A Rússia vai atacar?

Mais de 100 000 homens, centenas de carros de combate, viaturas de combate de infantaria e outras viaturas pesadas de artilharia, engenharia, forças especiais, misseis de longo e curto alcance, etc., estão concentradas do lado russo da fronteira com a Ucrânia e as imagens de satélite não podiam ser mais claras.

Responsáveis políticos e militares da OTAN, dos EUA da Ucrânia, e vários analistas, acreditam que há uma elevada probabilidade de a Rússia invadir a Ucrânia nos próximos 2 a 3 meses.

As forças estão lá, estão prontas para combate e, no fundo, tudo depende da decisão de um homem: Vladimir Putin!

O que parece estar em causa, para além do objectivo imperial russo de reagregar os territórios da antiga URSS, é a eventual adesão da Ucrânia à OTAN, reforçada há pouco tempo pela visita do Secretário da Defesa americano (Lloyd Austin) a Kiev.

Putin definiu essa eventual adesão como uma linha vermelha que, a acontecer, desencadeará uma forte resposta russa.

Na decisão que Putin tomará nos próximos tempos, entrarão muitos cálculos, sendo talvez o mais determinante, a sua previsão de como agirá o Presidente Biden e, em consequência, a OTAN.

Neste momento ninguém duvida que os russos avaliam a actual administração americana como fraca, previsível e incapaz de fazer peito ou bater com o punho na mesa.

A dissuasão depende sempre da percepção (pelo adversário), da nossa capacidade e sobretudo vontade de usar a força. Quando se projecta uma imagem de relutância no uso da força, aumenta paradoxalmente a probabilidade de se ter mesmo de vir a usar, mas agora como resposta ao actor que esteja disposto a causar e a sofrer danos elevados.

Neste jogo de poker, que se está a jogar na fronteira com a Ucrânia, a Rússia mostra boas cartas e projecta uma imagem de que está disposta a avançar.

Biden pelo contrário, mostra a expressão e os modos do jogador que não quer ir a jogo e que está pronto a levantar-se da mesa e fugir.

É visto como fraco, e depois de ausência de resposta americana às invasões da Geórgia e Crimeia, do fiasco do Afeganistão, da relutância em responder às micro agressões no Iraque e Golfo Pérsico, o retrato de pusilanimidade é consistente.

Se juntarmos a isso, a onda woke que grassa por dentro das Forças Armadas americanas e lhes retira o espirito combativo, pode-se perceber como é que um estado como a Rússia, com uma economia que é sensivelmente metade da economia da Califórnia, se permite esticar a corda e passear-se à frente do touro, de forma displicente.

De algum modo, já percebeu que não se trata de um touro, mas sim de um boi manso.

Nesse jogo dos decisores políticos e estratégicos, as gesticulações de um jogador competente são calculadas de forma a intimidar o adversário, da mesma maneira que na luta entre dois machos, a luta pode ser logo vencida sem combate, fazendo “peito”, ameaçando e mostrando os  músculos ou as armas.

Há pouco tempo a Rússia levou a cabo um grande exercício (Zapad 21) na Bielorússsia, que incluiu a largada de 3 500 paraquedistas na rectaguarda, e a mensagem é evidente: tratou-se de um ensaio a uma eventual invasão da Ucrânia.

A acontecer, a operação começará com algumas operações psicológicas e ciberataques que, de resto, já estão a acontecer na Ucrânia.  

A ideia é fomentar a insatisfação, os protestos, as manifestações, que mostrem que o povo e o governo não estão em sintonia (componentes de uma das famosas trindades clausewitzianas), de forma a criar um pretexto para que a Mãe Rússia venha em socorro dos seus filhos.

A nível estritamente militar o ataque, a acontecer, envolverá uma operação de decepção a partir da Bielorússia, tendo como objectivo a Polónia (o que também já está a acontecer), bem como movimentações de armamento e escalada retórica na região do Báltico, para desviar a atenção e recursos da OTAN.

Seguir-se-ão massivos bombardeamentos aéreos e uma cavalgada blindada que penetre profundamente no território ucraniano, ao encontro de forças aerotransportadas e anfíbias, colocadas directamente nos portos do Mar Negro (Odessa, Maripul, etc).

E será assim, porque foi assim que a Rússia levou a cabo as recentes invasões da Geórgia e da Crimeia.

Neste momento, tudo pode acontecer.

O facto é que também a conjuntura politica americana sopra a favor das velas russas, dados os baixíssimos níveis de popularidade da actual administração americana, e os portentosos fiascos domésticos, que incluem uma inflação galopante, o crime a aumentar a olhos vistos, a cisão ideológica a alargar, a imigração clandestina a crescer de forma exponencial, os casos de Covid já superiores aos da anterior administração e, daqui a menos de um ano, eleições para o Senado e Câmara de Representantes que, se as actuais condições se mantiverem, resultarão na perda do controlo do poder legislativo.

Além disso Putin sabe também que o seu aliado chinês, com o qual vem vindo a aprofundar parcerias estratégicas, tirou o mesmo retrato a Biden e está igualmente a aumentar a pressão militar, politica e diplomática, sobre Taiwan, podendo mesmo aproveitar para acabar de uma vez  por todas, manu militari, com a independência e democracia da ilha.

 Neste momento, tudo parece indicar que nem russos nem chineses (nem ninguém, valha a verdade) acreditam na credibilidade de uma robusta resposta americana, até porque uma resposta armada significaria milhares de mortos e triliões de dólares.

Para a Rússia seria ainda pior, mas neste jogo de “chicken”, um dos jogadores parece determinado e segue a direito, e o outro (EUA), apesar de maior, já está a travar e a sinalizar a viragem.

 Arriscar uma derrota local com a Rússia (neste momento, os EUA não têm no terreno forças capazes de evitar o sucesso russo) seria catastrófico.

Mas os EUA não tem grandes opções, para além do esbracejar retórico

Colocar tropas no terreno, com uma massiva operação logística, poderia fazer Putin pensar duas vezes, mas poderia também ser interpretado como precursor de um ataque contra a Rússia.

A admissão acelerada da Ucrânia na OTAN, obrigaria os aliados a entrarem também em guerra, caso a Rússia invadisse, o que complicaria os cálculos de Putin, mas é improvável que aconteça, dado o carácter acomodatício e, vá lá, cobarde, dos políticos europeus que, como aconteceu com a Alemanha nazi, vão dando asas ao agressor e só avançam para a guerra quando já estão eles mesmo sob ataque.

Qualquer destas opções poderiam incentivar um ciberataque preemptivo por parte da Rússia, incluindo a destruição de satélites (de que dependem as redes de comando, controle e comunicações), capacidade que, aliás, a Rússia fez questão de demonstrar há bem poucos dias.

Com uma administração americana como esta, os dados parecem lançados… a não ser que a Ucrânia regresse voluntariamente (através de um golpe de estado) ao regaço do urso russo, opção que alienaria definitivamente a Ucrânia, mas permitiria aos políticos ocidentais agir como Pilatos, lavar dai as mãos e atirar os problemas para o futuro.

Saberemos daqui a pouco tempo!

José do Carmo

*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica

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Latest comments

  • Seria interessante contextualizar o assunto, fazendo referência aos interesses económicos em jogo.
    A simples (que simples não é) descrição de um “wargame” não ajuda à compreensão da temática.

    • A ideia dos “interesses económicos” é sua. O artigo refere claramente as razões profundas do conflito: hubris imperial da Rússia e complexo de cerco (Ucrânia na OTAN). A análise marxista, que pretende que tudo tem a ver com interesses económicos, é demasiado redutora. Uma guerra, a acontecer, não vai beneficiar economicamente ninguém. Já o mesmo não de pode dizer de Taiwan, de longe o maior produtor mundial de chips que se dominado pela China, transfere para Pequim a completa hegemonia sobre este produto

  • Os Estados Unidos precisam de um Presidente com garra que dê mostras de força e determinação.

    Só alguém que não deixe dúvidas que está disposto a utilizar todo o poderio militar ao seu dispôr, pode exercer um efeito dissuasor sobre os inimigos do Ocidente e triunfar na missão dos Estados Unidos de fazer o Mundo um lugar seguro para o casamento gay e a especulação financeira!

    No dia em que os EUA tiverem um Presidente á altura dos seus predecessores o Putinismo cairá, e poderá finalmente haver em Moscovo uma Marcha Gay Pride patrocinada pela Goldman Sachs!

    • lol
      *****

  • Curiosa notícia.
    Exports of Russian ammunition to the US have hit an all-time high, despite Washington imposing sanctions on Moscow’s arms industries, forcing buyers to exploit loopholes to get their hands on supplies of bullets and shells.
    https://www.rt.com/russia/543254-record-exports-ammunition-us/

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