A guerra do gás III

“A dependência da Europa em relação ao gás natural importado da Rússia foi posta agora em evidência pela invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro. Em 2021, a União Europeia importou em média mais de 380 milhões de metros cúbicos por dia de gás por gasoduto da Rússia, ou seja, cerca de 140 mil milhões de metros cúbicos para o ano inteiro. Além disso, cerca de 15 mil milhões foram entregues na forma de gás natural liquefeito (GNL). Um total de 155 mil milhões foi importado da Rússia e representou cerca de 45% das importações de gás da UE em 2021 e quase 40% do seu consumo total de gás” – pode ler-se num relatório da AIE (Agência Internacional de Energia) com a data de 3-3-2022, isto é, depois da invasão russa de 24-2-2022.

Este relatório é um plano com 10 medidas que visam a redução de 80 mil milhões de metros cúbicos nas importações de gás da Rússia, o que representa um pouco mais da metade dessas importações. As medidas propostas são as seguintes:

  1. Não realizar novos contratos de fornecimento de gás com a Rússia;
  2. Substituir os fornecimentos da Rússia por gás de fontes alternativas – estima-se que esta medida poderia representar a substituição de 30 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  3. Introduzir stocks mínimos de armazenamento de gás para aumentar a resiliência do mercados;
  4. Acelerar a implementação de novos projetos eólicos e solares – esta medida poderia gerar mais o equivalente a 6 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  5. Maximizar a geração a partir de fontes de baixas emissões como a biomassa e nuclear – uma medida equivalente a mais 13 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  6. Adotar medidas de proteção de curto prazo de consumidores vulneráveis de eletricidade –medida que se destina a reduzir a fatura de eletricidade dos consumidores mesmo quando os preços de gás forem altos e custaria cerca de 200 mil milhões de euros;
  7. Acelerar a substituição de esquentadores a gás por bombas de calor – medida que poderia poupar 2 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  8. Acelerar as medidas de eficiência energética em edifícios e indústria – equivalente a uma poupança de mais 2 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  9. Encorajar a descida de 1ºC nos termostatos de aquecimento – o que poderia poupar 10 mil milhões de metros cúbicos de gás;
  10. Fazer esforços no sentido de diversificar as fontes de energia e a flexibilidade do sistema produtor – esta medida visa desligar o sistema produtor de eletricidade da dependência do gás, principalmente nas pontas de consumo onde as centrais a gás respondem melhor.

Por este relatório se constata o quão difícil é, no curto prazo, reduzir a dependência da Europa em relação ao gás russo. A alternativa proposta na medida 2, substituição de fornecedores de gás, aponta para o GNL, pressupondo a existência de terminais de receção com capacidade suficiente e a predisposição dos países europeus de pagar um preço mais alto pelo gás.

Das medidas propostas pode-se inferir uma recomendação aos consumidores para desistirem do gás a favor da eletricidade (medida 7) que seria transitoriamente subsidiada (medida 6). A longo prazo, com a construção de mais centrais nucleares ou a biomassa (medida 5), essa mudança poderia até fazer sentido e ser mais segura em relação aos perigosos acidentes com o gás.

É ainda assinalável que as medidas de eficiência em edifícios e indústria (medida 8), que requerem investimentos elevados, trazem muito menos poupança do que regular os termostatos de aquecimento para menos um grau centígrado – baixar de 20ºC para 19ºC por exemplo (medida 9). Recorde-se que há mais procedimentos igualmente simples como os termostatos com regime noturno, com seguimento de temperatura exterior, etc., que podem trazer poupanças consideráveis.

Não há, nestas medidas, nenhuma que contemple a construção ou reativação de centrais a carvão. Mas recomenda-se, numa perspetiva politicamente correta, a implementação de mais projetos eólicos e solares (medida 4), que poupam menos gás que a regulação de termostatos, e requerem investimentos incomparavelmente mais substanciais.

Resumindo, este relatório da AIE mostra que, no curto prazo e com investimentos pesados, apenas se consegue reduzir a dependência do gás russo para metade. No longo prazo e com o abandono do preconceito em relação ao clima e ao CO2, bem como do receio da energia nuclear, a Europa pode vir a reduzir significativamente a dependência do gás russo, sem criar novas dependências energéticas perigosas por competirem entre si. Os recursos limitados da Europa em combustíveis, tornam-na vulnerável à chantagem energética e à guerra.

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Sub-diretor do Inconveniente

Latest comment

  • ‘We cannot invent new infrastructure in a few days’ – German geopolitical analyst
    https://odysee.com/@RT:fd/rainer_rothfuss_to_rt_28:f
    .
    Os governantes alemães dizem que não vão pagar o gás russo em rublos, como os governantes russos estão a exigir. Vamos ver como esta novela pirosa vai acabar.
    Todas estas medidas perecem-me fantasiosas.

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