Agricultura e pecuária na mira dos ativistas do clima

O governo irlandês tenciona abater 200 mil cabeças de gado bovino num esforço por reduzir as emissões de gases de efeito estufa, conforme notícia do jornal americano Cowboy State Daily, de 3-6-2023, citando um artigo de 2-6-2023 do The Telegraph.

Há vários anos que os governos europeus têm o setor agrícola e pecuário na mira. No sentido de atenuar a poluição do azoto, a União Europeia aprovou em 2-5-2023 um plano holandês de 1,47 mil milhões de euros para comprar explorações pecuárias, refere a agência Reuters em notícia de 3-5-2023.

O governo Biden visa atingir os agricultores e criadores de gado americanos. Descreve que o enviado especial do presidente para o clima, John Kerry, alertou recentemente, numa cúpula climática do Departamento de Agricultura dos EUA, que a necessidade da raça humana de produzir alimentos para sobreviver é responsável por 33% do total de gases de efeito estufa no mundo. Kerry terá dito: “Não podemos chegar ao net-zero. Não faremos esse trabalho a menos que a agricultura esteja à frente [como prioridade], e no centro [das atenções], como parte da solução”.

O mesmo artigo dá conta ainda que o bilionário Bill Gates está obcecado pelas emissões do gado, fornecendo apoio financeiro a empresas que desenvolvem suplementos alimentares de algas marinhas e máscaras de gás para as vacas.

Katy Atkinson, uma defensora agrícola que cria gado no condado de Albany, disse ao Cowboy State Daily que essa conversa sobre as emissões na pecuária não considera os impactos benéficos do gado para o meio ambiente e para o clima:

“O pensamento de grupo acontece muito em torno da conversa sobre mudanças climáticas. Temos uma visão de túnel num pedaço dele, sem considerar todas as implicações do que pode acontecer se removermos o gado da terra”, disse Atkinson. Ela refere que o gado contribui para a resistência à seca, a saúde do solo e a redução de incêndios florestais. E lembrou que antes das vacas havia milhares de búfalos vagueando pelas planícies da América do Norte, sendo o número de vacas atuais semelhante ao dos búfalos, portanto as emissões de metano não são novas. O gado bovino também beneficia a vida das plantas, disse Atkinson:

“É preciso animais ruminantes para forragear gramíneas, porque são os únicos que o conseguem fazer”, explicou. Os porcos, por exemplo, são monogástricos e não conseguem quebrar o alto teor de fibras nas gramíneas. O sistema digestivo da vaca pode quebrar as gramíneas e, em seguida, fertilizar o solo. Então, por meio do pastoreio adequado, o gado que ela cria ajuda as plantas a crescer. Na atmosfera, o metano que ele expele – a maior parte é libertada pela boca dos animais – decompõe-se, em 10 a 15 anos, em dióxido de carbono e água. As plantas que o gado ajuda a cultivar usam esse dióxido de carbono. O carbono é então colocado de volta no solo através das raízes das gramíneas. “Então, o gado é essencial para ajudar a manter esse carbono preso no solo”, referiu Atkinson.

Atkinson disse que uma em cada oito pessoas nos EUA é considerada em insegurança alimentar, o que significa que não tem fontes suficientes de nutrição. Ao remover o gado, disse Atkinson, eles estão apenas a aumentar esse problema, eliminando uma fonte valiosa de proteína da dieta americana. Há também muitos subprodutos alimentares que as vacas consomem como ração. Isso inclui a polpa remanescente da produção de sumo de laranja, as cascas de amêndoas e as cascas de batatas do fabrico de batatas fritas. “Tudo isso acabaria num aterro sanitário”, disse Atkinson.

O gado também não é apenas uma fonte de alimento. Produtos incluindo alguns detergentes para roupa, removedor de esmalte, sabões, loções, bolas de futebol e produtos farmacêuticos são feitos de subprodutos animais. “Seria um empreendimento bastante significativo [de monta] substituir todas as coisas que deles obtemos”, disse Atkinson.

Brett Moline, porta-voz do Wyoming Farm Bureau, disse ao Cowboy State Daily que as regulamentações que provavelmente resultariam de ideias como as de Kerry só tornariam a agricultura e a pecuária mais caras. Em última análise, esses custos seriam suportados pelo consumidor. “Isso vai encarecer os alimentos, e ainda temos uma grande parte da população em insegurança alimentar”, disse Moline.

É claro que as pessoas não vão parar de comer. Se as fazendas na América do Norte e na Europa fecharem, a produção de alimentos será transferida para países com regulamentações ambientais frouxas. O resultado final, disse Moline, é uma agricultura menos ecológica na produção mundial de alimentos. No que diz respeito aos impactos climáticos, Moline disse que eles estão a ser empolados, tudo é atribuído às mudanças climáticas, como a seca dos últimos dois anos. “Há dois anos, era mais seco do que as minhas piadas”, disse. “Agora estamos a molhar-nos de novo. O clima flui e reflui”.

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Sub-diretor do Inconveniente

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