Acidente de Cabrita: perna curta da mentira e mão longa do Estado

As recentes notícias sobre o acidente do carro do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, ao km 77,6 da A6, próximo de Azaruja, Évora, que colheu Nuno Santos (Pombinho), um trabalhador de limpeza da auto-estrada, em 18-6-2021, justificam alguns comentários:

  1. No comunicado de 19-6-2021, o Ministério da Administração Interna (MAI) afirmou: “Não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”. Porém, o jornalista João Carlos Rodrigues, do CM, de 21-6-2021, página 11, menciona, com base em fonte não identificada, que “decorriam ‘trabalhos móveis’ sinalizados apenas por uma carrinha na berma, poucos metros antes da zona onde estavam os funcionários” – veja-se a análise “8 questões sobre o acidente de Cabrita“, no Inconveniente, de 22-6-2021. Ontem, 30-6-2021, o CM , por Tânia Laranjo, refere que a Brisa desmente o MAI, garantindo que os trabalhos estavam “conforme os procedimentos de segurança adequados para este tipo de intervenção”, ilibando a sua responsabilidade e também da prestadora de serviços Arquijardim. Portanto, a crer nestas empresas, os trabalhos de limpeza da berma da auto-estrada estavam devidamente sinalizados. Por conseguinte, existe aqui uma contradição insanável: ou mente a Brisa, a Arquijardim e um colega do trabalhador falecido que testemunhou o acidente ou mente o ministro, cujo comunicado do Ministério certamente supervisionou. Se os trabalhos de limpeza tinham sinalização, não seria possível ao ministro não ter visto, pois seguia no carro que ceifou a vida do trabalhador.

  2. O CM, de 30-6-2021 (e novamente a edição de 1-7-2021), citam um colega (não identificado) da vítima, que explica que “era normal um dos funcionários ir ao separador central para desentupir a caixa de esgotos”, o mesmo trabalhador da Arquijardim que contou que o carro do ministro seguia a uma “velocidade louca”. O Inconveniente apurou que Nuno Santos era o chefe da equipa que procedia aos trabalhos de limpeza na auto-estrada. Segundo a reconstituição do acidente feita pelo telejornal das 13 horas da CMTV, Nuno Santos deslocou-se da berma ao eixo da via e quando regressava após saltar os rails foi colhido na via da esquerda da auto-estrada. Uma hipótese de trabalho pode ser que Nuno Santos, tenha cruzado a faixa de rodagem da berma onde roçavam o mato para ir ao separador central limpar a caixa de esgoto e que, quando voltava, tenha sido colhido pelo carro do ministro, o qual circularia na via da esquerda (como é padrão nas viaturas de dirigentes do Estado, mesmo que a via da direita esteja desimpedida) a uma “velocidade média de, no mínimo, 200 km/h” (CM, de 1-7-2021, p. 6) e a vítima foi atingida nas costas. Nessa hipótese de trabalho, viável até porque não havia rasto de travagem (tal como foi noticiado e o advogado da viúva agora reiterou), o motorista não observou o trabalhador que vestia a roupa refletora adequada, pois não circulava à velocidade máxima permitida, nem à velocidade adequada para parar no espaço livre e visível à sua frente, nem muito menos terá abrandado atendendo à sinalização de obras feita pela carrinha da empresa no local. Mash só a informação detalhada do acidente, nomeadamente os relatos das testemunhas, e a avaliação das circunstâncias do acidente pelas entidades competentes permitirá validar esta hipótese.

  3. O Inconveniente contactou a Brisa, e após várias tentativas, conseguiu ao segundo dia, 22-6-2021, chegar à fala com o assessor de imprensa da empresa, Franco Caruso, que respondeu: a Brisa “tem como regra não prestar qualquer informação sobre acidentes que ocorram nas suas vias, para não perturbar o curso dos inquéritos policiais ou, neste caso, do Ministério Público”. Parecia que o segredo de Estado era mais importante do que a reputação da empresa, danificada pelo comunicado do MAI no qual havia sido dito que a Brisa fazia limpeza na auto-estrada, sem “qualquer sinalização”… Ainda bem, que a empresa mudou de opinião e tranquiliza assim os clientes, e o público, de que se pode transitar em segurança nas suas auto-estradas e deque as obras de limpeza são sinalizadas.

  4. O CM, de 30-6-2021, cita um dos três colegas do falecido trabalhador da empresa Arquijardim, prestadora de serviços de limpeza à Brisa, dizendo que o carro do ministro “seguia a uma velocidade louca”. Todavia, o mesmo jornal, em 21-6-2021, p. 11, citava fontes próximas do jornalista (colegas do Corpo de Segurança da PSP?) que lhe garantiram que o carro “nem ia a uma velocidade elevada como é habitual em muitas deslocações oficiais”. A não ser que a bitola de velocidade do colega do motorista de Eduardo Cabrita, que fez aquela declaração off the record ao jornalista João Carlos Rodrigues do CM, esteja mal aferida a “velocidade louca” não era “elevada”; ou, a velocidade das “deslocações oficiais” é mais do que “louca”… Porém, o CM, de 1-7-2021, página 7, descobriu que o carro do ministro circulou na A6 a uma velocidade média de, no mínimo, 200 km/h”, por estimativa feita pelos militares da GNR do NICAV de Évora “a partir dos registos da Via Verde e das câmaras da auto-estrada e a hora do acidente”.

  5. A fonte do Inconveniente situa o momento em que o ministro partiu de Portalegre nas 12:30 horas. E o acidente ocorreu pelas 13:10, após um trajeto de 62,4 km no IP2 e 23,4 km na A6, o que dá uma velocidade média bastante superior à permitida: 90 km/hora, exceto nas povoações atravessadas, no IP2; e 120 km, na A6. Não é sabido se a comitiva do ministro efetuou alguma paragem no trajeto. O que se sabe é que o ministro não tinha agenda conhecida para essa tarde e, portanto, não se avista qual o “serviço urgente de interesse público” justificado como exceção de cumprimento das regras e sinais de trânsito (art. 64.º número 1 do Código de Estrada, Lei 72/2013) do ministro naquela “velocidade louca” (conforme disse o colega da vítima ao CM, de 30-6-2021) de regresso a Lisboa, que fica a 2:24 horas de distância, segundo o Google Maps. Salvo se fosse o almoço…

  6. A TVI gravou em 18-6-2021, conforme consta das imagens divulgadas, o momento em que, cumprida a cerimónia no Centro de Formação da GNR, em Portalegre, e as conversas posteriores ainda no centro, o ministro entrou no carro para voltar a Lisboa. Portanto, o jornalista e o cameraman, saberão a que horas o ministro deixou o centro de formação . Talvez, a hora exata deve estar guardada no ficheiro de gravação. Estranhamente, até agora, a TVI não divulgou essa informação, bastante útil para determinar o tempo que gastou o ministro entre o Centro de Formação da GNR, em Portalegre e o local do acidente. O Inconveniente contactou o jornalista Amílcar Matos, da TVI, em 20-6-2021, mas até agora não obteve resposta. Nem a TVI, que se saiba, publicou qualquer investigação sobre essa informação preciosa ou sobre o acidente, sobre o qual pendia um véu de censura que a pouco e pouco se levanta…

  7. A velocidade média não é a velocidade instantânea do local do acidente, mas permite perceber o comportamento do motorista e do ministro que chefiava o carro e cujas instruções de velocidade o motorista certamente cumpria. Contudo, a crer no que agora é reiterado, de que os trabalhos na auto-estrada estavam sinalizados, a velocidade de circulação autorizada deve descer para um valor que pode ser de 100 ou até 50 km/hora. O Inconveniente não consegui apurar qual era a velocidade de circulação assinalada pelas obras no local.

  8. Outro facto a assinalar é que, segundo testemunha, citada na notícia de Tãnia Laranjo, no CM, de ontem, 30-6-2021, é que “ministro e motorista não saíram da viatura” acidentada, segundo diz colega da vítima. Pois, é conhecido, e mais ainda das forças de segurança, o enorme perigo de as pessoas se manterem nos veículos acidentados, e até na berma da auto-estrada, sendo cuidado básico esperarem socorro ou transporte, para lá dos rails de proteção ou fossos das bermas, porque se manteve o ministro com o motorista dentro do carro?!… Mais ainda, cabia ao ministro e ao motorista assegurar a prestação de auxílio à vítima, mesmo que estivessem envolvidos seguranças e assessores em eventual reanimação. Não é sabido que diligências o ministro tomou nesse auxílio e na chamada de meios de socorro.

  9. Foi dito que o auxílio demorou cerca de um hora a chegar, alegadamente meia hora mais por engano no sentido da estrada. Ora, a distância entre o Hospital do Espírito Santo, em Évora, local onde supostamente se encontraria a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) e o local do acidente ao km 77,6 da A6 é de 13,4 km, o que o Google Maps (ver printscreen abaixo) calcula em 14 minutos. Todavia, em emergência (eventualmente, com escolta da GNR), a distância poderia ser percorrida em menos de 10 minutos. O facto do sentido da faixa do acidente na A6 ser Estremoz-Évora, do outro lado da circulação da VMER (Évora-Estremoz) não impediria que o socorro fosse prestado: bastaria atravessar a estrada. O trabalhador seria depois transportado na ambulância (e não na VMER), como é costume. A Lusa, em 24 de junho, noticia (ver Público) que “o médico António Peças, que presta serviço no hospital de Évora e na VMER sediada na unidade hospitalar alentejana, ter levantado dúvidas na sua página na rede social Facebook sobre o socorro ao acidente: “O que dizer da actuação do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM, que activou a VMER de Évora para o trajecto Évora – Montemor quando o acidente ocorreu no trajecto Estremoz – Évora, o que levou a que a VMER chegasse ao local mais de uma hora depois de iniciar o caminho para o local?”. Portanto, a VMER foi despachada de Évora para a A6 para o lado de Montemor (oeste) em vez de Estremoz (leste)!… Em vez de 10 minutos, o socorro médico demorou uma hora!… O ex-inspetor, e comentador policial, Carlos Anjos referiu na CMTV, na tarde de 1-7-2021, que o trabalhador pode ter tido morte imediata e que um segurança da comitiva era um sargento da PSP que tentou a reanimação sem sucesso. Em qualquer caso, as circunstâncias do socorro devem ser averiguadas.

  10. O médico António Poças, da VMER sediada no hospital de Évora, levanta ainda uma questão mais grave, eventualmente dolosa: “E alguém no CODU ter modificado os dados inicialmente enviados na ficha de activação, corrigindo a localização da ocorrência?” É que a a alegada modificação dos dados inseridos no sistema de proteção civil não é inédita – veja-se o caso do incêndio de Mação de 23 a 27 de julho de 2017.

  11. O Inconveniente contactou a empresa Arquijardim, ontem, 30-6-2021, mas a empresa recusou esclarecer as circunstâncias do acidente, dizendo-se satisfeita com a informação da Brisa de que os trabalhos de limpeza estavam sinalizados e que a sua atenção é providenciar apoio à família e recuperar o ânimo dos trabalhadores da empresa, os quais acorreram todos ao funeral, que a empresa pagou e onde não esteve o ministro nem este se fez representar. A empresa tem cerca de 15 anos de experiência nestes trabalhos e o serviço que faz para a Brisa é constantemente fiscalizado pela concessionária das auto-estradas para cumprimento escrupuloso das normas de segurança.

  12. O CM, de hoje, 1-7-2021, por João Carlos Rodrigues, noticia que “os militares da GNR que investigam o atropelamento mortal que envolveu o carro oficial em que seguia o ministro da Administração Interna foram impedidos, por decisão superior, de fazer perícias ao BMW”. O Observador (notícia de acesso livre), também de 1-7-2021, refere a notícia do Correio da Manhã, explicando que os militares do NICAV de Évora queriam “aceder ao computador interno do carro – a centralina – para perceber a que velocidade este seguia”. E que “os titulares da investigação nem sabem para onde a viatura foi levada depois de ser removida do local por um reboque da própria GNR”… E se a “estimativa feita a partir dos registos da Via Verde e das câmaras da auto-estrada e a hora do acidente” que “indicam que o carro oficial de Eduardo Cabrita circulou na A6 a uma velocidade média de, no mínimo, 200 km/h”, não permita “não permita “concluir a que velocidade seguia o carro no momento do atropelamento”, o “acesso à centralina do BMW permitiria perceber isso mesmo, já que regista as rotações do motor ou “a velocidade engrenada”.

  13. A mesma notícia do CM, de 1-7-2021, página 6, adianta que no auto da GNR relativo ao atropelamento “nem Eduardo Cabrita, que seguia no BMW, nem os outros elementos da comitiva que estavam noutra viatura foram identificados no local como testemunhas do acidente”. Foram identificadas como testemunhas somente os três colegas da vítima que estavam a trabalhar no local.

  14. Os factos noticiados abalam a confiança do povo no Estado. O ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita tutela diretamente as forças de segurança. Assim, o comunicado do MAI, de 19-6-2021, dia seguinte ao acidente, a atirar a culpa – sem menção da velocidade, nem da via (da esquerda) da auto-estrada em que o seu carro eventualmente seguia – para cima do trabalhador de 43 anos, Nuno Santos, único sustento da família, composta agora somente pela viúva e duas filhas, condicionou logo a investigação que cabe à GNR. Relembre-se que o comandante territorial de Évora, coronel Joaquim Papafina Vivas, se deslocou pessoalmente na tarde do acidente ao local para assistir ao transporte do carro do ministro para Lisboa, num pronto-socorro, conforme atestam as imagens televisivas. As notícias agora publicadas avolumam a falta de confiança na independência da investigação do acidente pela GNR, quando as testemunhas do acidente não foram todas identificadas e quando os militares foram alegadamente impedidos de investigar. A direção da investigação cabe ao Ministério Público e, portanto, o procurador encarregado do processo já aberto tem o poder de, se assim entender, determinar inquéritos autónomos à atuação do comando da GNR e do ministro sobre o inquérito e da entrega da investigação do acidente à Polícia Judiciária (que depende da ministra da Justiça e não do ministro da Administração Interna, como a GNR), se julgar comprometida a independência da investigação.

Atualização: este artigo foi emendado e atualizado às 0:03 e 1:16 de 1-7-2021.


António Balbino Caldeira


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Latest comments

  • Artigo muito esclarecedor, mas receio que a Brisa não se livre de pelo menos uma responsabilidade (ainda que de pouca utilidade para a vítima) :
    – Será que exibiu nos placards luminosos o aviso : “Animal caprino na via” ?

  • Quem diria que o MAI usa para serviço uma viatura que não é do estado, nem foi ainda declarada “perdida a favor do estado”!
    Um dia destes ainda encontram um fardo de coca ou TNT debaixo do banco do ministro …
    Então e se no evoluir do processo judicial, vier uma ordem para restituição a viatura ao legítimo proprietário ?
    Lá temos nós o caprino enrolado nas silvas novamente, a menos que o badocha se livre dele entretanto!
    O que estes gajos não fazem param plantarem o traseiro gordo num BMW (alta cilindrada) e mandam-nos a nós andar em carros eléctricos!

  • Os encarregados da propaganda xuxa mobilizam-se para tentar conter os danos causados pelas cabriolices do MAI, do visconde da CML e do tamboril da AR !
    – Estratégia errada! Quanto mais mexem mais ela cheira mal !
    – Como se vê o caso CML não era tão simples quanto pretendiam e nos queriam fazer querer!
    – Exagerar na “simplificação” cheira a desinformação, obstrução à justiça ou mesmo a tentativa de denegação da mesma!
    – Os ataques feitos ao MAI não o acusam (por enquanto) de ser o causador do acidente! Presume-se que não ia ao volante!
    – O que está em causa é a atitude! Não é tolerável que um ministro minta, ou permita que o ministério que dirige o faça!
    – Os xuxas que não percebem esta nuance, deviam ser corridos de qualquer cargo público por não cumprirem aptidão mínima para tal!

  • Se fizermos o exercício de concluir apenas do que é, para já, irrefutável chegamos a duas conclusões preocupantes:
    1. Serviço público de televisão e dever de informar – não pode a TVI escamotear dados. Não pode por dever deontológico e não pode por obrigação contratual decorrente da licença para emitir.
    2. Não pode um titular de cargo público tutelar qualquer averiguação, e menos ainda processo, que o vísa ou a quem lhe seja hierárquicamente superior. Não o dirá a lei?

    • Caro jorge,
      1. Ainda estou a “digerir”, deve-me faltar algum elemento … estou curioso …
      2. A lei foi feita por eles, com os “poros” adequados aos seus interesses.

      Eu ia pelo princípio que distingue o Cavalo do rato : “à mulher de César não basta ser séria …”
      – E nada de declarações iniciais! Ele até podia ir a dormir, ou a ler e não saber como aconteceu!
      Qualquer pessoa de bom senso, experimentada na vida honesta, e na transparência, não hesitaria em desenvolver esforços para que a PJ, em conjunto com a GNR investigassem o acidente!
      Claro que se não houvesse uma vítima mortal, isso seria descabido, mas havendo era pertinente e muito útil ao ministro e à paz social Só alguém pouco preparado para a função, ou com outro motivo muito, muito forte não veria isso!
      O resto da história (velocidade, carro apreendido, …) é o clássico indicador da arrogância da excepcionalidade destas criaturas que se acham no direito de atribuir a si próprios, e que nós só descobrimos quando algo de muito mau acontece (CML por ex.)!
      – Quantos mais governantes andam em carros apreendidos ?
      – Como é que os obtêm? [perguntem aos funcionários da justiça …as pressões … dá um artigo lindo 🙂 ]
      – O Novelo está podre, basta seguir a meada com cuidado, e é vê-lo a desfazer-se … contudo visto de fora é uma bola rosada quase perfeita (para o fim em vista)!

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