A energia nuclear entra no rol das “verdes”

Antes de mais, devemos esclarecer que a designação “verde” se aplica àquelas tecnologias que não acrescentam CO2 à atmosfera. Por exemplo, a queima de biomassa é considerada “verde” porque se supõe que o CO2 libertado será depois reciclado pelas plantas. Já o CO2 resultante da queima do carvão, petróleo ou gás natural faz aumentar a quantidade deste gás na atmosfera e, por isso, deixa de ser “verde” e passa a ser castanha, suja, poluente.

Assim sendo, como a produção de energia elétrica a partir da cisão nuclear não liberta CO2, ela é considerada uma energia “verde”.

A ser verdade que o CO2 produzido pelo Homem está a conduzir o planeta para uma irremediável tragédia climática, a energia mais adequada para substituir os combustíveis fósseis seria a de origem nuclear, apesar dos riscos que se corre, e apesar do problema do lixo radioativo que se produz.

Mas, há sempre um “mas” nestas questões de energia, não se constroem centrais nucleares para colmatar a falta de energias intermitentes do vento e do Sol. Elas destinam-se a suprir a base dos diagramas de procura de energia a potências próximas das nominais porque só assim se tornam económicas face aos investimentos que representam.

E, uma vez que as energias intermitentes não garantem o preenchimento dos diagramas de procura de energia elétrica, algum outro tipo de central deve ter que assegurar a produção quando ela é necessária. São as chamadas centrais de pico, baratas em termos de potência mas caras em termos de combustível. As centrais de turbinas a gás, capazes de uma resposta rápida às variações da procura, são as mais adequadas para funcionar a fazer as pontas da procura. Também as hídricas podem ser usadas para este efeito mas não com a mesma segurança devido às variações da pluviosidade.

Acontece ainda que, quanto mais centrais intermitentes se instalarem, menos sentido fazem as centrais de base porque aquelas reduzem a utilização das últimas e tornam-nas anti-económicas. Foi o que aconteceu com as nossas centrais a carvão que, face à baixíssima utilização (13% no ano de 2021), tiveram que ser encerradas antecipadamente. Na atual situação, Portugal não tem mercado para centrais de base, sejam elas a carvão ou nucleares.

Porém, pela Europa fora, renasce o interesse pela energia nuclear que adquire estatuto de energia “verde” e o lóbi respetivo serve-se da fobia pelo CO2 para a sua promoção, apesar do lixo radioativo que gera. Após quase 30 anos em que os ambientalistas combateram a energia nuclear e pressionaram os governos a programar o encerramento gradual das centrais, já existem novas em construção em países como a Finlândia, o Reino Unido, a França e a Suécia. A Alemanha prolonga o funcionamento das existentes e não será de estranhar que também opte pela construção de outras.

Em países que já tinham centrais nucleares, a construção de novas centrais da última geração pode ajudar na redução do lixo nuclear, sobrando um lixo muito menos perigoso que o anterior. Mas ainda não existem centrais industriais deste tipo, apesar da tecnologia já estar pronta.

Recentemente os meios de comunicação dominantes fizeram notícia com um alegado pequeno avanço da energia nuclear de fusão nos Estados Unidos em que no processo se conseguiu retirar mais energia do que a gasta para a produzir. Na verdade a história não foi bem contada porque, apesar de se obter 2,5 MJ a partir de 1,8 MJ da energia de raios laser, não se tem em conta a energia necessária para gerar esses raios que será da ordem dos 500 MJ. Portanto, e para já, esqueça-se a energia de fusão para fins industriais nas próximas décadas… ou séculos!

A energia nuclear convencional de cisão é uma alternativa desejável (tal como o carvão), especialmente com centrais da quarta geração, mas devemos ter em mente que ela não consegue satisfazer todo o consumo. Mesmo em França – com o maior parque europeu de centrais nucleares – a produção de origem nuclear não consegue satisfazer toda a procura, devendo rondar atualmente os 50%. Isto porque as centrais nucleares estão economicamente vocacionadas para fornecer a energia de base, deixando as pontas para outro tipo de centrais como as de gás natural e as hídricas.

Em suma, a Europa precisa das centrais a gás e, quiçá, de mais aproveitamentos hidroelétricos. Investir ainda mais em energias fortemente intermitentes como o vento e solar vai encarecer a energia elétrica porque reduz a utilização das centrais térmicas, como já dissemos noutros artigos.

E de onde virá o gás de que a Europa tanto precisa? Importando dos países produtores, excluindo a Rússia por razões políticas, e intensificando a sua extração. As reservas de gás natural encontram-se distribuídas democraticamente por quase todos os países do mundo e na Europa também. Há que intensificar a sua exploração e fazer jorrar o gás por fracking do xisto como se faz noutras partes do globo. Na Europa, o fracking é permitido em Espanha, na Inglaterra, Dinamarca, Ucrânia e outros países de Leste. A Noruega considera o fracking inviável economicamente face à extração normal de reservatórios existentes, a Alemanha impõe fortes restrições, na França, Bélgica e Holanda é proibido, etc.. Portugal nem sequer sabe se tem reservas…

O único obstáculo a vencer é a barreira mental que se instalou com o mito das alterações climáticas antropogénicas que impede os governantes de atuar no sentido certo, preferindo dar prioridade ao incerto desde que seja “verde” – como por exemplo a aposta do Portugal de Costa e da Espanha de Sánchez no corredor “verde” do hidrogénio e outras fantasias climáticas.


Henrique Sousa

Editor para Energia e Ambiente do Inconveniente

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Sub-diretor do Inconveniente

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