A solidão da culpa no acidente de Cabrita

A ausência de qualquer representante do Governo no funeral, dia 22-6-2021, em Santiago do Escoural, Montemor-o-Novo, do trabalhador Nuno Santos (“Pombinho”), colhido mortalmente ao Km 77,6 da A6, junto a Azaruja, pela viatura de Estado onde seguia o ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita, conforme relatam os jornalistas José Lameiras e Sérgio Vitorino, no CM, de 23-6-2021, p. 20, envergonha o Estado e demonstra a falta de coragem do ministro.

Um homem morreu. E para essa morte concorreu provavelmente a velocidade a que circulava o carro do ministro pela faixa da esquerda – como se depreende das omissões do comunicado do MAI, de 19-6-2021, a sacudir a água de um cabote ensopado –, numa curva longa à esquerda ligeiramente a subir que possivelmente não daria uma visibilidade suficiente para a velocidade do carro. O trabalhador não foi detetado e o acidente aconteceu. Presenciaram o acidente três colegas da vítima que o acompanhavam na limpeza da auto-estrada. Do lado do MAI, não se sabe ao certo quem ia no carro do ministro, no carro de segurança e se existia ainda algum carro com assessores de Eduardo Cabrita. Diz o CM, nessa notícia, que o Ministério Público já abriu um inquérito-crime que será dirigido pelo DIAP de Évora.

O trabalhador que morreu deixou viúva e dois filhos menores. Não é apenas a vida de um homem que se extingue brutalmente, mas a dor e a falta de meios de subsistência que provoca naquela família. Se a família receber indemnização, ao contrário da atribuição da culpa pelo MAI ao trabalhador no comunicado desumano de 19-6-2021, passará um longo tempo, pois o Estado costuma recorrer das condenações até à última instância. A não ser que o ministro abrevie esse tempo para encerrar rapidamente a discussão do assunto e pague uma indemnização bastante acima da tabela, como fez com o ucraniano Ihor Homenyuk, morto na sequência de agressões realizadas por inspetores do SEF no aeroporto de Lisboa, em 12-3-2020, e cuja família vai receber um valor de 800 mil euros.

Devido às circunstâncias políticas de um País pobre, com a generalidade da imprensa sujeita à dependência direta (por ordem aos editores de confiança) e indireta (os negócios com o Estado que realizam os patrões desses média) do poder socialista, a ceifa da vida do trabalhador pelo carro do ministro não recebeu a atenção, muito menos a investigação, devida. Imagine-se o frenesim que aconteceria se o acidente fosse causado pelo carro de um dirigente da oposição menos subserviente… Assim, fica a culpa amargurada no altar da sua solidão e o noivo livre para novas aventuras.


António Balbino Caldeira
Diretor

Partilhar

Latest comments

  • Esta é a imagem do nosso país, quem trabalha é quem se lixa! Estivesse o desgraçado numa esplanada a comer uns tremoços e a beber umas bejecas à conta do RSI não estaria neste momento a fazer companhia aos anjinhos. Viva a Súcia Lista!!!

  • Quando é que a AutoEuropa resolve fabricar BMW’s e AUDI’s para que os nossos governantes (dum país pobre) possam pelo menos dizer que é “Made in Portugal” e ficar um poucochinho menos mal na foto ?

deixe um comentário