Apostas energéticas do PS

O governo de José Sócrates apostou às cegas na energia eólica, e apostou demasiado. Foi uma aposta que está a custar e vai custar ainda mais aos consumidores de energia elétrica. Ao permitir que se instalasse uma elevada potência de aerogeradores, que produzem energia “ao sabor do vento”, isto é, sem atender às necessidades do momento de uma rede onde operam outras centrais, o sistema produtor tornou-se caótico, havendo ocasiões em que há muito vento mas não há procura de energia, e outras em que há pouco vento mas há necessidade dessa energia. Para viabilizar os investimentos nas eólicas (e solares e biomassa, etc.), celebraram-se contratos de compra de energia vantajosos para os produtores (mas ruinosos para o consumidor), com garantia de entrada da energia na rede, fosse qual fosse a procura.

As centrais a carvão e as centrais a gás natural viram as suas utilizações reduzidas porque sempre que as centrais prioritárias funcionam, têm que reduzir a sua produção. As horas de funcionamento equivalentes à potência máxima das centrais a carvão eram tão poucas que originaram o seu fecho antecipado em 2021. Portugal perdeu as centrais que, de todos os sistemas de produção instalados, podiam produzir uma das energias mais baratas, a do carvão.

Apesar de ser uma enorme perda para o país, o fecho daquelas centrais a carvão foi comemorado, pelo governo e pelos meios de comunicação sob controlo do governo, como uma vitória; Portugal é um dos campeões de energias renováveis e encerra as centrais mais poluidoras para salvar o planeta do terrível CO2 e das alterações climáticas, como se o nosso consumo fosse o maior do mundo. Mas não se diz o que esta vitória custa para a economia do país, passamos a importar mais eletricidade de Espanha, cara, parte dela proveniente de centrais nucleares e a carvão (de Marrocos!). E, naquelas ocasiões em que temos demasiado vento e fraca procura, exportamos eletricidade para Espanha a baixo preço, por vezes até mesmo a preço zero.

A lei de Gresham em Portugal é: energias intermitentes e caras escorraçam energias baratas e de produção controlável – porque a energia primária encontra-se armazenada nos combustíveis que utilizam. E aqui está um dos problemas das intermitentes, o seu armazenamento. Mas se elas já são caras sem armazenamento, justificam-se mais investimentos para sistemas de armazenamento? Qualquer leigo em economia diria que não! Todo e qualquer investimento tem que ter retorno, e armazenar energia não corresponde à criação de nada, pelo contrário, há energia que se perde no processo. Assim, o investimento em armazenamento só pode ser pago com o aumento do preço de venda da energia.

Apesar disso, o governo de António Costa pretende investir na produção de hidrogénio como forma de armazenar as energias intermitentes, eólica e solar. Claro que António Costa, de economia e de energia, nada percebe. Mas não disporá ele de engenheiros e economistas que consigam aconselhá-lo corretamente? Tê-los-á decerto, mas hoje em dia a ciência e a economia encontram-se sequestradas pela política. A política quer livrar-se dos combustíveis fósseis e, para isso, dá cobertura às hipóteses climáticas baseadas na ideia de que o CO2 que o homem emite para a atmosfera provoca o efeito de estufa e este efeito está a aquecer o planeta. E, se este aquecimento, ultrapassar 1,5 ºC, multiplicam-se as catástrofes e a vida humana na Terra poderá tornar-se um inferno e até extinguir-se. Ninguém sabe donde surgiu este 1,5 ºC, mas é bem possível que tenha sido uma estimativa de polegar votada numa assembleia de políticos já bem ensaboados com a hipótese do aquecimento global antropogénico.

Esta nova aposta socialista no hidrogénio verde (verde serve para tornar a coisa apelativa aos ecofundamentalistas) tem por base uma suposta transição mundial para uma economia baseada no hidrogénio, em que este será usado para substituir outras fontes de energia, nomeadamente os fósseis. Porém, mesmo que seja isso que o futuro nos reserva, essa economia está ainda num estágio muito incipiente e com alguma preocupação devido à história pouco feliz da utilização do hidrogénio no passado.

Tomemos como exemplo os veículos que funcionam com hidrogénio. Transportam um tanque de hidrogénio líquido, sendo este hidrogénio transformado a bordo em eletricidade por meio de células de combustível que são dispositivos estáticos onde o hidrogénio se combina com o oxigénio do ar, gerando eletricidade e água, saindo esta pelo escape. A eletricidade é então usada nos motores elétricos de tração dos veículos.

Até agora, os veículos a hidrogénio mais usados têm sido os transportes pesados mas existem também automóveis fabricados por marcas convencionais como a Toyota e a Hyundai. Têm preços acima dos 50 mil euros e o grande obstáculo que se levanta aos potenciais compradores é o de não haver uma rede de postos de abastecimento alargada. Estes postos são muito mais caros que os de gás, gasolina ou gasóleo, não sendo de esperar que os proprietários das gasolineiras neles invistam para a quantidade exígua de clientes que possa vir a existir. Isto é, terá que ser o Estado a instalá-los, quiçá por interposta parceria público-privada (gastos públicos e lucros privados). Ou seja, mais um sugadouro de dinheiros públicos em apostas ruinosas, da mesma matriz socialista.

Existem, contudo, sinais de arrepio de caminho por parte dos fabricantes de automóveis a hidrogénio, possivelmente confrontados com a concorrência dos elétricos a baterias e com a falta de procura por ausência de infraestruturas e o esperado preço elevado do hidrogénio que, por mais verde que seja ou talvez por isso mesmo, não pode ser mais barato do que a eletricidade de onde provém (e esta pode ser usada diretamente nos veículos elétricos a baterias por meio da ligação a uma simples tomada!…).

Mas o hidrogénio verde tem que avançar porque é a continuação da aposta socrática nas eólicas e solares. Se não serve para os carros, pode ser injetado na rede de gás natural que tem alguma capacidade de armazenamento, e poderá ser usado nas centrais elétricas de gás natural. Nem que o gás fique mais caro: quem paga são os consumidores nas suas contas da energia.

O hidrogénio verde também pode ser exportado para países ainda mais verdes que Portugal e enquanto a moda durar, onde a ameaça das alterações climáticas antropogénicas está a surtir o efeito desejado, impulsionado pelas Gretas que tão bem servem a causa climática da ONU e do seu IPCC.

Na Europa algumas cabeças começam a perceber que não é possível sobreviver só com energias verdes ou limpas e admitem considerar também “verdes” o gás natural e a energia nuclear desde que respeitem alguns requisitos. Quando o carvão for ainda mais barato ou o gás subir de preço, ele poderá também mudar de cor se obedecer a mais alguns filtros ou captura de carbono, etc.! Se for preciso, instala-se também um software adequado como o dos carros da Volkswagen e Mercedes…

Contudo, se o PS continuar no poder, vai continuar a apostar em projetos de energia cada vez mais ruinosos para a nossa economia. O que interessa ao PS é ser o bom aluno, bem comportado e preocupado com o clima mundial, mas sempre de mão estendida à União Europeia à espera do prémio!


Henrique Sousa

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Sub-diretor do Inconveniente

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  • Um bom artigo, tudo o que diz e’ acertado e sensato.
    O seu titulo poderia ser “O rei vai nu”.
    A actuação governamental na energia e nos transportes tem sido e continua a ser uma catástrofe.
    A produção de hidrogénio em grande escala e a subsidiação dos automóveis a pilhas são ruinosas para o país.
    A religião da “descarbonização” já tem uma santa, a Greta, e vai servindo para justificar todas as estupidezes.
    E a ideologia aquecimentista vai no mesmo sentido (ver https://resistir.info/climatologia/impostura_global.html).

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