As intermitências da Covida

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Se o livro de José Saramago “As intermitências da morte” tivesse sido escrita hoje, seria assim:


“No dia seguinte ninguém morreu de causa natural. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspetos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença natural, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada, só se morria de Covid. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. O Natal e a passagem do ano não tinham deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha Átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém, houve-o, e não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais, uns ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas morreria no caminho, e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos se não estivessem infetados de Covid. Esse pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se recusava a morrer neste se não tivesse Covid. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. Até à meia-noite em ponto do último dia do ano sem Covid ainda houve gente que aceitou morrer de morte natural no mais fiel acatamento às regras, quer as que se reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as que atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa revestir-se quando chega o momento fatal…”

Henrique Sousa

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