A culpa dos males do mundo é do meio grau de aquecimento global

Não há um dia sequer em que não se oiça falar das alterações climáticas. Por duas razões apenas: por tudo e por nada! Se há um incêndio na Califórnia, na Grécia, na Amazónia, em Sidney, a culpa é das alterações climáticas… Se há fome em Madagáscar, no Sudão ou nos bairros pobres de uma qualquer cidade, a culpa é das alterações climáticas… E escusado falar de um tornado, ciclone ou furacão, onde é mais do que óbvio que a culpa é exclusivamente das alterações climáticas que todos nós andamos a provocar porque usamos combustíveis fósseis em vez das energias renováveis…

As alterações climáticas têm as costas largas: servem para justificar tudo o que de mau acontece. A própria pandemia de SARS-CoV-2, e suas variantes, tem origem nas alterações climáticas… Foi o meio grau de aquecimento global que despoletou o vírus adormecido desde a última glaciação e que agora encontrou as condições ideais para ressuscitar!…

Além de largas, as alterações climáticas devem ter também as costas quentes porque todos os dias, a qualquer hora, se fala delas. E fala-se com uma convicção tal, que ela perdeu o estatuto de hipótese para passar a ser uma verdade científica absoluta. E quem não a aceitar é um herege, um anátema, um assassino…

Se, por um lado, as alterações climáticas são um pecado geral da humanidade – quem nunca usou combustíveis fósseis que atire a primeira pedra… -, por outro lado permite-nos transferir a culpa das desgraças para algo abstrato que só bem no fundo, e por razões que até são compreensíveis (não podemos deixar de comer, de trabalhar, de nos deslocarmos…), são da nossa responsabilidade.

Tomemos como exemplo a fome e a miséria em África. Se no século passado vivíamos atormentados e mortificados com as imagens de crianças famintas do sul do Sael, enquanto o mundo civilizado se debatia com problemas como a obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e AVC – ditas doenças da civilização –, agora a fome e miséria em África é apenas uma consequência das alterações climáticas, nas quais a culpa se encontra diluída. Não vamos deixar de comer hambúrgueres e batatas fritas porque os meninos em África morrem à fome. Pelo menos, já podemos comer essas coisas com a a consciência mais tranquila.

Escusamos também de continuar a culpar os colonialistas que não criaram condições de vida digna para os povos de África e andaram a explorá-los enquanto puderam e depois os abandonaram à sua sorte. Muito menos devemos condenar os governos dos países que emergiram após a descolonização, pois ainda não tiveram tempo de criar melhores condições de vida às populações. As guerras, os conflitos armados, o terrorismo, são apenas o reflexo de uma descolonização mal feita e do neocolonialismo que depois se instalou para continuar a exploração de recursos importantes – veja-se o caso do norte de Moçambique… Agora não, nada disso é válido. O único culpado disso tudo dá pelo nome de “alterações climáticas”.

Na África do Sul, os apoiantes do antigo presidente que agora foi detido desencadearam uma ação armada com mortes e saques à mistura. É mais que evidente o papel das alterações climáticas neste conflito: foram elas que fizeram prender o ex-presidente Zuma por corrupção!… E a corrupção é necessária para combater as alterações climáticas e a pandemia e gerar o progresso de qualquer nação!…

O sul de Madagáscar enfrenta uma seca que já está a provocar fome nas populações e estas vêm-se obrigadas a comer tubérculos, gafanhotos, ratos. É claramente uma consequência das alterações climáticas. Assim, a OUA, a a ONU ou qualquer país, ficam ilibados da responsabilidade de prestar auxílio a Madagáscar. A culpa é das alterações climáticas e o assunto fica assim arrumado!…

Na Nigéria, o país mais populoso e um dos mais ricos de África, o PIB per capita era de 2.412 dólares em 2017, inferior ao de um país pobre como Cabo Verde que era de 3.536 dólares no mesmo ano e dez vezes inferior ao de um qualquer país pobre da Europa como Portugal. A culpa é, uma vez mais, das alterações climáticas!…

As alterações climáticas são responsáveis pela má exploração dos recursos e gestão corrupta da riqueza na Nigéria, um dos principais fornecedores de petróleo dos Estados Unidos. Petróleo que é uma das principais causas das alterações climáticas. Se a Nigéria deixasse de exportar petróleo e apostasse mais nas “energias verdes” e na “transição climática”, passaria a ser um país riquíssimo!… E os bandidos locais deixavam de raptar crianças nas escolas para exigir depois resgate por elas quando não as matam!…

Toda a fome e miséria que se vive no mundo, especialmente em África, tem um só culpado: as alterações climáticas! Por isso, África tem de seguir o exemplo de Portugal (e do mundo) e apostar na transição climática e nas “energias verdes”, acabando com a exploração de combustíveis fósseis que só destroem o planeta e causam a fome e a miséria!…


Henrique Sousa
Editor de Energia e Ambiente do Inconveniente

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Latest comments

  • Foram as alterações climáticas que provocaram o dilúvio bíblico.

  • Caro Henrique Sousa, vai desculpar-me a “inconveniência” mas porque ainda acredito que é a falar que os homens (e elas tb), se entendem, não resisto a perguntar :
    – Quais são mesmo as suas “credenciais” na área da Energia & Ambiente ?
    Confesso que estava expectante sobre o seu 1º artigo pós catástrofe envolvendo a Bélgica, Luxemburgo, SW da Alemanha, e já o imaginava a desenterrar valores de precipitação do registo histórico para demonstrar que aquilo não tinha nada de inédito e assim continuar a sua saga negacionista!
    Constato que não seguiu essa via, mas sim outra ainda mais estulta! Fala de covid, de motins em África e outras tretas, mas de ambiente nada diz de útil!
    Mas ainda assim se assume “Editor de Energia e Ambiente do Inconveniente”!
    A “imprensa do sistema” diz que blá …blá.. há 100 anos que não se via nada assim ! Ok, então já não é inédito !
    [ https://www.publico.pt/2021/07/16/mundo/noticia/sobe-81-numero-mortos-cheias-alemanha-ha-mil-desaparecidos-1970603 ]
    Há 100 ainda o CO2 não fazia mossa, e se fazia não era certamente por causa do petróleo, logo há por aí outro factor a ter em conta …
    Depois a “imprensa do sistema” tem como hábito “distorcer” os factos para os ajustar à narrativa climática da moda.
    Mas a imprensa alternativa faz precisamente o mesmo, e à descarada!
    Há até quem diga que aquilo foi causado por má gestão de barragens!
    Mas eu entendo, eles têm imagens que não dá para “negar” o nível catastrófico da coisa, eles têm depoimentos identificados de populares e meteorologistas que são algo mais do que meros sáfios bragantes do ambiente, e isso deve ser mesmo muito complicado de “desmontar” e “negar”, daí o xuto para canto!

          • Se estas cheias na china, mais as da alemanha, vieram demonstrar alguma coisa, foi novamente o comportamento humano. Emparedam os rios, constroem junto aos rios, constroem nas linhas de água, cortam a vegetação, por causa dos incêndios etc, etc. Claro que quando chove mais do que é normal, ou muito mais, os desastres acontecem e com maiores proporções.
            Depois diz-se que as alterações climáticas é que são culpadas, porque ou não sabemos o que andamos a fazer, ou somos negligentes.
            Apontar as alterações climáticas antropogénicas como causa é continuarmos na ignorância a repetir os mesmos erros. Pescadinha de rabo na boca…

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