A impossível solução de dois Estados

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Nas últimas semanas temos visto imagens, publicações e vídeos suficientes para perceber a gravidade do mais recente conflito.

De quem é a culpa do que está a acontecer em Israel e na Palestina? Em que lado confiar? A resposta varia tendo em conta a escala de análise e as nossas crenças.

Se por um lado se disser que os ataques terroristas do Hamas são condenáveis, sabendo que pessoas inocentes foram mortas de variadas formas, por outro deve-se afirmar que a tentativa de limitar água, comida e bens de primeira necessidade a uma população com milhões de pessoas é condenável pela punição coletiva.

A tentativa de contenção da resposta israelita, quanto ao seu grau de agressividade, reflete uma intervenção dotada de preocupação por parte dos EUA relativamente a uma eventual escalada do conflito e degradação da opinião pública, que poderá eventualmente discordar da justificação do direito à defesa até às últimas consequências. Prova disso é que a maioria dos países, numa escala global, já demonstrou limitações quanto a um eventual apoio incondicional aos objetivos de Israel neste conflito.

Uma vez condenadas as partes, convém perceber o motivo pelo qual os recentes ataques aconteceram. Se por um lado é da conveniência do Hamas continuar a ter uma causa que justifique a sua existência, a oposição a Israel, as bandeiras religiosas e ideológicas também entram em campo. O nível de análise sai da escala micro para uma escala macro, onde se enquadram as motivações de reclamação da terra outrora dominada por árabes e que hoje se encontra sob domínio israelita, quando incluímos a longa história do conflito.

Não justifica o ato em si, mas dá uma explicação do porquê de ter acontecido dado que ambos os lados são duas locomotivas movidas por elementos que esbarram impulsos irracionais da mais natural ordem de preservação tribalista e identitária. Com isto afirmo que uma solução de dois Estados é praticamente impossível. Se os palestinianos abandonarem a sua luta contra a ocupação israelita por quererem uma “paz” contrastante com uma oposição às pretensões expansionistas de uma parte da classe política israelita, a sua identidade será diluída com o passar do tempo. O mais curioso nisto são os partidos da extrema-esquerda ocidental como o Bloco de Esquerda que se queixam da “substituição demográfica” na região, mas apoiam o conflito demográfico que existe atualmente na Europa. Simultaneamente, se amanhã o território de Israel passasse a ser palestiniano de forma consentida, simbolizaria uma desistência na luta pela vitória da sua identidade, segurança e existência.

Quem desistir do objetivo de supremacia na região ou for demograficamente reduzido a uma insignificância, ficará para a história como perdedor. Perante este cenário, os atos para vencer são vistos como ética e moralmente justificáveis na ótica de quem os perpetua, e só com uma análise distante e desnutrida de parcialidades é que poderemos chegar a essa conclusão. Realisticamente falando, quem acha a conciliação possível deve afirmar ser crente na hipótese de que é razoável negociar com quem deseja a nossa inexistência, algo que existe dos dois lados por mais enviesada que seja a opinião do leitor, e isso é algo no qual eu não acredito.

Recapitulando sobre as bases do conflito num intervalo moderno, vários episódios contribuíram para um crescimento exponencial do multiculturalismo na região:

Desde o primeiro congresso sionista em 1897, liderado por Theodor Hurtzel, passando pela influência de peso da família Rothschild em criar um Estado judeu após a vitória dos Aliados na 1ª Guerra Mundial através da Declaração de Balfour, contando com um temporário apoio à imigração no pré 2ª Guerra Mundial por parte do Terceiro Reich através do Acordo de Transferência (Tratado de Havara) e finalizando com a Aliyah (imigração da diáspora) pós 1948, tivemos vários eventos que contribuíram para essa transformação. O denominador comum é a presença ocidental enquanto força promotora deste resultado.

Independentemente desta evolução que ainda hoje influencia a região, um palestiniano não mente ao afirmar que os seus antepassados viveram durante séculos naquela terra. Da mesma forma que a Ucrânia resiste à ocupação russa, é impossível dizer para estas pessoas, muitas delas com familiares mortos nas últimas décadas, simplesmente abdicarem do que acreditam e da terra dos seus ascendentes.

E o mesmo não acontece para o lado israelita? Ora, se um judeu sionista acredita que é um eleito de Deus para deter a Terra Sagrada, e que inclusive é do seu interesse material ampliá-la (veja-se o caso do Plano de Grande Israel que leva os seus apoiantes a almejar a ocupação dos vizinhos regionais de Israel), não serão as minhas palavras a convencê-lo de que se deve enfraquecer, deixar de acreditar nas suas crenças e defender a sua identidade. Se essa pessoa o fizesse, estaria a ser incompetente e um mau contribuinte histórico para o seu povo.

Perante isto, quem apoiar? Perante este cenário quem é que nós enquanto povo devemos apoiar?

A resposta não é difícil: nós mesmos.

O Ocidente já provocou demasiados estragos ao brincar às fronteiras retilíneas, substituições demográficas e invasões em prol da exportação da democracia liberal. Os estragos não ficarão por aí se continuarmos a criar justificativas para milhões de refugiados entrarem na Europa. Talvez, só talvez, não caiba aos países europeus gastar energias na decisão do futuro de uma região que não quer ter dois Estados.


Francisco Pereira Araújo

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  • Quando a Internet ainda era livre lembro-me, de ler uma história sobre uma senhora judia de origem portuguesa, casada com um português muito rico. Se não me falha muito a memória, o marido morreu e a senhora foi viver para a Palestina. Tentou convencer o sultão otomano a lhe vender a palestina para criar uma terra para os judeus. Este recusou e a senhora foi viver para Itália(?), França(?), onde viveu o resto da sua vida entre a nobreza europeia. Uma história muito interessante. Penso que era conhecida por lá Señorita.
    Há sempre uma curiosidade que fica. Os sionistas querem concretizar a criação do grande Israel que abrange alguns territórios dos países vizinhos, como é que então, como dizem por aí, são os dois lados da contenda, que não querem a criação de dois estados?
    Teremos então depois, guerra com os vizinhos também?
    Já agora, porque não deixar nas mãos de Deus o que é de Deus? É que se o homem quiser, terá as mãos cheias a tentar evitar e/ou a minimizar o sofrimento onde quer que ele exista.

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