A verdade é a nossa forca

A decisão de Trump de deixar de fora da sua lista de indultos presidenciais o fundador do Wikileaks, Julian Assange, não caiu bem junto dos seus eleitores nas redes sociais, com vários apoiantes de Assange a acusarem o presidente cessante de se dobrar à pressão dos seus conselheiros e senadores republicanos.

Entre as críticas mais polémicas está a da mãe de Assange que, depois da divulgação da lista de indultos, escreveu no seu perfil do Twitter:

Tanta coisa para ‘Drenar o Pântano’ e derrubar o #DeepState

O meu filho jornalista, Julian Assange, brutalmente perseguido por fazer mais para expor o deep state do que qualquer outro jornalista na História… não está na lista.”

Julian Assange enfrentaria pena de prisão prepétua nos EUA, caso fosse extraditado. O Tribunal britânico recusou a sua extradição a 4-1-2021, com base em justificação médica. Dias depois, a juíza britânica Vanessa Baraitser recusou a fiança e manteve a sua prisão até uma decisão final ser tomada sobre o caso, dentro de três meses.

Esteve refugiado na embaixada do Equador em Londres, de agosto de 2012 a abril de 2019, data em que este país o entregou à justiça britânica. Os EUA solicitaram a sua extradição por causa da publicação, em 2010-2011, de informação política e militar confidencial. Coincidentemente, um tribunal sueco emitiu mandado para a sua captura com base no depoimento de uma mulher que reconheceu ter feito sexo consensual com Assange, mas que depois, na madrugada seguinte, este teria feito sexo com ela sem preservativo enquanto ela estava a dormir – ver Guardian, de 17-12-2010. O caso acabou arquivado pela justiça da Suécia, em 2019. No entanto, os EUA solicitaram a sua detenção e extradição.

Existe ainda a suspeita de que o Wikileaks teria veiculado informação russa comprometedora para a candidata presidencial democrata Hillary Clinton em 2016, prejudicando a sua eleição. Para distrair a atenção dos eleitores, esta teria ordenado que se respondesse com a imputação de ligação de Donald Trump ao governo russo. Esta manobra originou, ainda durante a administração Obama, a intrusão da CIA e FBI na campanha de Trump, seguida dos processos para a sua destituição.

Num tempo em que a informação se tornou o principal fator de poder, e até de produção, publicar a verdade tem como como consequência a punição dos corajosos que a expõem, como Julain Assange e Edward Snowden. O rei pode até ir nu, protegido pela corte dos média que pagam, direta e indiretamente. Mas ninguém pode dizer, senão é punido. Já era assim no passado, mas agora está muito pior.



“Qu’on me donne six lignes écrites de la main du plus honnête homme, j’y trouverai de quoi le faire pendre.”

Philippe Buchez (1796-1866), citando o juiz Laubardemont, homem de confiança de cardeal Richelieu.

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  • A versãu que eu conheço
    Armand Jean du Plessis de Richelieu:
    Donnez-moi deux lignes de la main d’un autre et je le fais pendre.
    A ideia é a mesma.
    oliveira

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