A arte de viver em exílio interno

Todos temos duas vidas, a real e a sonhada, como nos explica Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), no seu genial poema “Dactilografia“. E só a cada um de nós cabe escolher os momentos em que podemos viver na verdadeira, a “dos sonhos, dos livros coloridos da infância”, continuando, afinal, ordeiramente, aparentemente, na falsa, a do ruído, por vezes insuportável, da ” máquina de escrever”. Neste país, há momentos, e épocas, em que só o sonho, a evasão, a utopia, são refúgio. Pode então, obviamente, optar-se por um exílio real, como fez Jorge de Sena, como fizeram, e fazem, tantos. E contudo, essa distância acarreta ainda uma outra dor, a da distância física da Pátria, apesar de tudo, amada. Pode a pessoa, como Herculano, recolher-se a Vale de Lobos e pode, como Almada Negreiros, declarar-se o ódio ao que se vê como medíocre. “Morra o Dantas, morra, pim!”

O Pessoa adulto, contudo, ficou. Fortemente marcado pela cultura inglesa, que foi a sua em grande parte da infância e da juventude, via África do Sul, permaneceu, observou, e criou um mundo interior tão rico quanto o seu génio permitiu. À “dor de pensar” que o atormentava, respondeu sendo “tudo de todas as maneiras”, gerando uma heteronímia que lhe permitisse ser, ao mesmo tempo, um estóico-epicurista da Antiguidade Clássica e um entusiástico futurista; um sensacionista excessivo e um homem capaz de disciplinar qualquer assomo de emoção; um quase iletrado e um  sofredor de excessiva intelectualização. Criando, sobretudo, um sebastianismo próprio, que lhe permitisse sonhar uma Pátria de novo grandiosa.

O mito sebástico, aliado ao do Quinto Império foram, no único livro que em vida publicou, “Mensagem”, o seu caminho para uma qualquer esperança.  O poema “Ao Presidente-Rei Sidónio Pais” demonstra isso mesmo: a disposição para acolher e apoiar quem se lhe afigurasse poder salvar Portugal da letargia. E, na verdade, “Sem a loucura/ Que é o homem/ Mais do que a besta sadia/ Cadáver adiado que procria?” Haverá algo na genialidade que permite, em épocas tão distantes, a Pessoa e a Camões, exprimir o mesmo desejo de ver a Pátria a salvo da decadência.

Na realidade, também Camões, dirigindo-se ao muito jovem rei D. Sebastião, se atreve, pelo mais puro e forte patriotismo, a pedir-lhe:

“Fazei, Senhor, que nunca os assombrados/ Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses/ Possam dizer que são para mandados/ mais que para mandar, os Portugueses.Tomai conselho só de experimentados/ Que viram largos anos, largos meses…”

Exilados no seu próprio país, ambos “viveram pobremente, e pobremente morreram”, parafraseando o epitáfio de Camões.

Poderíamos falar dos sonhadores Românticos, escolhendo como herói justamente Camões, poderíamos focar o frustrado desejo de modernidade dos auto denominados “Vencidos da Vida”, ou dos sonhos Modernistas /Futuristas do Grupo do Orpheu. E chegaríamos provavelmente à conclusão de que Portugal se tornou irreformável. Assim, que temos hoje senão desalento e uma pseudo-alegria “como o fogo fátuo encerra”?… A pseudo-alegria das festas popularuchas, bem diferentes das populares, pela boçalidade disfarçada de graça, pelo ruído disfarçado de música. O pseudo-desígnio nacional das vitórias futebolísticas, como marca dos “melhores do mundo”, embora os factos e nos coloquem na cauda da Europa. A paupérrima e enviesada programação televisiva, onde quem mais guincha ou saltita mais depressa atinge o “estrelato”. O já tão depauperado sistema de ensino nas mãos de alguém a quem não se conhece um único pensamento sobre pedagogia. A informação assolada pela penúria geral e sustentada por dotações do Estado, que assim a captura. A justiça fazendo lembrar a “Divina Comédia”, porque, quanto a ela será melhor que deixemos para trás toda a esperança. E, agora em relevo, a Saúde, nas mãos de uma jovem que, aparentemente nem dos próprios dentes sabe tratar. A deixar morrer milhares de pessoas por falta de assistência atempada, na tentativa de “fazer bonito” no combate ao malfadado Covid, mas nem isso conseguindo.

Em “A irmandade do anel”, de J.R.R. Tolkien, Frodo lamenta-se: “I wish it need not have happened in my time”. Quantos de nós não diríamos o mesmo, perante um “novo normal” que de normal nada tem e face à desesperança que se vai instalando? Para mim, por enquanto, no meu próprio Vale de Lobos, onde nem Costa nem Sócrates alguma vez foram considerados primeiros-ministros, num exílio interno de onde não se ausenta um Sebastianismo activo, a certeza de que algum dia Portugal deixará de ser “para mandado”, pobre pedinte de mão estendida à esmola.


Isabel Pecegueiro

* A autora usa a norma ortográfica anterior.

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Latest comments

  • Partilho inteiramente desta sua reflexão!

    • Fico contente. Obrigada 😊

  • Brilhante artigo !
    Parabens

    • Muito obrigada 😊

  • Obrigado pela lucidez, no dias que correm um bem tão raro como poscrito.

    • Não é fácil manter essa lucidez. Obrigada 😊

  • É difícil comentar um artigo impecável. Difícil é também não partilhar as ideias expostas, tão bem argumentadas, e documentadas com citações de figuras notáveis da literatura portuguesa, que são a prova cabal de que neste país vale a pena escrever mesmo que não se ganhe o Nóbel.
    No entanto, recuso-me a pensar que o pessimismo que li nas entrelinhas – para alguns só puro realismo – represente a morte anunciada dum futuro melhor.
    O artigo leva a uma reflexão sobre o que significa ser português num país que se chama Portugal, que existe (e muitos portugueses ignoram) há dez séculos “Onde a terra se acaba e o mar começa” (L.V.Camões). Onde está a consciência da própria identidade nacional?
    Escrevia no século dezoito outro grande da literatura portuguesa Eça de Queirós:
    Sempre o governo! O Governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquitecto – tudo! Quando um País abdica assim nas mãos dum Governo toda a sua iniciativa e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do sol, esse País está mal; as almas perdem o vigor, os braços perdem o habito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo está lá para fazer tudo – o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir.
    Está provado que D. Sebastião morreu na batalha e, mesmo que não tivesse morrido, nem ele nem os seus “fans”saudosistas que continuam à espera passivamente do milagre poderão resolver as questões do Portugal de hoje.

  • errata corrige: século dezanove

  • Errata corrige: século XIX (Eça); “quase” dez séculos Portugal.

    • Obrigada pela apreciação, um belo texto em si mesmo. Contudo, fala-se de um Sebastianismo activo, da espera de alguém que valha a pena apoiar. Sidónio Pais teria sido para Pessoa, esse homem.
      Embora Eça tenha razão no transcrito, o estado actual das lideranças consegue justamente contrariar, via impostos e legislação avulsa, esse estado desejável.

  • Simplesmente estupendo!
    Retrato muito fiel do que e o Pais e o sentimento alguns portugueses.

    • Muito obrigada.😊

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