A ficção já não é ficção

Antes da pandemia, já havia censura nas redes sociais e noutros multimédia. Terá começado pelo corte de conteúdos pornográficos e/ou ofensivos da moral e foi-se estendendo a outras questões. Julgo que a seguir terão sido os discursos de ódio racial, de género, contra as minorias. Gradualmente, fomo-nos adaptando e aceitando a censura com maior ou menor relutância. Alguns até a aplaudiam.

Porém, qualquer pessoa podia partilhar opiniões sobre quaisquer assuntos e divulgar as mais disparatadas notícias que aparecem fora das redes: sobre a origem do mundo, a forma da Terra, a visita de alienígenas à Terra, insólitos desvirtuados com Photoshop, falsas notícias sobre notáveis. Mas nada disto fez soar o alarme sobre a desinformação: a mentira sempre teve pernas curtas e a falsidade, ao contrário da verdade, é mais fácil de descobrir.

Estava a “linda Inês posta em sossego” nas redes sociais, convivendo com uma série de opiniões e notícias que valem o que valem, quando alguns espertos se deram conta que algumas dessas opiniões ou notícias conseguiam chegar a um público alargado, mesmo não sendo factuais e mormente quando atingem figuras públicas. E surgiram então os fact-checkers que passam a notícia a pente fino e classificam-na de acordo com uma escala que vai do verdadeiro ao falso com várias nuances pelo meio. Primeiro em sites próprios, mas depressa passam a fazer parte de jornais e de televisões que vêem neles uma fonte de audiências.

Se, por exemplo, alguém colocar um meme viral no Facebook a dizer que o ministro Eduardo Cabrita circulava a 200 km/h quando o seu carro atropelou o cantoneiro Nuno Santos, os fact-checkers vão esmiuçar o assunto e concluem que o meme é falso por duas razões: primeiro porque não era ele que vinha a conduzir, segundo porque não vinha exatamente a 200 km/h…

A pandemia que eclodiu no início de 2020 trouxe, nas redes sociais, mais uma extensão da censura. Tudo o que contraria a posição oficial sobre a origem, tratamento, medidas de contenção, medicamentos e vacinas, passou a ser alvo de censura nas redes sociais. Esta censura é implacável e, venha a opinião ou notícia de onde vier, do Zé Ninguém ou do presidente Trump, ela pode dar azo a avisos, exclusão da postagem e até mesmo expulsão do “infrator”.

Instalou-se uma censura sanitária covidista muito semelhante à censura praticada em regimes comunistas ou totalitários quando tentam esconder situações muito comprometedoras, como por exemplo acidentes nucleares, envenenamento de opositores, violação de direitos humanos.

Porquê, e como, é que as redes sociais foram convencidas a exercer esta censura? Foram pagas? Foram obrigadas? Fazem-no por convicção dos seus donos? Existe alguma coisa que se queira esconder em relação à pandemia?

Creio que são dúvidas legítimas que podemos colocar-nos. Mas sei que é cada vez mais perigoso escrever sobre elas porque se a resposta às mesmas confirmar as suspeitas, mais dia menos dia (e já temos legislação na forja) a censura será oficializada, abrangendo ainda mais áreas do pensamento. A ficção de Orwell afinal não é ficção.


Henrique Sousa

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  • Ainda que algumas pessoas possam ver isto como uma atitude bem intencionada, é um principio que está completamente errado. Um principio e uma prática também, porque os “verificadores de factos” deixam muito a desejar quanto a isenção e objectividade.

    As redes sociais fazem esse bloqueio simplesmente porque são negócios, precisam de agradar ao maior número possível de clientes e como as pessoas tem-se mostrado cada vez menos tolerantes com as opiniões diversas, a maioria “exige” que para sua satisfação alguns outros sejam calados.

    Em grande parte esta intolerância crescente tem origem na substituição da televisão e dos jornais pelos canais da internet como as redes sociais ou o youtube e mesmo os canais televisivos temáticos, isto faz com que as pessoas deixem de absorver a diversidade que a comunicação generalista oferece e passem a “encontrar-se” apenas com os que partilham o mesmo ponto de vista.

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