A cobardia gerada pela Covid-19

© mohamed_hassan via Pixabay

Os portugueses vivem há 14 meses mergulhados em sucessivos estados de emergência. Confinamentos atrás de confinamentos atiraram centenas de milhares de portugueses para a pobreza, vítimas de um regime não democrático e de um grupo de tiranetes que ocupam os mais elevados cargos do Estado. Com a justificação da Covid-19 roubaram-nos os direitos e liberdades, obrigaram-nos ao recolher obrigatório, impediram ou limitaram as nossas deslocações e bloquearam grande parte das actividades económicas.

Quem nos garante que as elites globalistas e catastrofistas não voltarão a fazer uso dos confinamentos à mais pequena ameaça de um novo vírus? E se os confinamentos passarem a ser a arma de eleição dos catastrofistas do clima? O recurso aos confinamentos parece ter a simpatia dos portugueses que vivem encostados ao Estado. É fácil convencer uma população avessa ao risco e à coragem a prescindir dos direitos e liberdades constitucionais. Uma população habituada a aceitar mansamente os atropelos vindos de um Estado visto como sábio e protector é facilmente manipulável.

Nunca como agora o País ficou tão dividido: metade dos portugueses resistem à Covid-19 com leveza e sem perda de rendimentos. São os que trabalham para o Estado e empresas públicas. A outra metade viu os pequenos negócios fechados pela força de leis e normas autoritárias e sem sentido. De repente, e sem que contribuíssem para isso, milhares de portugueses tiveram de recorrer aos bancos alimentares para sobreviverem. Muitos tiveram de encerrar os negócios.

Já se sabe há muito que os trabalhadores do Estado acumulam privilégios que são negados aos que trabalham no privado. O regime corporativo não democrático criou duas classes de portugueses. Os primeiros gozam de segurança absoluta no emprego e trabalham menos horas por semana. Não perderam um euro de rendimento. Os outros viram as vidas suspensas e foram atirados para a pobreza.

Essa diferença manifesta-se também pela forma como o processo de vacinação está a correr. Em vez de o Estado vacinar, em primeiro lugar, os mais idosos, a população com mais de 65 anos de idade, aquela que está mais fragilizada, o Estado deixou-se aprisionar pelos grupos de interesse, os sindicatos e as ordens profissionais. Em vez de seguir um critério objectivo, como a a idade, o plano de vacinação foi-se curvando aos diversos poderes corporativos, dos profissionais de saúde sem contacto directo com doentes Covid aos bombeiros, dos políticos aos professores. Os idosos foram deixados para trás e um dos grupos com maior taxa de mortalidade, a faixa etária dos mais de 65 anos, foi sendo ultrapassada por todos os grupos corporativos. Se o Estado tivesse optado por um único critério – a idade –, ter-se-ia poupado milhares de vidas e o processo de vacinação teria sido mais rápido.

A lentidão do processo de vacinação não resulta apenas da escassez de vacinas. É uma consequência dos interesses corporativos da Ordem dos Enfermeiros que usou a sua influência corporativa para impedir a vacinação nas farmácias.

A cobardia manifesta-se em todo o lado: é um vício transversal que tomou conta de todas as corporações. Estar entre os primeiros a serem vacinados, deixando para trás os mais idosos, aqueles com maior taxa de mortalidade, tornou-se o desígnio de boa parte das elites políticas. A retórica catastrofista, veiculada pelos média até à exaustão, abriu caminho à cobardia como se, de súbito, o país das descobertas e das navegações se tivesse transformado no país dos mariquinhas.

Tornou-se vulgar ver netos saudáveis a serem vacinados antes de avós doentes. Momentos destes trazem o melhor e o pior que há dentro de nós. As ondas de medo e pavor, alimentadas pelos catastrofistas, fizeram crescer a cobardia. A coragem, outrora ensinada nas famílias e nas escolas, deu lugar à cobardia, à procura do risco zero e à fuga face às mais pequenas adversidades.

Não nego que a Covid-19 é uma doença que, associada a outras enfermidades e à idade avançada, mata. Ainda assim, a Covid-19 tem uma taxa de mortalidade muito pequena se comparada com as mortes por cancro, doenças cardiovasculares e outras que foram desvalorizadas pelas autoridades de saúde nos últimos 14 meses.

O combate à Covid-19 não justifica a perda das liberdades e dos direitos individuais. Nem justifica a histeria e o medo provocado pelos catastrofistas e alimentados pelos média. O combate à Covid-19 exige sobretudo um sistema de saúde, público e privado, com recursos suficientes para lidar com um afluxo anormalmente grande de doentes aos hospitais. E isso é precisamente aquilo que o Estado socialista é incapaz de garantir.

Se há coisa que a epidemia colocou à vista foi a desorganização e omissão dos serviços do Estado que, subitamente, deixaram de dar resposta aos pedidos e necessidades dos cidadãos. Essa desorganização e omissão mantém-se apesar de o número de novas infecções e de internamentos ter caído muito nas últimas semanas. Os serviços continuam fechados ou a laborar em part-time e os cidadãos impedidos no acesso ao atendimento por telefone ou presencial.


Ramiro Marques

*O autor usa a norma ortográfica anterior.

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  • Concordo com o artigo. De facto, os casos já estavam elevados antes do Natal e o confinamento foi realizado e continuou até agora. O Rt é uma fórmula que pode nada dizer, pode até dizer, que quando há poucos casos, mais sobe que foi aconteceu no último mês. Há que colher dados de forma correcta e seguir e isolar os contactos. Mas isso não foi feito desde o fim do verão, quando houve tempo para organizar os serviços de saúde pública.
    A política de transportes foi criminosa e ainda teremos de ver se deveria ser feita avaliação dos tratamentos nas várias fases da doença.
    Sempre trabalhei no SNS, mas sem nada ter contra a medicina privada, mas vi tanta reforma e cada uma pior que a outra, por motivos ideológicos, que hoje chego à conclusão, (já antes chegara), que o SNS já estava falido em Janeiro e antes da epidemia pela política do actual Governador do Banco de Portugal, não pagar dívidas e cativar. De facto, não concordo é com a ideia contada como anedota de um indivíduo chamado Otelo que dizia ao PM Sueco Palm que “queria acabar com os ricos em Portugal” ao que em resposta pronta de Palm foi: que na Suécia, ele, como PM queria acabar com os pobres. Portanto, o problema do nosso país está nos maus dirigentes, na má política e na continuação dos erros, porque existe uma partidocracia e dizer que há uma democracia é anedota para chorar. Mas atenção, a degradação dos regimes ditos representativos na Europa passa pelo mesmo. Por último, lembro aqui um episódio no mínimo caricato, passado numa espécie de inquirição a Fauci, Director do NHS dos USA, em que um senador republicano, perguntava várias sem resposta, ou com a resposta, que só terminavam as medidas de confinamento quando os números baixassem, sem mostrar um único número, mas a anedota era que o tipo já estando vacinado usava máscara e nunca a largou, teria medo do vírus airborn, ou que afinal a vacina não serve? Esta é mais uma figura de um tiranete que sabe mais do que conta. Assim vai o mundo e Portugal não é excepção, a ignorância não é apenas do pequeno povo é também da “Grande Ciência”, se é que no segundo caso se pode chamar de ignorância ou ganância e conflito de interesses não declarados.

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