A tremida saúde e o seu futuro

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No penúltimo dia de agosto do corrente ano de 2022, assistimos à demissão de Marta Temido do cargo de ministra da Saúde.

Este acontecimento era inevitável devido à quantidade maciça de gafes e escândalos, cujos prejudicados não precisam de ser citados, mas sim relembrados, para que não volte a acontecer tamanha incompetência na gestão da saúde em Portugal.

A ex-ministra, alegadamente das mais populares, sai com um legado incrível:

– Portugal tornou-se o país com piores níveis de excesso de mortalidade na Europa em pleno 2022;

– 1.498.037 utentes sem médico de família, em comparação com os 728.052 de 2018 (ano em que se tornou ministra);

– Os polémicos serviços de urgência na ginecologia e obstetrícia, que chegaram a fechar;

– Défice de recursos humanos combatido à custa de cancelamento de férias;

– Aumento em 16% da dívida a fornecedores externos;

– Fim de PPP´s funcionais e menos despesistas para o Estado;

– Mais de um terço das necessidades de saúde dos portugueses a não serem satisfeitas (sendo Portugal o segundo pior país da Europa) com uma média da OCDE de 22%;

– Listas de espera de mais de dois em cirurgias.

Olhando para trás, não é de espantar que tenha chegado a um ponto de rutura, em que admitiu “não existirem condições” para continuar. Quando se coloca ideologia acima de pragmatismo numa área como a saúde, é difícil perceber como é que as “condições” existirão.

De forma a não parecer injusto, até posso dizer que teve alguns resultados positivos particulares, em condições adversas, como a redução de pagamentos em atraso a fornecedores externos do SNS, e que a pandemia foi um grande fardo nas costas do governo. Porém, a redução dos pagamentos em atraso na área da saúde, que já vinham com uma tendência decrescente desde 2014, e que podem ter outras interpretações menos otimistas, assim como a questão pandémica, que nasce de um contexto global, não são da responsabilidade total dos governos de esquerda.

No caso concreto da pandemia, e naquilo que ao governo competia, são inexplicáveis certas decisões, como a compra de ventiladores à China, que em plena pandemia nunca funcionaram, assim como a política de asfixia social anormal por parte do governo português, no que concerne às medidas (excessivamente) restritivas. A normalidade chegou mais cedo no resto da Europa, e por mais apático que possa parecer, o povo português consegue comparar cenários de países geograficamente próximos.

Ainda não se sabe quem vai dirigir a pasta da saúde, mas se há algo do qual temos conhecimento, é que não será com os mesmos erros do passado que vamos atingir o sucesso. Se não queremos ministros que cantam a Internacional no Ministério da Saúde, aqueles que preferem o Hino Nacional têm que comunicar ao povo de maneira direta e clara.

A agenda ideológica na saúde acabará quando a esquerda sair do poder, e o setor social, público e privado, for incluído num só sistema, sem diabolizações demagógicas e eleitoralistas.

Só um investimento planeado e inteligente, de moral antidespesista, e que vise aumentar a oferta de serviços e condições de trabalho na saúde, além do tão esperado fim das palas ideológicas da esquerda, resolverá muitos dos problemas do atual sistema de saúde português.

Até que esse cenário se torne realidade, António Costa continuará a afirmar que “quem quer mudança de políticas tem que derrubar o Governo”. A queda do atual governo chegará mais cedo ou mais tarde, e enquanto eleitor de direita, espero que não seja desperdiçada a oportunidade de reformar profundamente o sistema de saúde.

Por mais rosados e alaranjados que tenham sido os resultados das últimas eleições, uma vez que só um partido na Assembleia da República votou favoravelmente a moção de censura, e pediu a demissão de Marta Temido, os portugueses merecem e precisam de um sistema de saúde regenerado, prático e vanguardista. 

O povo português não se revitaliza com chavões propagandísticos, e está na altura de se votar tendo em conta tal facto. As listas de espera, que chegam a mais de 800 dias em alguns casos, que o digam.


Francisco Pereira Araújo

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Latest comment

  • Medicina convencionada, meios complementares de diagnóstico e tratamento cos consultórios privados, baixas nos consultórios privados, resolveria os problemas e atrasos de diagnósticos.
    Este pode ser um modelo, claro que provocaria a saída de muitos boys e girls dos ACES. A Madeira tem!
    Marcelo não sabe o que fazer com o Novo Estatuto?
    A MS demissionária vai insistir naquele aborto?

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