A pensar (pela própria cabeça) morreu um burro

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“Foi só quase a meio do século XX que os habitantes de muitos países europeus se deram conta – regra geral, de maneira desagradável – de que o seu destino podia ser directamente influenciado pelos mais enrodilhados e abstrusos livros de filosofia”.

É assim que Czeslaw Milosz começa o seu livro “A Mente Aprisionada”. Refere-se à calamidade social que atingiu a Europa, a Ásia, a África e a América Latina no século XX, que culminou na matança de mais de 100 milhões de pessoas em nome do socialismo e do comunismo (que são apenas duas faces da mesma moeda).

Mas nós teimamos em ignorar essa verdade à qual ele chegou – porque sofreu directamente suas consequências – que é a de que existem pessoas com projectos ideológicos que pretendem transformar a natureza humana em algo que não é compatível com a realidade, e a forma de fazê-lo é subvertendo a cultura. Continuamos a viver como se as ideias que pautam a nossa imaginação fossem todas da nossa própria autoria, pois nos achamos muito conscientes. Afinal, estamos “em pleno século XXI” e “pensamos com a nossa própria cabeça”. Além disso, temos a tendência a acreditar que todas as nossas intenções são puras e boas, e se há tanta maldade no mundo, é porque os outros não pensam nem agem como a nossa ilustre pessoa.

A maioria de nós não lê os “abstrusos livros de filosofia” que compuseram o tecido da opinião pública actual, mas somos alimentados com o mel de lá extraído, esse mel que cativa o nosso paladar e nos deixa desejando por mais, sem saber que veneno lhe adocica o sabor. E isto, sempre “pensando pela nossa própria cabeça”. Por isso muita gente hoje acredita, por exemplo, que todos deveríamos ser feministas, pois não sê-lo é sinónimo de misoginia. Quem, no seu perfeito juízo, negaria às mulheres a justa igualdade de género? O problema é que esse conceito de igualdade de género é apenas um pretexto. É o mel envenenado.

O feminismo oferece um bode expiatório para as angústias das mulheres que não querem confrontar-se com a sua responsabilidade. Não nego que muitos sofrimentos femininos são causados por alguns homens, mas a raiz do mal não é o homem, não é o patriarcado, mas sim as inclinações naturais que podem levar qualquer um, homem ou mulher, a escolher pecar.

Se o feminismo levanta a bandeira da luta contra a violência de género, fá-lo como um artifício destinado a cooptar a dedicação das mulheres que são tocadas emocionalmente pela causa. Na prática, o seu objectivo não é acabar com a violência de género, e isso fica comprovado nos próprios escritos de algumas feministas que consideram justo abolir o macho da face da terra. Chegou a haver, em Portugal, na altura da revolução socialista do 25 de Abril, um grupo de activistas feministas que procurava reunir estudos sobre a partenogénese, apresentando-a como algo possível na espécie humana, desejável para um futuro remoto. Logicamente, a ideia ficou pelo caminho, mas a concepção de que o macho deve ser extinto do planeta não é rara entre as feministas actuais. Não é isso “violência de género”?

Não são todas as feministas que pensam assim, mas só dentro do movimento feminista se encontra essa ideia macabra declarada. Mas existe uma excepção: os homens que apoiam o movimento estão isentos. Portanto o alvo é o homem “tradicional”. Por este termo entenda-se aquele homem que assume a responsabilidade de sustentar e defender a sua família, que ama a sua esposa e filhos segundo o preceito cristão, dando a sua vida por eles. Por mais imperfeitos que sejam, existem homens que vivem com esse ideal no coração.

Então, a quem interessa mesmo a abolição desse homem tradicional? Não é só às feministas radicais, mas também a outros homens. Interessa, sobretudo, a homens com muito poder, que sofrem de uma megalomania patológica que os tem levado a fomentar movimentos sociais – como o feminismo – com o fito de aumentar exacerbadamente a dependência e a ignorância do povo.

A cultura judaico-cristã não foi imposta unilateralmente como um projecto de poder de cima para baixo. Embora possam ter existido homens que procuraram usar o cristianismo com esse intuito, a verdade é que ele foi enraizado ao longo de séculos a partir do interior das famílias e das pequenas comunidades. Ainda é assim hoje. É no seio da família que se solidifica a moral e a cultura, e a cultura cristã, quando bem entendida e ensinada, forma indivíduos livres, responsáveis e corajosos, difíceis de serem domados por poderes externos. É por isso que os movimentos revolucionários como o feminismo têm sempre como alvo principal o homem e a mulher cristãos.


Francisca Silva

*A autora escreve segundo a anterior norma ortográfica.

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