A dor: Mariupol e Hiroshima

É impossível não lembrar Hiroshima ao ver a destruição na cidade de Mariupol. Cidades destruídas, irreconhecíveis, povoadas pelos fantasmas da vida perdida. É impossível não lembrar Hiroshima perante as crescentes ameaças russas de ataque nuclear, ou perante a sua visível tentação (intenção?) de forçar a NATO a pôr em prática o estipulado no artigo 5 do tratado.

Cada dor é uma dor e é absurdo tentar comparar a intensidade do sofrimento individual, seja ao que for.

O “black dog” é uma metáfora usada ao tentar compreender a dor humana. Há o black dog que se leva pela trela toda a vida, mas também aquele que, enorme, se aninha na cabeça de alguém, esmagando as suas possibilidades de defesa. Do primeiro, será exemplo Leonard Cohen transformando a angústia em arte ao longo da vida, deixando transparecer uma inegável tristeza em belíssimos poemas musicados. Tomemos, como exemplo, “Joan of Arc“:

“She said – I’m tired of the war

I want the kind of work I had beforehand

A wedding dress or something white

To wear upon my swollen appettite”.

Ou em “Famous Blue Raincoat“:

“And thank you for the trouble you took

From her eyes

Thought it was there for good

Só I never tried”.

Ou ainda, em “Waiting for the miracle“:

“Baby let’s get married

We’ve been alone too long

Let’s be alone together

Let see if we’re that strong.”

Cohen levou pela trela o seu black dog, ao longo duma vida longa, criativa, e recheada de amores parcialmente proibidos (a sua família judaica e conservadora só lhe permitiria uma noiva judia), mas intensamente vividos. Já Robin Williams, o inesquecível professor Keating de “O Clube dos Poetas Mortos”, é exemplo de como o cão preto se pode tornar feroz, tão feroz que ocupa a cabeça e todo o corpo da sua vítima, esmagando-a. E, todavia, a arte de representar permitiu-lhe fazer rir milhões de espectadores, ocultando por detrás do aparente bom humor, a dor insuportável que o haveria de matar. Em ambos os casos se aplica a formulação poética pessoana da “Autopsicografia”:

“O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

Do considerar a dor individual algo de tão pessoal e intransmissível que dela apenas conhecemos nos outros a superfície ou a aparência, extraio a ilação que também nas catástrofes sociais, naturais ou humanamente provocadas, as comparações, em termos de maior ou menor sofrimento causado, serão sempre dúbias, falíveis. Afinal, o que é a sociedade senão um conjunto de indivíduos? E, contudo, a contemplação aérea de Mariupol em ruínas traz à memória as fotos da Hiroshima destruída. Se os sobreviventes japoneses ficaram marcados no corpo e no espírito, aos sobreviventes da carnificina ucraniana sucederá o mesmo, exceptuando a sentença ditada pela radioactividade. Em cada indivíduo, todavia, ficará a companhia de uma dor única, que as palavras não saberiam explicar.

As grandes dores são mudas, afirma Ingmar Bergman. Talvez o sejam quando se entende as palavras como absolutamente inúteis e o alívio como impossível. É essa incomunicabilidade que recorda a obra-prima de Alain Resnais e Marguerite Duras “Hiroshima, mon Amour”. A obra que nos demonstra que pode ser tão doloroso esquecer quanto lembrar. Na Hiroshima reconstruída, encontram-se e amam-se uma francesa e um japonês, a que os autores não atribuem nome: são apenas “Ela”e “Ele”, ambos marcados por recordações tenebrosas. A intensidade da relação desencadeia então um emergir dessas recordações e a tentativa de as partilhar. Contudo, deparam-se com uma impossibilidade: ela insiste que viu Hiroshima; ele responde “tu nunca viste Hiroshima”. O diálogo é insistentemente repetido como se se quisesse derrubar uma barreira inexpugnável.

Todavia, também “Ela” tinha vivido o horror absoluto, o Horror que Joseph Conrad bem retrata em “The Heart of Darkness”. Uma variante pessoal do horror, cujo nome não era Hiroshima, mas sim Nevers. Aí, muito jovem e ingénua, amara um soldado alemão durante a ocupação da França. E aí assistira à sua morte, quando os Nazis foram derrotados. Em seguida, sofrera a humilhação pública reservada às colaboracionistas: cabelo rapado à navalha, rosto emporcalhado, escárnio e reclusão. Numa cave de Nevers, o tempo deixara de contar para ela. Fora uma eternidade de sofrimento. Nevers é a sua Hiroshima, o que Ele nunca poderá compreender, tal como Ela não compreende,” nunca viu”, como Ele viu, o sofrimento causado pelo cogumelo atómico.


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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