A ética cristã fornece respostas para os problemas ambientais

Na tradição cristã, não existe oposição entre o bem comum e o carácter físico do Universo. O bem comum e o Universo emanam do Criador e, por isso, são necessariamente bons.


Na tradição bíblica, a vinda, a crucificação e a ressurreição de Cristo tiveram um propósito bem definido: anunciar a salvação. Deus enviou o seu Filho para nos salvar. A necessidade de salvação resulta do pecado. A forma como os humanos maltratam a Terra e os restantes seres vivos é consequência do pecado. Esse propósito de salvação é válido não só para os humanos, mas também para todos os outros seres. Deus enviou o seu Filho, porque os homens não souberam cuidar de si próprios nem daquilo que Deus lhes ofereceu.


O Antigo Testamento está repleto de alusões e referências a pragas, secas e outros cataclismos naturais. Os textos sagrados acentuam o desagrado de Deus face àquilo que os homens têm feito. Os humanos deixaram de se portar como usuários da Terra. Em vez disso, portaram-se como donos descuidados. O resultado está à vista e manifesta-se através dos enormes problemas ecológicos que afetam a Terra e a vida dos humanos e dos outros seres vivos.


Não há limites para a avidez humana. São comuns as passagens da Bíblia onde se faz referência à associação entre a injustiça na distribuição das riquezas e a degradação ecológica (1).

“Ai daqueles que juntam casa a casa e acrescentam campo a campo, até não haver mais terreno e serem os únicos a habitar no meio do país. Javé dos exércitos jurou ao meu ouvido: as suas muitas casas serão arrasadas, os seus palácios luxuosos ficarão desabitados” (Isaías. 5:8-9).

Essa relação permite considerar que a tradição cristã deu forma e significado ao conceito de ecojustiça.


Até ao Iluminismo, a tradição cristã sustentava a crença de que era Deus e não os humanos o locus principal de consciência e de propósito moral no cosmos, sendo a criação, em primeiro lugar e sobretudo, uma possessão de Deus e não da Humanidade (2).  Encarada desta forma, a relação dos humanos com a Terra muda de figura. Deus emprestou a Terra aos humanos e espera que eles façam bom uso dela, respeitando todos os outros seres criados, igualmente, por Deus.


A ideia antropocêntrica, tão cara ao ideal iluminista, é estranha e contrária à tradição cristã. Se regressarmos à visão teocêntrica, não mais se justifica o abuso dos recursos naturais pelos humanos, seja com o fim de colocar esses bens ao serviço do progresso científico, tecnológico e social, seja com o objectivo de usufruto desmedido e insensato pelos que se apoderaram dessas riquezas. Há, portanto, limites para o uso dos bens naturais e esses limites radicam no respeito por todos os seres criados por Deus. Sendo Deus o criador de tudo o que existe, aos humanos apenas é dado o usufruto. A fruição dos bens criados por Deus deve fazer-se no respeito pelas leis divinas e pela lei natural, aquela plasmada nos textos bíblicos, esta desenvolvida e explicada pelos padres da Igreja, em particular Tomás de Aquino, a partir de uma simbiose criativa entre a filosofia de Aristóteles e a tradição cristã. Há várias parábolas de Jesus e vários textos de S. Paulo que afirmam que as riquezas terrenas não são posse dos humanos mas sim de Deus.


Na Primeira Carta aos Coríntios (3), S. Paulo afirma que não somos donos dos nossos corpos nem dos mistérios da fé, pois tudo isso pertence a Deus. O que Jesus trouxe de radicalmente novo foi a ideia da descoberta da categoria do amor, amor a Deus, amor aos nossos vizinhos e a todas as criaturas da Terra. Olhar para a relação dos humanos com a natureza em termos de amor por todas as criaturas tem grandes implicações.


A forma como a agro-indústria cria e transporta os animais que se destinam a alimentar grande parte da população das nações viola grosseiramente os ensinamentos éticos de Jesus. O abate indiscriminado e maciço de árvores nas florestas tropicais fere igualmente esses ensinamentos. O próprio modo de vida preponderante nas sociedades mais desenvolvidas, assente no aumento continuado do poder aquisitivo, no consumismo desenfreado e na crença cega nos benefícios do progresso, da ciência e da tecnologia, contraria igualmente a tradição cristã.


A tradição cristã oferece uma resposta aos problemas ecológicos. Uma resposta que não assenta apenas na crença na ciência e na tecnologia, mas sobretudo no regresso aos ensinamentos éticos de Jesus: ama o teu próximo como a ti mesmo. Ama a Deus, aos vizinhos e a todos os seres criados por Deus. Com estes ensinamentos, a avidez, a ostentação e o vício são encarados como pecados a evitar. Sem esses pecados, os humanos ficam preparados para levarem uma vida centrada naquilo que é realmente importante e não na aparência do que é importante. Só essa mudança de atitude e de vida pode quebrar o ciclo de abusos sobre a Natureza.

Ramiro Marques


Notas:

1) Nomeadamente em Isaías.24:1-6 e Isaías.5:8

2) Northcott, M. (2007). Christian Ethics and Ecology. In Gill, R. (Org.). The Cambridge Companion to Christian Ethics. Cambridge: Cambridge University Press

3) Carta aos Coríntios (1 Cor.6:19).

Outra bibliografia: Northcott, M. (1996). The Environment and Christian Ethics. Cambridge University Press.

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  • Muito bom! Fazer serviço público com dignidade é isto mesmo, neutro e livre! Continuem!

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