2048

Para comemorar o centenário da obra de ficção 1984 de George Orwell, escrita com vários anos de antecedência (possivelmente em 1948) e considerada como futurista, será lançada em breve uma nova obra futurista com o título 2048. Pede-se ao leitor que não se deixe baralhar com as datas…

Esta ficção, cujo enredo começará em torno de 2020, é inspirada na pandemia que assolou o mundo a partir daquele ano e provocada por um vírus que surgiu misteriosamente na China em 2019. Segundo a inspiração do autor do livro, a sair em 2024, em 2048 a pandemia ainda persistirá, tendo as variantes do vírus esgotado há muito as letras do alfabeto grego. Depois da variante ómega, os virologistas passaram a utilizar um código semelhante às matrículas dos carros, estando, nesse ano de 2048, a variante 99-ZZ-99 muito ativa.

Assim, desde 2020, o uso da proteção facial nunca mais foi abandonado no ocidente e tornou-se alvo de chacota nos países islâmicos, que antes eram criticados pelo uso da burca. De facto, em todos os países ocidentais a burca foi promovida a EPI (equipamento de proteção individual) e é usada por ambos os sexos – quando tiverem autorização especial para sair de casa.

O conceito de liberdade já tinha sido alterado várias vezes por causa da pandemia, sendo a última versão a de que “a tua liberdade acaba sempre que for preciso”! Mas as pessoas, em 2048, já aceitam tudo porque muitos nunca viveram sem pandemia e acham tudo muito normal. O tal novo normal de que hoje se fala, que ainda não é normal para nós, mas será normalíssimo em 2048.

Os políticos que, antes de 2020, prometiam crescimento económico, emprego, saúde e educação, em 2048 passaram a prometer a abolição da máscara como quem promete a abolição da escravatura, a redução do distanciamento social como quem promete a redução de impostos, uma vacina eficaz contra todas as variantes mesmo depois do fracasso das anteriores. Mas exigem ainda mais sacrifícios, mais confinamento, distanciamento, alienação da liberdade individual e sobretudo muita resiliência para se poder ultrapassar depressa a pandemia.

Pessoas houve que nunca mais saíram de casa. Os mais bem-aventurados (que não perderam emprego) passaram a trabalhar a partir de casa. Muitas profissões que exigem hoje a presença num local de trabalho, deixaram de existir. As pessoas foram em grande parte substituídas por robôs que podem ser dirigidos a partir de casa. Do médico ao varredor de rua, todos passaram a trabalhar em casa:

– O varredor acorda às 5 da manhã, senta-se ao computador e manobra a sua vassoura elétrica que vai varrendo, sem esforço muscular, as ruas da cidade completamente vazias de gente e de lixo (até porque deitar o lixo na rua passou a ser punido com coimas semelhantes às das beatas…);

– O cirurgião pega às 7 da manhã e opera remotamente os seus doentes sem sair de casa, via internet e com a ajuda da tecnologia 2000G até às 7h da noite, numa linha de montagem que permite produzir pelo menos duas operações por hora. E tudo controlado pela DGS;

– A dona de casa acorda às 7h da manhã, senta-se ao computador e assiste ao programa automático que acorda os filhos, os leva à casa de banho, lhes lava a cara, os dentes, etc.. Depois veste-os, calça-os e leva-os a tomar o pequeno-almoço preparado pelo robô de cozinha. Em seguida os filhos são encaminhados para os computadores onde assistem às aulas à distância, ficando ocupados até à hora do almoço… e depois do almoço repetem a dose (um Admirável Mundo Novo!);

– À hora das refeições, as famílias com rendimentos do trabalho remoto, recebem a comida através do serviço de entrega ao domicílio comandado remotamente por alguém em tele-trabalho e cuja faturação é também processada remotamente. Mas mesmo os robôs de entrega ao domicílio usam máscara e passam álcool-gel nas mãos, digo, pinças;

– Pelas ruas já só circulam robôs, e um ou outro negacionista que os polícias-robô multam sem dó nem piedade ou, com a ajuda da vídeo-vigilância, são passadas coimas de cobrança direta na conta do infrator, que também será autuado por não ter ainda o certificado de vacinação. Uma vez que este também se tornou obrigatório desde 2024, ano que já fora pensado como sendo o do fim da pandemia mas não chegou a ser porque entretanto mudaram-se os planos;

– Nas redes subterrâneas de metro, há muito abandonadas, viviam as pessoas que ficaram sem nada, o novo lumpen-covidariado, que sobrevivia do lixo que a classe privilegiada dos tele-trabalhadores produzia e elas reciclavam.

Depois de um período difícil do salve-se quem puder nas redes subterrâneas, foi eleito um governo, conhecido por Governo Sombrio que tratou de organizar a vida nas catacumbas. Cada estação tinha uma função: tribunal, hospital, escola, cemitério, polícia, etc.

Havia muita falta de profissionais porque juízes, médicos, enfermeiros e professores tinham ficado à superfície em tele-trabalho, à exceção dos reformados. E estes reformados foram os que maior utilidade tiveram a ensinar as suas profissões aos restantes. E surgiram alternativas: antigos seguranças de estabelecimentos de diversão foram recrutados para polícias ou até magistrados, os talhantes aprenderam rapidamente a operar pessoas à moda antiga e a indústria de reciclagem dava emprego a quase todos (menos àqueles que não sabiam ou não queriam fazer nada e que foram então escolhidos para a Assembleia Popular. E deram ótimos políticos…).

Mas a primeira medida tomada pelo Governo Sombrio, eleito por unanimidade nas catacumbas, foi o da abolição da pandemia, até porque não havia vacinas para vender e assim ninguém lucrava.


* imagem via Wikimedia Commons

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Latest comments

  • A cacografia também é bem orwelliana.

  • Through clever and constant application of propaganda, people can be made to see paradise as hell, and also the other way round, to consider the most wretched sort of life as paradise.
    Adolf Hitler
    Por meio da aplicação inteligente e constante de propaganda, as pessoas podem ser levadas a ver o paraíso como o inferno e, também, o contrário, a considerar o tipo de vida mais miserável como o paraíso.
    Adolf Hitler

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