As rosas e a peste

O recurso do Ministério Público sobre a decisão de pronúncia do processo Marquês, comentado em 30-9-2021 por Felícia Cabrita e Marta Reis (Pool Lusa) expõe o objetivo, a estratégia e a motivação, do juiz Ivo Rosa. E a miséria de José Sócrates.

As rosas, que eram rosas, perderam as folhas: expõem a nudez do ovário ínfero e provocam o nojo do clado angiospérmico. Do aplauso frenético passaram ao vómito sórdido num beco imundo.

José Sócrates está isolado. Do caneco do poder restam os cacos. O mel que atraía degenerou em peste que repele. A informação, que permitia a chantagem, tornou-se obsoleta. E o medo que lhe tinham sublimou-se em desdém.

O destino do ditador, que foi, parece agora vir a ser a representação da demência, consentida pela venalidade e medo do poder judicial, como José Penedos e Ricardo Salgado, para evitar o regresso ao calabouço ou a fuga para um coito árabe como João Rendeiro. De tudo, sobra apenas o dinheiro que permite o luxo anónimo na estranja e a ilusão de influência mediática através do oportunista que o vai trapacear.

Tudo mudou sem que nada fique na mesma. O requinte parece kitsch, a moda invisível, as iguarias insípidas, o odor que inebriava uma trampa que enjoa, os gritinhos das fúrias desprezados como tiques de doida.

Da evidência moderna, sobeja a patetice das estufas de droga e as festas órgicas no armário de mofo. Semelhante ao castigo do rei Midas que transformava em ouro tudo em que mexia, Sócrates sofre a maldição de não poder gozar o sabor doce da vida solta, sentir o aroma extático do mando, palpar a textura macia do trono, ouvir o clamor dos bobos e ver o mundo a seus pés. Do fascínio da admiração ficou apenas o pó que o devora.


António Balbino Caldeira

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