito devido ao excesso de oferta, mas a procura pós-pandémica faz agora subir os preços desses combustíveis.

Muitos países, como Portugal, sem energia nuclear e sem recursos fósseis, têm ‘apostado’ nas energias renováveis para se livrarem da dependência em relação a fontes exógenas de energia. Porém, nessa ‘aposta’ há uma grande probabilidade de se perder, porque já é claro que, sem a possibilidade de armazenar energia elétrica, as eólicas e solares não conseguem substituir a energia elétrica de origem térmica. Nem que a plantação de eólicas e solares venha a cobrir todo o território nacional e não há muito mais a fazer em relação às hídricas.

A razão por que a aposta nas eólicas e solares é uma aposta perdida é simples: haverá sempre a necessidade de recorrer a uma energia de substituição quando faltar vento ou sol. Além disso, os transportes elétricos ainda não têm expressão e, nessa matéria, a dependência do petróleo é quase 100%. Mas com impostos de 150% sobre os combustíveis, qualquer pequena variação do preço de compra do petróleo é amplificada no consumo – cada cêntimo no aumento dos combustíveis dá 2,5 cêntimos de aumento no preço de venda, ou seja, em cada 10 euros de combustível, mais de 6 são de impostos.

Em relação aos transportes, Portugal continuará durante muito tempo ainda dependente do petróleo e é de referir que a incorporação de bio-combustíveis na gasolina e gasóleo, imposta por lei, só veio contribuir para o seu encarecimento.

Mas isto são contas de outro rosário e o que queremos falar é da biomassa, de que os bio-combustíveis também fazem parte.

Com o abandono próximo de toda a eletricidade a carvão, Portugal ficará dependente da eletricidade do gás natural como energia de base, mas não só. E o saldo importador deverá também aumentar. Existem várias centrais elétricas a gás em Portugal que respondem por cerca de 30% da produção total de energia elétrica, com uma potência total de 4,5 GW e uma utilização de cerca de 40% (dados da REN).

Numa ‘aposta’ mais recente na produção de eletricidade, surgiram as centrais de biomassa. A ideia de base de aproveitar os produtos florestais e agrícolas para produção de eletricidade é boa, pois a floresta acaba por arder de qualquer forma e considera-se a biomassa um combustível barato. Trata-se aqui de utilizar um recurso endógeno que pode também substituir importações. Além disso, a biomassa também é renovável, desde que a sua exploração seja sustentável e não conduza à desertificação, existindo já alguns estudos da avaliação desse potencial a nível local e nacional.

As atuais centrais de biomassa têm potências unitárias modestas, de modo a serem consideradas de regime especial. As centrais de pequenas potências exigem, em regra, investimentos mais altos por MW instalado e têm de ter uma utilização elevada para se tornarem rentáveis. Mas isso depende também do custo do combustível (biomassa), combustível esse que tem outro mercado competitivo (como é o caso da produção de papel, madeira e madeira prensada, aquecimento a lenha e pellets, etc.). Aliás, muitas centrais de biomassa foram instaladas pelas próprias fábricas de papel e algumas também são usadas como fontes de calor industrial em co-geração. Sendo a biomassa considerada uma energia renovável, e porque as respetivas centrais têm potências inferiores a 50 MW, estas fogem ao regime geral do mercado elétrico e são bem remuneradas, segundo apurámos, a 119 €/MWh. Pelo número de centrais já licenciadas (mais de 20), parece ser um bom investimento. A potência elétrica total instalada em Portugal ascende a 700 MW, com uma utilização superior a 50%, sendo já responsável por mais de 6% da produção total de energia elétrica em Portugal (dados da REN).

Resta saber se a biomassa em Portugal poderá substituir o carvão, cujas centrais sucumbiram à concorrência desleal das “eólicas” e das próprias pequenas centrais de biomassa que beneficiam das tarifas feed-in (prioridade de entrada na rede com remuneração favorecida).

Se a biomassa tiver o potencial de substituir, no todo ou em parte, o carvão, faria sentido reconverter a central do Pego para esse efeito, hipótese que está a ser considerada pela Tejo Energia, dona da central. Mas esta solução não resolve os problemas que conduziram ao seu encerramento enquanto central a carvão: a fraca utilização. A não ser que se trate de um investimento pequeno e que o preço da biomassa seja suficientemente baixo para uma operação rentável, de baixa utilização, em regime de mercado em que o preço não fica garantido como agora para as centrais com potências inferiores a 50 MW.

A central do Pego, reconvertida para biomassa, não poderá competir com as centrais a gás pela mesma razão que as de carvão não podiam: a inércia térmica que impõe a operação em regime de carga constante. A mixórdia energética existente em Portugal não é compatível com centrais de base e a exportação do excesso de produção para a Europa só será possível quando as interligações o permitirem.

A biomassa tem, a par da produção de eletricidade, aplicação como fonte de energia térmica, sendo “a principal fonte endógena para a produção doméstica de energia… com uma contribuição de 44% do total da produção”, à frente da eletricidade eólica, solar e hídrica.

Outra vantagem que se invoca para incrementar o aproveitamento da biomassa é a redução da carga térmica das florestas, com atenuação do risco dos incêndios, desde que haja uma gestão adequada das mesmas florestas.

Uma vez que se acautele que a regeneração da floresta se faz a um ritmo que compensa a sua exploração normal e para fins energéticos (que já existe), não será uma ‘aposta’ perdida como as outras; isto se o preço do combustível assim o permitir, e será bom haver certezas nesta matéria antes de se avançar em novas ‘apostas’. Sem esquecer que a recolha da biomassa se encontra espalhada por grandes zonas: requer meios, acessos, mão-de-obra, corte, transporte, secagem, etc. que podem encarecer o combustível. A fraca utilização e o preço do combustível podem ser obstáculos a transpor.

De resto, e para sossegar ambientalistas e radicais “climatistas” que começam a vociferar contra a biomassa, a neutralidade carbónica tem que ser assegurada pela não utilização de mais biomassa do que a que é regenerada pela natureza (e pelo homem), porque isso seria matar esta nova galinha dos ovos de “euros”.


Henrique Sousa
Editor de Energia e Ambiente do Inconveniente

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