A cruz das crianças abusadas: o caso Lady Padre

Continuamos neste artigo a tratar do assunto dos abusos sexuais de menores na Igreja Católica portuguesa, dedicando primeiramente uma série de artigos de investigação a casos de padres do Patriarcado de Lisboa.

Este primeiro artigo trata do caso do padre José António Baptista da Cruz, nascido em 1966 e ordenado presbítero em 1992. Veio referido na imprensa como tendo alegadamente abusado de um menino de 11 anos, e de outros, no final da década de 1990, quando estava colocado na zona de Arruda dos Vinhos – ver o Observador, de 27-7-2022 (artigo pago), o CM, de 28-7-2022, o Zap, de 28-7-2022, e o Zap, de 13-9-2022. Aplicou-se-lhe, no tempo do patriarca D. José Policarpo, o castigo habitual da transferência. Ficou sem paróquia atribuída e foi movido para capelão hospitalar (Hospital da CUF, em Lisboa).

Em 2003, o padre José Cruz criou uma associação civil, designada “Eira da Paz e Alegria”, numa quinta da sua família em Moita dos Ferreiros (Lourinhã). Aí fez umas construções precárias, onde, até há pouco, celebrava missa e realizava outras atividades de cariz religioso, que atraíam famílias, adultos, crianças e idosos. Uma vez por ano faziam uma peregrinação a Fátima, na qual chegaram a encher a basílica da Santíssima Trindade.

As autoridades eclesiásticas não tinham tutela sobre a associação e, atendendo ao impacto do número de pessoas envolvidas, que sempre assustam a tomada de decisões necessárias, preferiam ignorar essas atividades, que também envolviam crianças, adolescentes e jovens. O padre José Cruz era solicitado para outras iniciativas religiosas e de animação, para as quais se fazia acompanhar de adolescentes, como foi referido ao Inconveniente.

Para lá da desobediência da doutrina na comunhão de recasados, nas celebrações, como a missa, o padre efetuava no altar coreografias estranhas, com danças sinuosas, esvoaçando a casula, que geraram perplexidades de heresia e se tornaram virais, vídeos em que era designado por “Lady Padre”. Ganhou grande projeção mediática no Youtube e nas redes sociais e foi convidado a participar em programas de televisão. Depois do escândalo rebentar, as atividades da associação foram suspensas.

A reportagem do Inconveniente inquiriu alguns residentes da zona, além de outras pessoas que preferiram guardar anonimato, mas nenhuma referiu abusos sexuais sobre crianças. Consta sofrer de doença grave e que está internado.

D. Manuel Clemente confirmou, em carta-aberta de 29-7-2022, ter-se encontrado em 2019 com a vítima dos alegados abusos do padre José Cruz, mas não desencadeou procedimento canónico (ou participação criminal) sobre o padre, justificando: “Não entendi, como não entendo hoje, ter estado perante uma renovada denúncia da feita em 1999”. E ajuntou que:

“Em relação ao sacerdote em causa, o mesmo foi acompanhado e até à atualidade nunca houve qualquer denúncia ou reparo sobre o seu comportamento moral. Nunca ninguém comunicou, nem sob anonimato, qualquer acusação. Aliás, as medidas cautelares previstas para estes casos visam sobretudo a proteção de possíveis futuras vítimas, o que pode estar acautelado, em especial quando, passados anos, nunca mais houve denúncias nem indícios.”

Eira da Paz e Alegria, Moita dos Ferreiros (Lourinhã)
Capela da Eira da Paz e Alegria
Acesso à Eira da Paz e Alegria

O jornal enviou mensagem ao padre José Cruz sobre estes factos e imputações para o endereço oficial indicado no Anuário Católico, mas não obteve resposta.


António Balbino Caldeira


Nota: Sobre o enquadramento do tema veja-se, no Inconveniente, “Abusos sexuais de menores na Igreja Católica portuguesa”, de 17-8-2022, e ainda “Abusos sexuais de menores na Igreja Católica portuguesa – II”, de 24-8-2022, sobre a distinção entre abusos sexuais de menores de 14 ou 16 anos (consoante tenham ocorrido depois ou antes de 2007) e coação, assédio e abuso de adolescente ou jovem internado, da homossexualidade ou heterossexualidade praticantes por clérigos e pessoas consagradas maiores a quem o Código de Direito Canónico, no cânone 277.º, estipula “continência perfeita e perpétua”.

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  • Só hoje descobri este Jornal.

    Gostei de ler este artigo….

    Vou continuar a ler….

    Bom encontrar-te aqui amigo.

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