A tomada de controlo ideológico das escolas

Aquilo que está a ser feito, sem ouvir os portugueses e as entidades competentes, é a tomada de controlo ideológico das escolas, que a Constituição da República Portuguesa proíbe terminantemente.

Por mais flagrantes que sejam estas políticas – propostas nos Projectos de Lei n.º 332 (PS), n.º 21 (PAN), e n.º 359 (BE), todos sobre a matéria de alteração e desenvolvimento da Lei n.º 38/2018, de 7 de Agosto, que será discutida e votada na especialidade na reunião da Comissão de 18 de Julho, sem que tenha havido qualquer debate público e sem ouvir especialistas na área – em termos de violação da relação pais-filhos e da usurpação do poder parental por parte do Estado, o mais perturbador são as dúvidas semeadas nas mentes dos alunos, a partir do pré-escolar, na idade em que as suas faculdades cognitivas estão a aprender a testar a realidade.

Nas escolas deste País, sem que o Projecto de Lei n.º 332 tenha sequer sido discutido, votado e aprovado, o conceito ideológico de uma identidade de género apreendida e auto-determinada já é incutida na mente das crianças.

Sem que os pais tenham conhecimento, é dito às crianças que o sexo biológico e o género estão muitas vezes separados; que um não tem qualquer ligação essencial com o outro e que algumas pessoas, cuja identidade de género se alinha perfeitamente com o sexo que lhes foi atribuído à nascença, são chamadas “cisgénero”, que significa “deste lado do género”, termo cunhado para ser a definição oposta a “transgénero”, que significa “do outro lado do género”.

Tal como é apresentado nas escolas, ser “cisgénero” parece uma imposição dos médicos, ou dos pais, que (afirmam os ideólogos do género), atribuíram/impuseram o sexo – masculino ou feminino – aos recém-nascidos. Assim, perante o número crescente e infinito de identidades de género à escolha, é difícil imaginar que toda a gente não seja, pelo menos, um pouco de alguns dos géneros do abecedário colorido. 

Em muitas escolas, professores e Associações LGBT encorajam os alunos que lutam com a sua identidade de género a aderir à “comunidade” do arco-íris, para que possam ser afirmados na sua disforia ou na sua (des)orientação sexual. Para além dos grupos que se apresentam nas AECs, na disciplina de cidadania e nas demais disciplinas, em muitas escolas, os professores são instruídos a questionar, diária ou semanalmente, os alunos sobre a sua identidade de género e a tratá-los pelos seus pronomes preferidos.

Um panfleto infame criado pelo grupo Trans Student Educational Resources (TSER) (Recursos Educacionais para Estudantes Trans), presente no site de Educação para a Cidadania e em muitas salas de aula, mostra um unicórnio de desenho animado chamado “Unicórnio de Género” que pretende redefinir o que são os seres humanos, empregando eufemismos e frases de género. Da cabeça deste unicórnio emerge um balão de pensamento que contém um arco-íris que, segundo se diz, representa a identidade de género, embora esta seja definida, em geral, como qualquer género com o qual uma pessoa se possa identificar. O unicórnio é mostrado com dois corações, presumivelmente representando as várias atracções emocionais por homens, mulheres ou “outros géneros”. Na zona das virilhas do unicórnio há uma dupla hélice de uma cadeia de ADN, que representa o “sexo atribuído à nascença” da criatura que, de acordo com o documento, pode ser masculino, feminino ou “outro/intersexo” .

O sexo, é claro, não é “atribuído” por nenhum médico ou qualquer outra pessoa. O sexo está gravado no ADN e presente em cada célula do corpo humano desde o momento da concepção.

“As pessoas intersexuais existem!” é um argumento frequentemente utilizado pelos lgbtistas para silenciar todos os outros argumentos. Da forma como é utilizado, este argumento é falso. A verdade científica é que uma pequena percentagem da população humana pode ter uma configuração cromossómica rara que não é XX nem XY. A doença de Klinefelter e a síndrome de Turner são dois exemplos destas anomalias genéticas, frequentemente designadas por “perturbações do desenvolvimento sexual” (DSD) ou condições “intersexo”. Todas as pessoas que nascem com uma DDS, que pode ou não manifestar-se numa aparência invulgar das suas características sexuais secundárias, são sempre do sexo masculino ou feminino. Existem apenas óvulos e espermatozóides; não existe um terceiro gâmeta, nem um terceiro sexo. Mas isto não impede os agentes políticos de aprovar leis absolutamente ideológicas, de confundirem os DDS com a “identidade de género”, sendo que esta última é inteiramente uma construção de identidade auto-sentida e não genética.

Mesmo quando os ideólogos do género misturam duas ideias não relacionadas sob a égide da diversidade de género, as políticas identitárias vão mais longe e declaram que o “género” de uma pessoa é um fenómeno que ocorre dentro dela própria e que só pode ser conhecido pelo eu soberano: “Sinto, logo existo.”

Como escrevem Mary Rice Hasson e Teresa Farnan no seu livro “Get Out Now: Why You Should Pull Your Child from Public School Before It’s Too Late” (Saia agora: por que deve tirar os seus filhos da Escola Pública antes que seja demasiado tarde), os activistas empenhados em rejeitar a realidade estão a sobrecarregar a instrução na sala de aula, passando da educação à doutrinação. Citando um relatório de 2017 de uma coligação de influentes grupos LGBT e dos seus aliados na Associação Nacional de Educação, os autores salientam que as organizações definiram “pessoa transgénero” como aquela “cujo sexo atribuído à nascença é diferente do género que sabem que são por dentro”.

O resultado desta cruzada ideológica é que o sistema educativo, e cada vez mais as burocracias governamentais, deixarão de ter em conta o sexo biológico, uma realidade existencial na vida de cada pessoa. O debate sobre o conceito ideológico de uma suposta identidade de género criou uma guerra contra a própria língua, utilizando as palavras para dissociar os estados psicológicos pessoais da natureza da realidade. A psicologia e a auto-determinação não podem mudar a realidade de que o sexo é imutável. No entanto, a maioria eleita persiste em criar uma ficção que leva as crianças a questionar a sua própria natureza e a realidade.

Quando os impulsos sexuais de uma pessoa são vistos como o núcleo da sua identidade humana, quase não há limite para o número de categorias que as pessoas desenvolverão para normalizar as suas experiências. Estas categorias são frequentemente contraditórias entre si. Algumas pessoas identificam-se agora como “não-binárias”, “demi-sexuais”, “dois espíritos”, “genderqueer” e “pansexuais”, para além de “transgénero”.

Os seres humanos parecem ter um desejo insaciável de se “colocarem em caixas” para explicar e justificar as suas auto-percepções e comportamentos. Por exemplo, conhecemos pessoas que justificam o facto de serem mal-educadas ou excessivamente agressivas com questões de personalidade. No entanto, quando se trata de sexualidade, este tipo de explicação-como-justificação pode tornar-se perigoso e abusivo, como acontece com a normalização da pedofilia (atracção sexual por crianças). Por definição, a teoria queer e a teoria da identidade de género quebram as categorias do sexo masculino e do sexo feminino e colocam no seu lugar a auto-percepção de género de uma pessoa.

Por mais disparatado que tudo isto possa parecer para as pessoas comuns, a maioria eleita pelo povo português e os partidos à esquerda (entre os quais incluo a IL) levam muito a sério a ideologia que defendem e preparam-se para a impor sem ouvir o povo.

Vamos continuar a deixar?


Maria Helena Costa

*A autora escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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